terça-feira, 17 de março de 2015

02:37



Naquele dia ele acordou anormalmente fora do seu horário, era apenas 9h da manhã e seus olhos se abriram sem motivo, talvez as crianças na rua, quem sabe o sinal do colégio na esquina de baixo daquele hotel velho, acordou e ficou olhando para o teto por um tempo, levantou lentamente e esbarrou numa garrafa vazia de éter – aquilo ainda o mataria um dia.

Ele imaginou que estava sozinho como sempre estava, mas naquela manhã surpreendeu-se ao ver aquela forma feminina deitada ao seu lado – normalmente elas acordam cedo e somem para não ter o desprazer de vê-lo sóbrio. A primeira coisa que lhe veio a cabeça foi descer para o bar e ficar vendo pelo canto do elevador ela passar para ir embora, mas lembrou-se que o bar do hotel só abria após ao 12h – sem sentido, mas nunca lhe foi problema. Resolveu que não faria nada, levantou-se e foi para a varanda, seu local preferido de todos os hotéis.

Aquela semana estava numa região especialmente fria, pensou que uma dose de vodka pudesse lhe cair bem, foi até a geladeira e ficou feliz em ver uma garrafa com um ou dois dedos, não sujou um copo para isso é claro.

Tentou inutilmente lembrar-se quem era aquela garota e por qual nome lhe chamaria quando acordasse, foi em vão, tomou sua dose,  e olhou para o telhado das casas da rua a frente, ficou imaginando todas aquelas pessoas levando suas vidas idiotas, indo comprar pão, respeitando a fila para o caixa, fazendo pose de pessoa boa, dando bom dia e agradecendo a Deus pelo dia e pela vida, uma porra de uma peça de teatro infinita, todos fazendo seus personagens socialmente aceitáveis, enquanto eram animais carniceiros sedentos por sexo e masturbação, o bom dia para a caixa da padaria escondia uma imaginação dela sem roupas, a espera da fila imaginando a esposa do vizinho virando-se e oferecendo uma boquete. Personagens! Uma peça.

O mundo ao seus olhos é uma tremenda putaria, homens vão ao trabalho para ganhar dinheiro, comprar carros e roupas para seduzir mulheres – não só a sua é claro – a natureza humana sempre foi exposta aos seus olhos sem véu e sem cores beges, o socialmente aceitável, a fé inabalável, características de um roteiro desumano, enquanto na verdade todos querem transar.

Ela ficou ali, olhando aquele escritor falido falando aquele amontoado de coisas sem sentido, estava muito bêbada para reagir àquelas bobagens, passou algumas cenas na sua cabeça sobre aquela conversa, alguma coisa sobre a vida ser um teatro e as pessoas serem todas viciadas em sexo, uma loucura sem sentido, ainda não tinha entendido o que fazia naquele quarto de hotel desde as 13h da tarde, já era quase 20h30. Vou embora!

Cara, estou indo nessa, ele escutou em seus pensamentos, voltou dos viciados em sexo e olhou para aquela menina, ela havia acordado, não respondeu, apenas acenou com a cabeça positivamente. Já era quase 21h, o bar deveria estar aberto.

Atillas Felipe Pires
18/03/2015

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