Naquela manhã o sol bateu forte como todos os outros dias, socou a janela, brilhou no retrovisor do ônibus que pára sempre no mesmo horário no mesmo ponto. Provavelmente o padeiro já estava parando para a hora do almoço, o carteiro já havia passado, já se ouvia as crianças voltando da escola. Era mais um belo dia, um dia que nasceu, nenhum ataque terrorista nos jornais, nenhuma morte de famoso pelo excesso do uso de drogas, não havia nada de novo naquele dia, era apenas mais um dia, pelo qual muitos religiosos já haviam feito suas orações de agradecimento.
Ele levantou, olhou em volta, viu suas meias jogadas no tapete da sala, e uma garrafa vazia rolando na parte do piso frio. Ele não quis continuar levantando, se jogou para trás e ficou olhando para o teto, parecia uma tarefa extremamente difícil, mas já estava incomodado com àquela situação, finalmente levantou, não podia continuar daquele jeito. Foi até a janela e fechou aquela miserável fresta que deixava um fio fino de sol atingir-lhe bem o rosto em cheio, que maldita situação que o incomodava, o fez, voltou para a cama e se deitou novamente, resolveu o problema, e dormiu novamente, sentindo o cheiro do seu próprio hálito bêbado.
Já passará das 15h daquele mesmo dia, ele abriu novamente os olhos, o corpo estava dolorido, e sua dor de cabeça matinal o lembrava da noite anterior. Seu dia começava sempre entre as 15h e as 16h, nunca antes, as vezes depois, abriu uma garrafa de cerveja, estava um pouco quente, mas era apenas para matar o tempo enquanto procurava alguma coisa para comer. Andou até a cozinha, olhou em volta, pensou em como as coisas parecem bem mais interessantes durante a noite, pensou que o dia era para o tipo de pessoas que vivem em busca de dinheiro para viver a vida a noite, ele nunca gostou do dia, nunca se adaptou ao dia, a luz o incomodava. A visão da sua cozinha o fez perder a fome, abriu outra cerveja e voltou para o sofá, sentou encima do seu maço de cigarro, ficou feliz em ver que ainda tinha dois, ascendeu um, deu um trago fundo. Bebeu e fumou, os únicos prazeres que se alcança durante a estadia do sol ao seu mundo.
A vida estava passando rápido demais, desde seu último grande sucesso de vendas, já havia passado quase dois anos, e o dinheiro estava acabando. No ritmo que estava indo suas finanças acabariam em nove, talvez dez meses, pensou que talvez fosse a hora de começar a escrever novamente. Ascendeu o segundo cigarro, ficou puto em lembrar que era o último, a ideia de ter que sair de casa para comprar mais o tirava um pouco do humor, que sempre era ruim. Levantou e quase caiu, havia se tornado comum essas tonturas depois de um ou dois cigarros, alguma coisa estava fora do normal, depois de tantos anos fumando seguidos cigarros em seguidos dias, seu corpo já não era o mesmo.
Vestiu seu roupão xadrez e uma pantufa que achou por perto, desceu até o bar do hotel que vivia, comprou dois maços de cigarro, e mais três fardos de haineeken quente que era mais barata, e duas separadas geladas para ir bebendo até que os fardos gelassem, escutou a musica do elevador, olhando para o espelho e contemplando sua face que um dia forá motivo de amores diversos, hoje apenas o lembrava que não escovou os dentes e já era quase 18h da tarde.
A noite estava chegando, quase 19h, e ele estava se animando. A noite torna as cores mais vivas, o brilho dos letreiros são mais interessantes que pássaros cantando, os bêbados no auge da loucura do dia deixa tudo mais vibrante e a vida se torna como que num mundo paralelo, como se a noite fosse a parte boa do dia. Ele abriu a janela do 16o andar, olhou para o mais longe que conseguiu, abriu um dos maços de cigarro ascendeu mais um e deixou a fumaça ir quase que sem tragar, apenas pelo prazer de imaginar as imagens que se formam no alucinante movimento daquela névoa branca, cavalos cavalgando em sua volta. Ficou feliz por um momento em estar ali sozinho contemplando o céu e a fumaça indo fazia seus poucos problemas desaparecerem.
Deixou a janela aberta e voltou para a geladeira, abriu outra cerveja, agora já geladas, olhou para a cozinha e gostou do ambiente, o jornal do dia anterior aberto na mezinha de jantar, a taça de vinho com o fundo ainda vermelho da sua ultima refeição acompanhado ainda no mesmo lugar, os lembretes que foram esquecidos presos na porta do armário, e todas as coisas inúteis daquele sagrado e inutilizado local. Gostou da sua vida, gostou de ser um desajustado noturno!
Voltou para a janela e o céu continuava lá, ficou pensando no possível personagem de seu próximo livro, tomou mais um gole, jogou o cigarro fora, ascendeu outro e deu, como de praxe, um trago forte, olhou a fumaça e pensou mais uma vez nos cavalos que a forma como ela se vai formam em sua volta, ele realmente se sentia bem com àquilo, pensou que talvez pudesse falar de cavalos de fumaça. Realmente aquilo lhe pareceu uma ótima ideia, cavalos de fumaça parecei um bom título, poderia quem sabe se desprender das histórias da vida real e escrever sobre o mundo da fumaça que sai da ponta do cigarro de um fumante solitário. Deu mais um trago, bebeu mais um gole, pensou em que poderia escrever, qual poderia ser o personagem do seu próximo livro, soltou mais uma vez fumaça, viu seus cavalos, pensou que talvez pudesse falar da vida de um pai de família que perdia o dinheiro da família apostando em cavalos. Ele se esqueceu da primeira ideia depois da quinta garrafa, talvez não lembrasse mais nem da segunda, nunca mais teria a mesma ideia. Fumou e olhou para a noite!
Voltou o olhar para dentro do seu apartamento, incrível como esses hotéis de luxo te fazem sentir em casa, o sofá estava ainda desarrumado, assim como sua cara, voltou para a cozinha para pegar outra cerveja, a quinta ou sexta ou terceira, quem vai saber, parou na entrada da porta, que visão incrível, tudo estava bem mais interessante, pensou que poderia escrever um livro sobre sua cozinha, um livro sobre um cara que vivia numa cozinha, que tinha seu colchão embaixo da pia e que a goteira que o incomodava era por causa da louça que ele nunca lavava, deu risada sozinho, mas continuou mirabolante naquela loucura, imagina só, um cara que vive numa cozinha, seria ótimo, geladeira com cerveja, armário com uísque, e seu colchão velho embaixo da pia, puta que pariu que viagem. Pegou outra cerveja e voltou para a janela.
Até hoje ele não entende por que resolveu sair de casa naquela noite, seus pensamentos eram o bastante para o entreter até o amanhecer, mas naquele dia resolveu sair atoa. Foi até o suas caixas de papelão e procurou alguma roupa aceitável, foi por exclusão e pegou a qual estava menos amarrotada, uma camisa de botões com as mangas largas e uma calça jeans levis com a borda rasgada. Pegou outra cerveja na geladeira e passou pelo cara que dormia embaixo da pia, riu sozinho novamente, ascendeu outro cigarro..disse tchau aos cavalos e ao pai de família viciado e entrou no elevador. Sua face no espelho estava amável.
Apesar da época fria a noite estava boa, o vento batia mais batia leve, ou talvez a sensibilidade da sua pele já não era a mesma. Eis aí a resposta para a sobrevivência dos moradores de rua, ele pensou, riu novamente, seu humor era sempre bom. Andou na avenida do hotel, tinha alguns bares no caminho, escolheu o letreiro mais interessante, gostou de um que dizia "Seu lugar não é aqui". Entrou!
Foi direto em direção ao balcão, sentou e pediu um uísque com água, ascendeu um cigarro, o garçom veio e lhe disse que não era permitido fumar lá dentro, realmente fazia tempo que ele não saia de casa. Apagou o cigarro na língua olhando fundo nos olhos do garçom com a expressão mais demoníaca possível e respondeu lentamente, OK! Pegou seu uísque e tomou todo de uma vez só, pediu outro, agora sem água, aprovou a qualidade da madeira, ficou por um tempo bebendo e olhando para seu uísque, analisando o movimento maluco daquele liquido marrom enquanto o balança, o reflexo nas laterais do copo parecia uma história a ser contada, tipo, um bando de sereias bêbadas loucas para fazer sexo com você, imaginou um monte de sereias bêbadas cantando desafinadas, sorriu sozinho, pensou que talvez pudesse escrever sobre aquilo, sereias bêbadas era um bom título.
HEY! Aquela voz fina o tirou da sua viagem das sereias!
Aí já era demais pra ele, contato social feminino? Resolveu voltar para seu quarto de hotel.
Abriu a geladeira da sua cozinha interessante com taça de vinho amanhecida, leu a noticia de três dias atrás, falou para o cara que dorme embaixo da pia de como o mundo é uma merda, abriu outra cerveja, ascendeu outro cigarro falou com os cavalos aconselhou o viciado em corridas, abriu a janela e olhou para o mais longe possível, começou a ver os primeiros raios do sol, fechou a janela, dessa vez amarrou bem a cortina, e foi dormir, esperando acordar com hálito bêbado lá pelas 15h ou 16h.
Atillas Felipe Pires
14/08/2014
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