segunda-feira, 9 de março de 2026

Destino Perdido

 Ele quase caiu da rede num susto quando o tranco da madeira da proa bateu na coluna de concreto do porto recém-construído. Eles haviam chegado, no convés ouvia-se vozes e gritos de ordem para o desembarque lá fora, pelo pequeno buraco da janela inferior, entrava um som distante de gaivotas. Passou as mãos no rosto, suas unhas sujas contrastaram com seus olhos azuis profundos, puxou os cabelos claros para trás e os amarrou num coque. Levantou e quase bateu a cabeça na madeira de sustentação da estrutura central do velho barco Destino Perdido – maldito nome que ele nunca gostou.

 

Subiu as escadas e lá estava ele, o tão aclamado, e já famoso naquela altura da história, Novo Mundo.  No convés o padre Pedro Celestino estava em cima de um caixote, de onde uma reza era proferida, a sua voz calma e baixa, fazia com que os marujos ficassem em absoluto silêncio enquanto recebiam aquela benção:

 

“Deus e único representante da santa trindade, abençoe nossa chegada nessa nova terra. Nos defenda dos profanos habitantes desses montes e florestas, que eles possam ver em ti a única luz verdadeira, que nossos homens sejam fortes nas batalhas que virão, e que vossa bondade nos proteja desses animais que não acreditam em ti, amém”

 

- Amém! – Disse em coro todos os marujos. Imediatamente os gritos retornaram, e o desembarque se iniciou. Sinceramente, quando o sol atacou com força seus olhos azuis, os pensamentos que lhe ocorrem foram os mesmos, como aquela estranha reza cheia de ódio oculto poderia alcançar qualquer tipo de santidade? Ele andou pelo convéns e pegou um barril de óleo de baleia, começou a descida. Na praia já havia muitos marujos, das outras embarcações que faziam parte daquela frota. Quando pisou na areia sentiu que não voltaria vivo dali. Colocou o barril junto com os demais. Andou um pouco praia adentro, arrumou novamente seu coque, olhou para a mata fechada logo a frente onde a praia terminava. Sentiu um frio na espinha, um misto de medo com curiosidade sobre como seriam os selvagens que já ganhavam fama na Europa pela sua força e maldade, havia até mesmo relatos de que comiam seus inimigos. Esse pensamento o fez repensar sua opinião sobre a reza inicial do dia.

 

Um tiro de canhão ao longe anunciou a chegada do responsável geral por aquela frota o famoso Bartolomeu Salazar de Castro Machado, sua figura era de um homem corpulento, forte, quase gordo, usava sempre uma armadura de proteção sem necessidade, num primeiro olhar, um homem corajoso e forte, porém, era um ser humano medíocre, conhecido entre os marujos como um covarde que muito falava, porém pouco fazia. Amigo do rei, ocupava um cargo de alto renome, sem nunca ter provado tal valor. Ele desceu as escadas acompanhado de seus servos, eram 3 de cada lado, uma postura de luxo com roupas claras que bem pouco combinava com aquele ambiente, menos ainda, com os trapos maltrapilhos usados pelos marujos que da praia o olhavam com desdém.

 

- Essa praia que aqui piso, será chamada de Praia de Castro Machado! Que registrem os tabeliões que eu fui o primeiro aos pés aqui colocar. Que fique marcado na história que o novo mundo tem na sua origem as digitais de Bartolomeu Salazar de Castro Machado, que em nome do rei, reivindica essa terra para a coroa, e que nosso Senhor o verdadeiro Deus nos abenç.....”

 

Antes que ele pudesse concluir a última frase uma flexa cortante e veloz rompeu o ar e fincou-se bem entre os olhos do seu servo a direita, que caiu com os olhos abertos para trás. Inúmeras outras flexas se seguiram, os outros servos formaram um escudo para proteger aquele covarde, que como tal, correu para dentro da sua embarcação. Na praia a correia se instaurou, marujos correram na direção dos rifles que estava todos encostados próximos aos barris de pólvora. Enquanto se armavam ouvia-se gritos de “selvagens, selvagens” e não demorou para que estouros de tiros também se fizessem ouvir.

 

Sua função naquela embarcação era de limpeza, ele nunca havia pego numa arma antes, mas também correu, enquanto amarrava seu cabelo para trás novamente, se abaixou enquanto corria, usando as mãos como apoio na área molhada, se escondeu atrás dos barris de óleo de baleia, de onde olhou pelo canto, escondendo boa parte do seu corpo, toda aquela carnificina. Selvagens surgiram como uma avalanche de abelhas de dentro da mata, eram milhares, corriam na direção dos marujos com machados e flexas, gritavam muito, o que fazia parecer que havia muito mais. Os marujos, estavam assustados e a essa altura abandonaram os rifles e corriam inutilmente para os barcos. Muitos morreram, foi um massacre, ao seu lado, caiu um homem velho, vestia-se com roupas antigas, cravado em sua nuca havia um machado que entrou quase por inteiro na sua cabeça, de onde era possível ver um sangue grosso com pitadas de miolos saindo e penetrando na areia.

 

O absoluto desespero tomou conta dele, em seus olhos profundos, viu o reflexo de um selvagem vindo na sua direção, ele tinha os olhos pintados de vermelho, vestia quase nenhuma roupa, na sua mão havia uma lança de madeira com penas nas pontas. Sem saber de onde tirou coragem, arrancou o machado da nuca do marujo morto, e correu na direção do selvagem gritando, com os olhos fechados, inocente, frágil, escutou apenas um barulho forte e algo batendo na sua cabeça, caiu desacordado.

 

Já era noite quando acordou, suas mãos e pés estavam amarrados, sentia um cheiro de fumaça e sangue. O sangue, logo viu que era da sua cabeça, apesar de não estar mais sangrando, havia sangue por todo o seus pescoço e costas, seco, endurecido, seu cabelo longo estava duro colado um fio no outro. Tentou se mexer, não conseguiu, sentia muita dor na cabeça, voltou sua atenção para o redor, estava numa espécie de tenda, ou cabana, lá fora conseguia ver feixes de luz vindos de uma fogueira, o cheiro não era de fogo comum, a fumaça tinha um cheiro diferente, mais forte que o usual, era um cheiro denso, um cheiro um pouco podre. Tentou se soltar, em vão, os nós eram fortes. A dor na sua cabeça aumentava cada vez mais, olhou para cima, viu frutas penduradas, cerrou um pouco mais os olhos ao redor daquela cabana, e percebeu que estava numa espécie de depósito, com barris de grãos, frutas. Ao seu lado, sem que tivesse percebido antes, tinha um javali morto, amarrado, um pouco mais ao canto, via-se algum outro animal, porém já sem pelos. Tentou mais uma vez se soltar, não foi possível. Foi quando novamente sentiu algo muito forte bater em sua cabeça, desmaiou novamente.

 

O cheiro forte entrando em suas narinas o despertou. Estava de cabeça para baixo, pendurado pelos pés, agora estava nu. Sua cabeça doía ainda mais que antes, sua visão estava turva, aos poucos foi ficando mais clara, e aos poucos foi conseguindo enxergar o que acontecia a sua volta. Olhou para a sua direta e viu alguns selvagens sentados, eles estavam comendo, não faziam barulho algum, ouvia-se apenas o barulho das suas mastigadas, um dos selvagens olhou bem profundamente para ele, enquanto engolia um farto pedaço de carne que segurava com as mãos, levantou-se e veio na sua direção. Seu corpo tremeu, sentiu que esse seria seu fim, o selvagem passou direto por ele. Continuou acompanhando aquele ser caminhando, e virou seu pescoço com dificuldade para o outro lado, de onde vinha os estalos da fogueira, o selvagem tapava um pouco sua visão, mas logo ele pode ver o que acontecia. Preso com uma estaca atravessando desde o anus até sua boca, estava no centro da fogueira, Bartolomeu Salazar de Castro Machado, suas roupas claras estava no chão ao lado, bem dobradas, seu corpo gordo já estava pela metade consumido, a coxa direita, as nadegas quase que já não existiam mais, o selvagem que havia levantado, retirou da estranha roupa que usava uma faca pequena, e tirou um bom pedaço de carne da barriga de Bartolomeu, enfiou a faca bem profundamente, girou-a com força, para garantir um bom pedaço, cortou com força a pele que se prendia, tirou aquele pedaço e voltou calmamente para o lugar em que estava sentado. Passou por ele, com o mesmo olhar anterior, só que agora mastigando, enquanto uma gordura malcheirosa escorria pela sua mão.

 

Fixou mais firmemente seu olhar naquela cena de terror, o corpo de Bartolomeu estava por inteiro vermelho amarronzado, como um porco assado, era uma cena terrível de se ver, seus olhos já haviam sido arrancados, a mão direita também, as partes gordas de seu corpo quase todas já haviam de alguma maneira sido provadas pelos selvagens. Sua boca por onde a estaca saia, estava rasgada em uma das suas bochechas, seu cabelo havia praticamente sumido, consumido pelo fogo. Na sua mão restante ainda se via o anel com o símbolo da coroa, aquilo de nada valia para os selvagens, outro selvagem de aproximou daquele prato principal, arrancou uma fatia da nadega restante. Voltou para o seu lugar.

 

Por Deus, o que será de mim, pensou aquele jovem rapaz de cabelos louros e olhos azuis que era responsável pela limpeza. Fechou os olhos e tentou lembrar da oração do Padre Pedro Celestino, seus Deus o abandonou. Abriu os olhos pela última vez, e viu os selvagens vindo na sua direção, eles carregavam uma estaca com uma ponta afiada.

 

Atillas Felipe Pires

09/03/2026

 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Síndrome de Savant

Do outro lado da cidade foi possível ouvir um trecho de Glitter em Gold de Barns Courtney quando aquele jovem demorou um pouco mais para colocar seus fones de ouvido no buraco correto do celular. No fundo do ônibus duas senhoras conversavam sobre o valor do kg do pão, um pouco mais a frente próximo ao motorista um cidadão comum como muitos ali se entretinha com os olhos baixos olhando para as pichações que passavam em câmera lenta nos muros da cidade, bendita seja a lei da profundidade x a velocidade x a distância.

Uma coisa sempre me intrigou com relação a alguns aspectos da sociedade, por exemplo por que as pessoas dentro de um ônibus tem a crônica tendência de ser alheias a tudo ao redor, uma convenção social organiza todos na mesma direção: indiferença! 

Sentado ali eu podia ver e analisar cada uma das pessoas, pais de família com aspecto devastado, cansados da rotina, jovens no auge de sua idade com olhos sonolentos depois de uma noite mal dormida, sempre emburrados e preparados para destilar seu mal humor e sua educação familiar precária na primeira pessoa que cruzar seu sombrio caminho, cidadãos comuns que perderam o brilho no olhar que os tornava humanos, seres empobrecidos em sua sanidade, velhos hipócritas negando seus preconceituosos pensamentos, pessoas egoístas que sempre estão atentos para pegar celulares esquecidos nos bancos, honestidade seletiva, só quando alguém está vendo, mentes cansadas transbordadas de inutilidades tecnológicas e notícias não averiguadas. Pobres vermes parasitas que consomem as entranhas mortas em decomposição de uma decadente sociedade que de tão doente segue seu caminho, mas anda morta..e eu? Eu estava lá.

Desde quando me diagnosticaram como ressocializado quando minha Síndrome de Savant aparentemente estava controlada, e eu pude finalmente deixar aquele maldito hospício, venho ocupando minhas cansadas sinapses com pequenas crônicas do dia-a-dia, acompanho o cotidiano e preencho algumas linhas mal escritas com pensamentos mal pensados. Meu hálito arrogante e pouco paciente tem percorrido muitos diferentes ambientes, com isso a cada novo dia de vida chego cada vez mais próximo a conclusão de que no hospício as pessoas eram mais sã mentalmente do que fora dele. Os loucos em sua doença mental experimentam um estado quase inconsciente, sua fragilizada mente os leva a fazer coisas que na grande maioria das vezes não percebem, mas mesmo os loucos são honestos a sua loucura. Aqui fora vejo muitos loucos, muitas loucuras mas nenhuma honestidade.

O conceito de doença mental na minha opinião é algo relativo, por exemplo, vejo ao meu redor nesse ônibus pessoas que acordam todos os dias com pesar no olhar, amarram seus sapatos com furos na sola e a cada laço sentem a dor de ter que enfrentar um novo dia, submetem-se a constrangimentos e assédios morais em seus trabalhos, choram no banheiro, obrigadas a sorrir para garantir o salário no fim do mês, uma vida comum e medíocre. Entendo a necessidade disso, mas jamais entenderei essa mesma pessoa, não sentar a luz do luar para brindar a noite, ou respirar um ar puro ao nascer do sol. É de graça! Eu vejo pessoas se afogando na rotina cinza, deixando as folhas da rotina cobrir completamente todas as cores da vida que não precisam de cifrão na frente para ter valor. Puta que pariu, isso sim é ser louco!

O jovem de fone de ouvido levantou com sua mochila e apertou o botão solicitando a próxima parada, as duas senhoras do fundo agora falavam alguma coisa sobre uma gripe forte de alguma amiga, o cidadão comum agora tentava descascar um adesivo de publicidade no vidro da sua frente. E eu? Eu estava ali.

No meu tempo de clínica, como minha condição me permite reflexões, análises e construções sintéticas de pensamentos lógicos, eu sempre fui um detalhista expectador do estranho controverso comportamento humano, eu me sentava numa cadeira embaixo de uma arvore no quintal, e todos os dias contava o número de passos que o pobre senhor Sem Nome – nunca perguntei e assim o apelidei – dava todo santo dia entre a sua sacada térrea e o canto do muro onde não tinha nada, eram exatos 97 passos lentos, ele acordava toda manhã exatamente as 6:12h sozinho, sem despertador, escova seus dentes com 32 duas passadas de escova de um lado para o outro naquela boca velha, fazia isso no tanque onde as roupas eram lavadas, após esse ritual, ele caminhava lentamente exatos 13 passos de volta ao seu quarto, guardava a escova e demorava 12 segundos para fazê-lo, posteriormente a isso ele caminhava lentamente o restante dos passos até o canto do muro. Lá ele encostava a cabeça numa fenda onde era possível ver a rua, uma pequena divisa entre um bloco de concreto e outro, ficava ali por 3 ou 4 horas diárias, imóvel, sempre a mesma coisa, todos os dias. Esse comportamento para mim era inaceitável, que tipo de ser humano conta os exatos passos que dá numa ordinária manhã, para fazê-lo igual todo santo dia? Eu agradecia por não ser assim.

Atillas Felipe Pires
08/06/2020

CADAVER


Cena: CADAVER
ROTEIRO ORIGINAL: ATILLAS FELIPE PIRES


Cabeçalho de cena O BAR

(1) INTRODUÇÃO:

O bar – final da tarde (primeiro dia), o bar é típico de faroeste, apesar do sol do lado de fora, esta escuro na parte de dentro, a poeira invade e se assenta nas mesas, a higiene é precária, no fundo esta tocando uma melancólica música (algo de Ennio Morricone).

Personagem 1: O forasteiro

Ação (1):

O forasteiro esta vestindo uma roupa velha com detalhes em couro, um chapéu largo e sua pele esta suada e com pó grudado, o que indica uma longa viagem.

Ele entra no bar balançando a porta atrás de si, o bar não esta cheio, alguns bêbados sentados nas mesas a sua esquerda, um dos bêbados com o pé na mesa dorme com um palíto nos dentes e com o chapéu abaixado na cara, o outro tenta mudar a musica na máquina, mas não consegue e num golpe desiste e senta-se caindo na cadeira, é possível ver copos esquecidos em mesas vazias, e no canto do fundo outro bêbado dormindo sentado com um copo na mão direta, o forasteiro caminha até o balcão e pede uma dose de uísque sem gelo.

Ação (2):

O dono do bar, que também é quem serve a bebida, lhe da a dose de uísque enquanto limpa o balcão do bar com ar de desconfiado, olha para o forasteiro. O balcão é de madeira rustica com aparência envelhecida, no fundo expostas estão garrafas de bebidas velhas, com pó nos rótulos originais, no lado direito do balcão há dois vidros de bebidas com cobras mortas dentro.

Ação (3):

O forasteiro toma em um gole só a bebida, olha para o dono do bar e pede outra. Enquanto o dono do bar se vira para pegar a bebida, o forasteiro olha discretamente por cima dos ombros analisando com olhar fincado, os ocupantes do bar.  

Close: Nesse momento uma fresta da luz do sol entrando pela janela do bar é cortada pelo movimento do ventilador velho de teto que gira devagar, a luz brilha e reflete na estrela de xerife no peito do forasteiro, na cena o brilho da estrela alcança os olhos fundos de Jack Holeblood.  







Personagem 2: Jack Holeblood

Jack Holeblood esta usando um roupão grande (do estilo sobretudo) marrom claro, com botas de salto que faz barulho no assoalho de madeira, é estrábico, com barba relativamente grande, esta mastigando tabaco, os dentes são amarelos, com cabelo meio longo meio curto.


Ação (1):

Após a luz da estrela de xerife brilhar nos olhos de Jack Holeblood, Jack se levanta, cospe o tabaco que mastiga no chão e vai até o balcão do bar. Ele estava sentado em uma das mesas do lado esquerdo do bar (da perspectiva de quem entra) marcava alguns X´s na mesa de madeira.

Dialogo (1) Jack Holeblood:

“ – Estou disposto a ouvir a sua história, antes de decidir como vou te matar, pra falar a verdade estou curioso para saber se você é louco ou não, nunca ouviu falar desse lugar? Aqui a lei não existe, ela não diz nada, aqui a lei não chega, quem manda e desmanda é este que vos fala, prazer, eis aqui o tal Jack Holeblood.

Close: Cena vista da parte de fora do bar, onde a placa pendurada na entrada expõe sete furos de tiros, um para cada xerife que Jack Holeblood matou. Uma macabra coleção.

Close (2): No balcão um jornal com a noticia do famoso assassino que mata xerifes por esporte, o jornal esta a vista do forasteiro.

Ação (2):

O forasteiro olha para o jornal no balcão com a notícia de que Jack Holeblood é o famoso matador de xerifes, olha bem a foto publicada e se volta para Jack Holeblood lentamente (como que para conferir se é ele mesmo).

Dialogo (2) Forasteiro:

“ – Trago comigo sempre a minha pistola, mas nunca com todas as balas, uma estranha mania desse, como foi que disse mesmo?..desse louco, comigo vem sempre uma única bala por que quase nunca preciso mais do que isso, e estou aqui para te dizer, que cada um dos setes que você matou, essa bala solitária irá vingar, em nome da divina santidade, diferente de você eu já decidi que vou te matar, antes de ouvir sua história, mas de qualquer forma me diga, quem te estuprou na infância? Seu pai ou algum tio distante? Se for assunto pessoal não precisa me contar, pra ser sincero não me importa a história dos mortos.

Close (3) A musica melancólica no fundo parou assim que a faixa chegou ao fim junto com a ultima palavra do forasteiro, os olhares se voltaram para a cena, os bêbados que estavam dormindo acordaram, foi possível ouvir um grunhido contido, o vento bateu novamente na placa lá fora, o ventilador continuou a girar lento no teto (por um tempo foi o único barulho que se ouviu, as engrenagens velhas do ventilador de teto lento).

Dialogo (3) Jack Holeblood

“ – Esta aí duas coisas que eu não sabia, uma que eu tinha sido estuprado e outra que defunto falava (referencia a fala de Severino de Aracajú no filme O alto da Compadecida de Suassuna) você fala demais para quem acabou de chegar, olhe para aquela placa lá fora, onde eu pendurei sete estrelas igual a sua, sete tiros da minha coleção de xerifes mortos, seu desafio foi um convite arrogante para o seu próprio funeral, eu não tenho medo dessa sua única bala, no tambor da minha pistola cabem seis e todos os espaços estão ocupados se é que me entende forasteiro, como já te disse e volto a dizer, aqui a lei não tem nada para falar, quem manda e desmanda é Jack Holebloo..”

Close (4)

Antes de terminar sua fala, num movimento repentino, o forasteiro faz cair uma adaga da manga direita do seu casaco, gira-se rápido na direção de Jack Holeblood e crava a adaga num golpe certeiro bem entre os olhos, na parte onde as sobrancelhas costumam se juntar (destaque para a precisão do golpe nesse momento).

Ação (3) Forasteiro

Enquanto escuta a ultima fala de Jack Holeblood, o forasteiro começa a balançar o braço direito que esta apoiado no balcão (deixando dúvida no interlocutor) enquanto olha de canto de olho para o Jack Holeblood, um pouco antes de terminado o diálogo anterior, o Forasteiro, olha sorrateiramente para o dono do bar que esta a sua frente e deixa escapar um sorriso de canto, num golpe certeiro e quase sem olhar, crava a adaga que escorregará de sua manga enquanto se mexia, bem entre os olhos de Jack Holeblood.

Close (5)

Dado o golpe certeiro entre os olhos, o corpo de Jack Faz-Sangrar cai lentamente para trás ainda com os olhos abertos, como quem foi interrompido e não esperava o que ocorreu (de fato não esperava) o tombo é lento e demorado, o barulho do toque na madeira ecoa forte e a poeira levanta de seu casaco velho. A imagem do sangue escorrendo é mostrada apenas na madeira, não saindo da testa do morto.

Ação (4) Forasteiro

O forasteiro termina de levantar-se e fica em pé diante do corpo ali caído, retira de seu bolso esquerdo do casaco de couro, um cartaz de procurado com a imagem de Jack Holeblood, retira também a estrela de xerife de seu peito e joga ambos sob o cadáver (o cartaz e a estrela).

Dialogo (5) Forasteiro

“ – Não sou xerife meu senhor (conversando com o morto) apenas ouvi histórias a seu respeito, vim aqui para concluir meu trabalho, sou caçador de recompensas, o Ator de uma Bala Só.”

Ação (5) Ator de uma Bala Só

Enquanto termina sua ultima fala, o Ator de uma Bala Só, lentamente retira sua pistola, gira com paciência o tambor para deixar a única bala na posição de tiro, aproxima do cadáver e aperta o gatilho na direção entre o tórax e o coração, mantendo sua fama, de uma bala só.

Ação (6) Ator de uma Bala Só

Após dar o tiro que garante a morte de Jack Holeblood, o Ator de uma Bala Só, olha ao redor para os demais ocupantes do bar, da um suspiro longo, ascende um cigarro e dando as costas para o corpo, senta novamente em seu lugar, olhando para o dono do bar (que esta com olhos grandes e assustado)diz que esta com fome e pede um prato.

Dialogo (6) Ator de uma Bala Só

“ – Meu senhor, estou com um pouco de fome (com gélida calma na voz) gostaria de uma costela de carneiro com muito tempero e mais uma dose de uísque por favor”

Ação (6) Ator de uma Bala Só

Toma a dose de uísque de uma vez só, arruma-se para comer seu prato, come lentamente enquanto folheia as outras paginas do jornal no balcão, lê alguma coisa sobre assaltantes de bancos (close “bando assalta banco e mata clientes”) termina de comer, dobra a pagina do jornal e leva consigo, levanta lentamente da cadeira (como se sentisse um pouco a idade) olha para o corpo ali deitado, retira lentamente seu cinto, como se já tivesse feito isso outras varias vezes (close em marcas de sangue no cinto) amarra o cinto no pé do cadáver, sem demonstrar qualquer emoção ou qualquer sentimento, começa a atravessar o bar arrastando o corpo, antes de chegar a porta, faz uma pausa, olha em volta e encara os ocupantes do lugar, e fala.


Dialogo (6) Ator de uma Bala Só

 - sabem a origem dessa palavra? Cadáver? CArne DAda aos VErmes!”

Ação (7) Ator de uma Bala Só

O Ator de uma Bala Só, após terminado seu ultimo dialogo, continua arrastando o cadáver, sai do bar e começa a amarrar o corpo em seu cavalo.

Close (6):  

Enquanto o Ator de uma Bala Só esta amarrando o corpo em seu cavalo a musica volta (a mesma que tocava no início da cena) e entra uma voz em terceira pessoa: “..Ator de uma Bala Só sentiu as costas quando ergueu o corpo no cavalo, seu trabalho era pesado, o único ócio da sua profissão”.


FIM DA CENA

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Senhor, é proibido fumar nesse local

Ele entrou naquele bar estranho que sempre passou enfrente mas nunca experimentou o ar interno do ambiente. Talvez uma madrugada onde todos os gatos são pardos seja uma boa oportunidade. No canto esquerdo havia um conjunto de pessoas sentadas embaixo de uma lâmpada falhando, percebeu que um deles dormia com a cabeça na mesa, enquanto os outros três o acompanharam fixamente com olhares fundos e opacos, aquele tipo de olhar que perfura a alma e gela o inicio da espinha. Sentiu um pouco de medo, mas continuou andando em direção ao balcão, o santuário ideal para andarilhos noturnos e solitários como ele. Sentou naquele desconfortável banco de pernas altas, pediu uma dose de uísque puro e um copo de água tônica, deu um trago leve no uísque para sentir a mão do garçom, ascendeu um cigarro e ficou olhando para a simetria das garrafas que estavam no fundo do bar, organizadas por rótulos e teor alcoólico, deu outro trago no cigarro!
 - Senhor..
Ficou pensando que tipo de ser humano organiza garrafas alcoólicas por rótulos e teor alcoólico, deduziu que apenas alguém com terríveis desvios cognitivos o faria. Pediu outra dose de uísque, olhou por cima dos ombros e reparou que na mesa do canto escuro o quarto integrante havia acordado! Voltou sua atenção para as garrafas, imaginou como seria a vida de quem se preocupa com tamanha organização..
 - Senhor...
Percebeu que já há tanto tempo percorria becos e ladrilhos imundos que absolutamente mais nada o chamava à atenção, o que o tornou um profundo observador de qualquer coisa, qualquer mísera coisa que possa lhe ser interessante, como garrafas organizadas por rótulos e teor alcoólico! Ascendeu outro cigarro..
- Meu Senhor
Fazia alguns meses que tinha saído da sua última estadia no hospício municipal, foi liberado por demonstrar equilíbrio emocional e aparente controle das ambições suicidas! Sentiu-se livre por estar naquele buraco úmido no meio da madrugada!! Os quatro ainda o olhavam com olhos profundos e frios!! Deu um gole profundo naquele uísque e pediu outra dose. Pensou na sua próprio loucura e como conseguiu se livrar daqueles médicos que negavam sua sanidade mental, mas como assim? Como alguém pode organizar garrafas por rótulos e teor alcoólico?
-Senhor por favor..
Ficou agitado por não conseguir alcançar uma resposta palpável, Santo Deus o que faz alguém organizar garrafas por rótulos e teor alcoólico?
-Senhor é proibido fumar nesse local!
Agarrou o copo, olhou para os quatro primeiros olhos profundos no canto escuro, atirou com toda força possível aquele copo pesado na direção deles. Acertou a cabeça do qual estava dormindo, o sangue escorreu forte e meloso pela cavidade causada pelo profundo corte. Atravessou o bar correndo e ganhou a rua.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Contos do Tião para Pires, Sebastião



Aquele bar estava cheio de ricos fazendeiros, eu era apenas o cuidador de cavalos que por bondade do meu chefe sempre me solicitava a companhia, realmente nunca fui do tipo que me encantava por lugares daquele gênero. Lustres brilhantes, carpete vermelho, talheres de prata, copos com pegadores estranhos na parte de baixo, sempre fui um peão simples, o cheiro do celeiro sem me foi mais agradável.

No entanto, em detrimento da minha saudosa aguardente, esta eu ali bebendo champanhe “no alto meio da granfinagem”.  Foi quando entrou naquele bar um peão sujo da viagem, trazendo consigo todo o pó de dias de cavalgada. Com a chegada do inusitado visitante, o silêncio se fez mais do que presente, todos voltaram seus olhares para a porta que se fechava atrás do infeliz novo usuário daquele rico oxigênio. Em silêncio pediu um copo americano de pinga e sentou no balcão.

Na mesa ao meu lado levantou o almofadinha, filho de grande fazendeiro da região, famoso rei do café, sem medo de ser ouvido por todos pestanejou ao proprietário: - eu tenho má fé, quando um caboclo que não se enxerga, num lugar desse vem pôr os pés, senhor que é o proprietário deve barrar a entrada de qualquer e principalmente nessa ocasião, que está presente o rei do café!

Conhecido em toda a região, logo todos lhe salvaram palpas, “gritando viva pro fazendeiro, quem tem milhões de pés de café por esse rico chão brasileiro, sua safra é uma potência no nosso mercado e no estrangeiro” por isso disse: - esse ambiente não é pra qualquer tipo rapero.

Com um gesto bem cortês responde o peão pra rapaziada: - “essa riqueza não me assusta, topo e garanto qualquer parada! Pra cada pé desse café eu amarro um boi da minha invernada e pra encerrar o assunto eu garanto, que ainda me sobra uma boiada”

Foi um silêncio profundo peão deixou o povo mais pasmado, pagando a pinga com mil cruzeiro, disse ao garçom pra guardar o trocado!

“- quem quiser meu endereço que não se faça de arrogado e só chegar lá em Andradina e perguntar pelo Rei do Gado”

Atillas Felipe Pires – Uma homenagem!
28\08\2018

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Até a próxima parada



A partida do meu carro sempre demora pra pegar
Normalmente na terceira ou quarta vez
Mas quando o motor liga e a gasolina preenche o lugar
O v8 sai cantando pneu me fazendo flutuar

As curvas tortas das estradas que frequento
Quase sempre fazem meu motor antigo atingir potencia máxima
Eu acelero e vou além, sempre com o pé bem fundo
Esperando logo ali, todo o inesperado que se vem

Ao meu lado no banco do passageiro
Eu levo meu violão, meu caderno de anotações e quase nada em dinheiro
Amarrado no retrovisor meus amuletos
Apanhadores de sonho, Deuses brancos e Negros
No banco traseiro, um agasalho, um edredom um travesseiro
Eu paro em qualquer lugar, o céu é meu telhado, qualquer ponto fixo é passageiro

E quem irá dizer o que vou encontrar na próxima parada
Um amor, um novo Deus, vomito numa privada ou nada
O sol queima bem forte o asfalto, fazendo ondas de miragem
Sigo sempre em linha reta, sem destino, seguindo viagem
Minha preocupação é a contagem do traçado da estrada
O que me mantem lucido, além da minha água embriagada
No final da linha quem sabe, eu te encontre
E no céu da sua boca, eu vislumbre uma noite estrelada
Que termine numa manhã ensolarada
Posso encontrar isso, vomito numa privada, ou nada

Sinto o vento batendo forte, eu nunca fecho os vidros
Sozinho sigo pensando ligando o som
Tratando muito bem os meus ouvidos
Já que nunca fui do tipo que se preocupou muito com o fígado

Que minha alma proclame o meu querer
Enquanto eu mesmo desisto de saber o que vai ser
Que meu espirito livre não flutue em vão
Que seja leve para tocar as estrelas
Sem se desprender do chão

O cheiro de gasolina encharca minhas barras jeans rasgadas
Eu não ligo, eu sou assim, é assim que sou comigo
Quase nunca coloco faixas em minhas chagas
Que assim seja enquanto for
Se não
Que a privada esteja limpa na próxima parada

Atillas Felipe Pires
21\06\2018