Do outro lado da cidade foi possível ouvir um trecho de Glitter em Gold de Barns Courtney quando aquele jovem demorou um pouco mais para colocar seus fones de ouvido no buraco correto do celular. No fundo do ônibus duas senhoras conversavam sobre o valor do kg do pão, um pouco mais a frente próximo ao motorista um cidadão comum como muitos ali se entretinha com os olhos baixos olhando para as pichações que passavam em câmera lenta nos muros da cidade, bendita seja a lei da profundidade x a velocidade x a distância.
Uma coisa sempre me intrigou com relação a alguns aspectos da sociedade, por exemplo por que as pessoas dentro de um ônibus tem a crônica tendência de ser alheias a tudo ao redor, uma convenção social organiza todos na mesma direção: indiferença!
Sentado ali eu podia ver e analisar cada uma das pessoas, pais de família com aspecto devastado, cansados da rotina, jovens no auge de sua idade com olhos sonolentos depois de uma noite mal dormida, sempre emburrados e preparados para destilar seu mal humor e sua educação familiar precária na primeira pessoa que cruzar seu sombrio caminho, cidadãos comuns que perderam o brilho no olhar que os tornava humanos, seres empobrecidos em sua sanidade, velhos hipócritas negando seus preconceituosos pensamentos, pessoas egoístas que sempre estão atentos para pegar celulares esquecidos nos bancos, honestidade seletiva, só quando alguém está vendo, mentes cansadas transbordadas de inutilidades tecnológicas e notícias não averiguadas. Pobres vermes parasitas que consomem as entranhas mortas em decomposição de uma decadente sociedade que de tão doente segue seu caminho, mas anda morta..e eu? Eu estava lá.
Desde quando me diagnosticaram como ressocializado quando minha Síndrome de Savant aparentemente estava controlada, e eu pude finalmente deixar aquele maldito hospício, venho ocupando minhas cansadas sinapses com pequenas crônicas do dia-a-dia, acompanho o cotidiano e preencho algumas linhas mal escritas com pensamentos mal pensados. Meu hálito arrogante e pouco paciente tem percorrido muitos diferentes ambientes, com isso a cada novo dia de vida chego cada vez mais próximo a conclusão de que no hospício as pessoas eram mais sã mentalmente do que fora dele. Os loucos em sua doença mental experimentam um estado quase inconsciente, sua fragilizada mente os leva a fazer coisas que na grande maioria das vezes não percebem, mas mesmo os loucos são honestos a sua loucura. Aqui fora vejo muitos loucos, muitas loucuras mas nenhuma honestidade.
O conceito de doença mental na minha opinião é algo relativo, por exemplo, vejo ao meu redor nesse ônibus pessoas que acordam todos os dias com pesar no olhar, amarram seus sapatos com furos na sola e a cada laço sentem a dor de ter que enfrentar um novo dia, submetem-se a constrangimentos e assédios morais em seus trabalhos, choram no banheiro, obrigadas a sorrir para garantir o salário no fim do mês, uma vida comum e medíocre. Entendo a necessidade disso, mas jamais entenderei essa mesma pessoa, não sentar a luz do luar para brindar a noite, ou respirar um ar puro ao nascer do sol. É de graça! Eu vejo pessoas se afogando na rotina cinza, deixando as folhas da rotina cobrir completamente todas as cores da vida que não precisam de cifrão na frente para ter valor. Puta que pariu, isso sim é ser louco!
O jovem de fone de ouvido levantou com sua mochila e apertou o botão solicitando a próxima parada, as duas senhoras do fundo agora falavam alguma coisa sobre uma gripe forte de alguma amiga, o cidadão comum agora tentava descascar um adesivo de publicidade no vidro da sua frente. E eu? Eu estava ali.
No meu tempo de clínica, como minha condição me permite reflexões, análises e construções sintéticas de pensamentos lógicos, eu sempre fui um detalhista expectador do estranho controverso comportamento humano, eu me sentava numa cadeira embaixo de uma arvore no quintal, e todos os dias contava o número de passos que o pobre senhor Sem Nome – nunca perguntei e assim o apelidei – dava todo santo dia entre a sua sacada térrea e o canto do muro onde não tinha nada, eram exatos 97 passos lentos, ele acordava toda manhã exatamente as 6:12h sozinho, sem despertador, escova seus dentes com 32 duas passadas de escova de um lado para o outro naquela boca velha, fazia isso no tanque onde as roupas eram lavadas, após esse ritual, ele caminhava lentamente exatos 13 passos de volta ao seu quarto, guardava a escova e demorava 12 segundos para fazê-lo, posteriormente a isso ele caminhava lentamente o restante dos passos até o canto do muro. Lá ele encostava a cabeça numa fenda onde era possível ver a rua, uma pequena divisa entre um bloco de concreto e outro, ficava ali por 3 ou 4 horas diárias, imóvel, sempre a mesma coisa, todos os dias. Esse comportamento para mim era inaceitável, que tipo de ser humano conta os exatos passos que dá numa ordinária manhã, para fazê-lo igual todo santo dia? Eu agradecia por não ser assim.
Atillas Felipe Pires
08/06/2020
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