segunda-feira, 9 de março de 2026

Destino Perdido

 Ele quase caiu da rede num susto quando o tranco da madeira da proa bateu na coluna de concreto do porto recém-construído. Eles haviam chegado, no convés ouvia-se vozes e gritos de ordem para o desembarque lá fora, pelo pequeno buraco da janela inferior, entrava um som distante de gaivotas. Passou as mãos no rosto, suas unhas sujas contrastaram com seus olhos azuis profundos, puxou os cabelos claros para trás e os amarrou num coque. Levantou e quase bateu a cabeça na madeira de sustentação da estrutura central do velho barco Destino Perdido – maldito nome que ele nunca gostou.

 

Subiu as escadas e lá estava ele, o tão aclamado, e já famoso naquela altura da história, Novo Mundo.  No convés o padre Pedro Celestino estava em cima de um caixote, de onde uma reza era proferida, a sua voz calma e baixa, fazia com que os marujos ficassem em absoluto silêncio enquanto recebiam aquela benção:

 

“Deus e único representante da santa trindade, abençoe nossa chegada nessa nova terra. Nos defenda dos profanos habitantes desses montes e florestas, que eles possam ver em ti a única luz verdadeira, que nossos homens sejam fortes nas batalhas que virão, e que vossa bondade nos proteja desses animais que não acreditam em ti, amém”

 

- Amém! – Disse em coro todos os marujos. Imediatamente os gritos retornaram, e o desembarque se iniciou. Sinceramente, quando o sol atacou com força seus olhos azuis, os pensamentos que lhe ocorrem foram os mesmos, como aquela estranha reza cheia de ódio oculto poderia alcançar qualquer tipo de santidade? Ele andou pelo convéns e pegou um barril de óleo de baleia, começou a descida. Na praia já havia muitos marujos, das outras embarcações que faziam parte daquela frota. Quando pisou na areia sentiu que não voltaria vivo dali. Colocou o barril junto com os demais. Andou um pouco praia adentro, arrumou novamente seu coque, olhou para a mata fechada logo a frente onde a praia terminava. Sentiu um frio na espinha, um misto de medo com curiosidade sobre como seriam os selvagens que já ganhavam fama na Europa pela sua força e maldade, havia até mesmo relatos de que comiam seus inimigos. Esse pensamento o fez repensar sua opinião sobre a reza inicial do dia.

 

Um tiro de canhão ao longe anunciou a chegada do responsável geral por aquela frota o famoso Bartolomeu Salazar de Castro Machado, sua figura era de um homem corpulento, forte, quase gordo, usava sempre uma armadura de proteção sem necessidade, num primeiro olhar, um homem corajoso e forte, porém, era um ser humano medíocre, conhecido entre os marujos como um covarde que muito falava, porém pouco fazia. Amigo do rei, ocupava um cargo de alto renome, sem nunca ter provado tal valor. Ele desceu as escadas acompanhado de seus servos, eram 3 de cada lado, uma postura de luxo com roupas claras que bem pouco combinava com aquele ambiente, menos ainda, com os trapos maltrapilhos usados pelos marujos que da praia o olhavam com desdém.

 

- Essa praia que aqui piso, será chamada de Praia de Castro Machado! Que registrem os tabeliões que eu fui o primeiro aos pés aqui colocar. Que fique marcado na história que o novo mundo tem na sua origem as digitais de Bartolomeu Salazar de Castro Machado, que em nome do rei, reivindica essa terra para a coroa, e que nosso Senhor o verdadeiro Deus nos abenç.....”

 

Antes que ele pudesse concluir a última frase uma flexa cortante e veloz rompeu o ar e fincou-se bem entre os olhos do seu servo a direita, que caiu com os olhos abertos para trás. Inúmeras outras flexas se seguiram, os outros servos formaram um escudo para proteger aquele covarde, que como tal, correu para dentro da sua embarcação. Na praia a correia se instaurou, marujos correram na direção dos rifles que estava todos encostados próximos aos barris de pólvora. Enquanto se armavam ouvia-se gritos de “selvagens, selvagens” e não demorou para que estouros de tiros também se fizessem ouvir.

 

Sua função naquela embarcação era de limpeza, ele nunca havia pego numa arma antes, mas também correu, enquanto amarrava seu cabelo para trás novamente, se abaixou enquanto corria, usando as mãos como apoio na área molhada, se escondeu atrás dos barris de óleo de baleia, de onde olhou pelo canto, escondendo boa parte do seu corpo, toda aquela carnificina. Selvagens surgiram como uma avalanche de abelhas de dentro da mata, eram milhares, corriam na direção dos marujos com machados e flexas, gritavam muito, o que fazia parecer que havia muito mais. Os marujos, estavam assustados e a essa altura abandonaram os rifles e corriam inutilmente para os barcos. Muitos morreram, foi um massacre, ao seu lado, caiu um homem velho, vestia-se com roupas antigas, cravado em sua nuca havia um machado que entrou quase por inteiro na sua cabeça, de onde era possível ver um sangue grosso com pitadas de miolos saindo e penetrando na areia.

 

O absoluto desespero tomou conta dele, em seus olhos profundos, viu o reflexo de um selvagem vindo na sua direção, ele tinha os olhos pintados de vermelho, vestia quase nenhuma roupa, na sua mão havia uma lança de madeira com penas nas pontas. Sem saber de onde tirou coragem, arrancou o machado da nuca do marujo morto, e correu na direção do selvagem gritando, com os olhos fechados, inocente, frágil, escutou apenas um barulho forte e algo batendo na sua cabeça, caiu desacordado.

 

Já era noite quando acordou, suas mãos e pés estavam amarrados, sentia um cheiro de fumaça e sangue. O sangue, logo viu que era da sua cabeça, apesar de não estar mais sangrando, havia sangue por todo o seus pescoço e costas, seco, endurecido, seu cabelo longo estava duro colado um fio no outro. Tentou se mexer, não conseguiu, sentia muita dor na cabeça, voltou sua atenção para o redor, estava numa espécie de tenda, ou cabana, lá fora conseguia ver feixes de luz vindos de uma fogueira, o cheiro não era de fogo comum, a fumaça tinha um cheiro diferente, mais forte que o usual, era um cheiro denso, um cheiro um pouco podre. Tentou se soltar, em vão, os nós eram fortes. A dor na sua cabeça aumentava cada vez mais, olhou para cima, viu frutas penduradas, cerrou um pouco mais os olhos ao redor daquela cabana, e percebeu que estava numa espécie de depósito, com barris de grãos, frutas. Ao seu lado, sem que tivesse percebido antes, tinha um javali morto, amarrado, um pouco mais ao canto, via-se algum outro animal, porém já sem pelos. Tentou mais uma vez se soltar, não foi possível. Foi quando novamente sentiu algo muito forte bater em sua cabeça, desmaiou novamente.

 

O cheiro forte entrando em suas narinas o despertou. Estava de cabeça para baixo, pendurado pelos pés, agora estava nu. Sua cabeça doía ainda mais que antes, sua visão estava turva, aos poucos foi ficando mais clara, e aos poucos foi conseguindo enxergar o que acontecia a sua volta. Olhou para a sua direta e viu alguns selvagens sentados, eles estavam comendo, não faziam barulho algum, ouvia-se apenas o barulho das suas mastigadas, um dos selvagens olhou bem profundamente para ele, enquanto engolia um farto pedaço de carne que segurava com as mãos, levantou-se e veio na sua direção. Seu corpo tremeu, sentiu que esse seria seu fim, o selvagem passou direto por ele. Continuou acompanhando aquele ser caminhando, e virou seu pescoço com dificuldade para o outro lado, de onde vinha os estalos da fogueira, o selvagem tapava um pouco sua visão, mas logo ele pode ver o que acontecia. Preso com uma estaca atravessando desde o anus até sua boca, estava no centro da fogueira, Bartolomeu Salazar de Castro Machado, suas roupas claras estava no chão ao lado, bem dobradas, seu corpo gordo já estava pela metade consumido, a coxa direita, as nadegas quase que já não existiam mais, o selvagem que havia levantado, retirou da estranha roupa que usava uma faca pequena, e tirou um bom pedaço de carne da barriga de Bartolomeu, enfiou a faca bem profundamente, girou-a com força, para garantir um bom pedaço, cortou com força a pele que se prendia, tirou aquele pedaço e voltou calmamente para o lugar em que estava sentado. Passou por ele, com o mesmo olhar anterior, só que agora mastigando, enquanto uma gordura malcheirosa escorria pela sua mão.

 

Fixou mais firmemente seu olhar naquela cena de terror, o corpo de Bartolomeu estava por inteiro vermelho amarronzado, como um porco assado, era uma cena terrível de se ver, seus olhos já haviam sido arrancados, a mão direita também, as partes gordas de seu corpo quase todas já haviam de alguma maneira sido provadas pelos selvagens. Sua boca por onde a estaca saia, estava rasgada em uma das suas bochechas, seu cabelo havia praticamente sumido, consumido pelo fogo. Na sua mão restante ainda se via o anel com o símbolo da coroa, aquilo de nada valia para os selvagens, outro selvagem de aproximou daquele prato principal, arrancou uma fatia da nadega restante. Voltou para o seu lugar.

 

Por Deus, o que será de mim, pensou aquele jovem rapaz de cabelos louros e olhos azuis que era responsável pela limpeza. Fechou os olhos e tentou lembrar da oração do Padre Pedro Celestino, seus Deus o abandonou. Abriu os olhos pela última vez, e viu os selvagens vindo na sua direção, eles carregavam uma estaca com uma ponta afiada.

 

Atillas Felipe Pires

09/03/2026