A gente costumava acordar entre as 11h e as 13h, eu
deixava ela dormindo e descia para pegar o jornal na porta de algum
vizinho do andar de baixo, voltava e normalmente ela já tinha acordado.
Ascendia um cigarro e colocava a água do café
para ferver, ela ascendia outro cigarro ainda na cama, levantava e
abria a janela, jogava cinzas no porta-incensos (particularmente eu
odiava ver ela fazer aquilo, era um insulto a mística dos cheiros de
sabores). Mas a visão de vê-la apenas de calcinha com
uma camiseta minha grande e larga, rasgada escrita Hard Rock Café, me
fazia esquecer da intolerância pelo habito da cinza no incenso.
Vinha na minha direção e me abraçava enquanto eu já
estava passando a água quente pelo coador do café, me dava um beijo na
nuca e dizia “bom dia amor”, abria a geladeira e tateava algo para
comer, sem sucesso, tínhamos o péssimo habito
de esquecer de ir ao mercado. Eu ficava ali esperando a água passar
pelo coador levando o pó de café consigo, a transformação das matérias,
ficava observando aquela ebulição química, enquanto isso ela sentava na
pequena mesa de dois lugares, ascendia outro
cigarro, amarrava os cabelos num coque com uma caneta, erguia uma das
pernas e sentava em cima da própria perna e começava a mexer nos meus
rascunhos, por vezes fazia algumas anotações, sugestões e até correções
ortográficas, fui um péssimo aluno de português,
motivo pelo qual virei um notável escritor.
O café ficava pronto, eu pegava duas canecas de
alumínio com a alça amassada, passava uma para ela, e pedia um cigarro,
até hoje não encontrei prazer mais genuíno do que tomar uma caneca de
café fumando um cigarro, eu sentava na outra cadeira
da mesa pequena, segurava sua mão, enquanto pegava algum rascunho do
bolo de papéis para ler (esse era nosso jornal).
- Acho que entrei numa vibe muito pragmática ontem a
noite, olha isso: “ não existe amor enquanto não se aprender a conviver
com a dor” sinceramente, esse não é muito meu estilo. Ela olhava para
mim, levantava parcialmente da sua cadeira,
passava a mão nos meus cabelos fazendo carinho na parte de trás da
cabeça, me dava um beijo na testa e dizia: “você é ótimo”. Eu pedia
outro cigarro!
Ficávamos um bom tempo ali sentados, as vezes,
entre um cigarro e outro, a gente pouco se falava, apenas ficávamos
lendo aquelas linhas escritas nas folhas de caderno com as rebarbas não
arrancadas, esse era nosso trabalho, eu escrevia
a noite, ao som de Wanda, Nelson, Cartola, ela enchia os copos, e
dançava com a taça, eu me inspirava e viajava, no dia seguinte, fazíamos
juntos o ritual da edição, onde líamos toda a produção da noite
anterior, e juntos montávamos aquilo que de alguma maneira
fazia sentido – as vezes era raro – principalmente quando eu me
desprendia do pudor, e me entregava ao sabor seco e mágico de infinitas
garrafas de vinho (tínhamos o ótimo habito de nunca deixar o vinho
acabar).
Ali sentada ela ia pegando os papéis amassados e
manchados de vinho, lia um a um, e fazia três diferentes montes: o
primeiro era os quais deveríamos mandar para a editora, o segundo era os
quais deveríamos guardar e complementar e o terceiro
era dos quais mereciam a tristeza gélida do lixo da cozinha, eu nunca
contestei seus critérios, possivelmente há contos e poemas que eu nem
lembro que fiz e nunca li e que foram para o lixo, um filho que não
conheceu o pai, um pai que não conheceu o filho.
Ela pegou um papel pequeno, meio rasgado, tinha
apenas uma estrofe, a essa altura eu já tinha terminado meu café, e
estava abrindo a gaveta da cozinha para ver se achava outro maço de
cigarro, ascendi mais um e passei o maço para ela, ela
nunca negava um cigarro, a fumaça subia, eu cruzei a perna e fiquei
observando ela ali, com a mão entre os cabelos segurando a testa,
algumas mechas caindo entre os olhos, lendo em voz baixa, ela não
conseguia ler apenas com os olhos e eu achava aquele detalhe
lindo, assim como todos os outros que compunham aquela obra de arte que
ela era por inteira, eu tive um bom tempo para escolher a quem
entregaria minha linhas, a quem dedicaria meus textos românticos que tão
pouco publiquei, e quando a vi sentada naquele banco,
no pátio central da faculdade, num sábado cedo, eu tive a mais absoluta
certeza que seria pra ela que entregaria a minha melhor arte. O meu
amor!
Naquele dia eu estava muito cansado, a noite havia
sido longa, eu era um adolescente que gastava onda com amigos e bebidas
até nascer o sol com seu brilho que socava minha cara enquanto dormia no
banco do fundo do ônibus indo pra faculdade,
eu desci cansado e sem vontade no ponto da avenida, e fui caminhando da
forma mais lenta possível, parei em uma padaria, eu estava com uma
ressaca de mil homens e um anão, pensei num misto, quase vomitei, fui
até a prateleira do fundo e peguei uma bolacha
(eu adorava Óreo) continuei andando e comendo uma bolacha de cada vez,
raspando o recheio e comendo as partes separadas, entrei na faculdade,
me dei conta que cheguei cedo, a aula começava as 9h30 e eram 9h00,
sentei num banco, cansado e querendo dormir, no
mesmo banco, um pouco mais longe, um grupo conversava, algo sobre uma
delas que havia começado a cantar, o grupo se desfez, alguns tinham aula
as 9h00, então ela ficou lá, sozinha, linda, com suas pulseiras e seus
olhos castanhos mel, entre tudo que eu poderia
dizer, entre todas as abordagens possíveis, todos os charmes
disponíveis, me ative a dizer: “você quer uma bolacha?”.
Naquela manhã em especial, o monte do “lixo” estava
maior que os demais, a noite anterior de fato tinha sido muito regada,
inclusive me lembrei que em um dado momento da noite, eu parei de
escrever, peguei ela pela cintura e comecei a rodá-la
no alto, caímos é claro, e pela maldita lei dos azares, meu copo
estacionou sua queda na minha segunda amada, a vitrola que berrava James
Brown, sentimos a oscilação do som, mas bêbados não nos importamos
muito, agora que não estava mais bêbado, tive medo
de ligar e não ouvir mais minhas obras primas.
Levantei da segunda cadeira da mesa pequena, e fui
até a sala, tínhamos um móvel na parede lateral, onde eu com muito
orgulho deixava minha coleção de vinil exposta, com outra caneca de café
na mão, e com o cigarro na mesma mão, fui passando
os títulos um por um, esperando aquele toque que nos diz: “quanto tempo
não escuto esse”, então parei em Elis, tirei da capa de papelão e
coloquei na agulha, o som encheu a sala: “não quero lhe falar meu grande
amor..” por Deus, estava perfeito.
Deixei Elis falando e voltei para a cozinha, ela
ainda estava trabalhando, olhei no relógio que tínhamos pendurado na
porta da geladeira, já se aproximava das 14h da tarde, cheguei na parte
de trás dela, segurei com as duas mãos nos seus
ombros, naquela parte entre o pescoço e os ombros, apertei com carinho,
senti ela se encolher e largar o papel na mesa, encostar sua cabeça na
minha barriga e fechar os olhos. Naquele instante tive a certeza que
tudo que fiz na minha vida até ali, era pra
viver aquele momento, tudo que eu abdiquei, todos os erros e acertos,
tudo que lutei, todas as noite, dias, semanas e meses de amorosa
solidão, foi tudo para chegar até ali, pra viver aqueles segundos da
mais genuína e perfeita paixão, que era a tradução exata
do amor. Naquele instante, e apenas naquele instante, eu vi que valeu a
pena todos os “eu te amos” que deixei de falar, por era pra ela que eu
estava guardando todos eles. Ela me disse: “eu te amo” eu respondi: “eu
te amo”, de forma tão natural quanto o nascer
do sol que surge imperceptível no começo da manhã. Me peguei naquele
momento completamente rendido, me peguei naquele momento, vivendo talvez
a melhor parte da minha vida, passada, presente e futura, na verdade,
aquele era o único momento em que eu me peguei
vivendo.
Olhando ela de cima para baixo, com os olhos
fechados e relaxando na proporção exata dos meus toques, eu pensei que
queria aquilo para sempre, assim como os bilhetes que eu mandei pra ela
na nossa primeira passagem: “por que pra mim, pra
sempre é sempre pra sempre” antagonizando o pragmatismo de Renato Russo
em sua celebre: “sem saber que o pra sempre, sempre acaba” Renato, que
por sinal, preencheu nossa história com muitas de suas musicas, assim
como o sábio e louco Nando Reis.
Guardamos o monte – que nessa manhã estava pequeno –
dos “enviar para editora” na gaveta dos “enviar para editora” e fomos
até a varanda, onde tínhamos duas cadeiras grandes, daquelas de velhos
pacatos e velhas ranzinzas, sentamos cada
um na sua cadeira, ela sempre sentava com os pés em cima da cadeira, e
em dias frios, como estava aquela tarde, ela colocava as pernas dentro
da camiseta, do nosso apartamento, a visão não era das melhores, víamos
outros prédios, mas ao menos era um andar
alto, já valia a brisa de ficar ali sem fazer nada, ou quase nada, já
que nossos finais de tarde era preenchido com o inicio da noite que era
pintado com os pincéis da cevada bem gelada.
Quando a noite foi chegando naquele dia, o ritual
iria voltar, ela iria dançar, eu iria pensar, a vitrola iria cantar, a
taça em algum lugar iria cair em algum momento, e assim passavam nossos
dias naqueles dias, até ela virar fumaça e
me deixar, até ela não ter vivido tudo aquilo, até o monte ter sido
analisado sozinho, até a varanda ser apreciada sozinho, até o cigarro
não ser compartilhado, até o café ser amargo e o cigarro pesado, até a
massagem ser paga, e os poemas rasgados, até a
vitrola que não funcionava a anos ser deixada na penhora e os vinil
doados ao sebo, até as escritas serem esquecidas, e as editoras nunca
vistas, até o final dessa utopia, dessa vontade de viver o que ficou
onde deveria ter ficado.
Ela era o que eu nunca deixei ser, apenas na minha fantasiosa cabeça era o que deveria ter sido.
Atillas Felipe Pires
23/09/2016
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