terça-feira, 27 de setembro de 2016

Café, Cigarro e Fumaça (Principalmente Fumaça)

A gente costumava acordar entre as 11h e as 13h, eu deixava ela dormindo e descia para pegar o jornal na porta de algum vizinho do andar de baixo, voltava e normalmente ela já tinha acordado. Ascendia um cigarro e colocava a água do café para ferver, ela ascendia outro cigarro ainda na cama, levantava e abria a janela, jogava cinzas no porta-incensos (particularmente eu odiava ver ela fazer aquilo, era um insulto a mística dos cheiros de sabores). Mas a visão de vê-la apenas de calcinha com uma camiseta minha grande e larga, rasgada escrita Hard Rock Café, me fazia esquecer da intolerância pelo habito da cinza no incenso.

Vinha na minha direção e me abraçava enquanto eu já estava passando a água quente pelo coador do café, me dava um beijo na nuca e dizia “bom dia amor”, abria a geladeira e tateava algo para comer, sem sucesso, tínhamos o péssimo habito de esquecer de ir ao mercado. Eu ficava ali esperando a água passar pelo coador levando o pó de café consigo, a transformação das matérias, ficava observando aquela ebulição química, enquanto isso ela sentava na pequena mesa de dois lugares, ascendia outro cigarro, amarrava os cabelos num coque com uma caneta, erguia uma das pernas e sentava em cima da própria perna e começava a mexer nos meus rascunhos, por vezes fazia algumas anotações, sugestões e até correções ortográficas, fui um péssimo aluno de português, motivo pelo qual virei um notável escritor.

O café ficava pronto, eu pegava duas canecas de alumínio com a alça amassada, passava uma para ela, e pedia um cigarro, até hoje não encontrei prazer mais genuíno do que tomar uma caneca de café fumando um cigarro, eu sentava na outra cadeira da mesa pequena, segurava sua mão, enquanto pegava algum rascunho do bolo de papéis para ler (esse era nosso jornal).

- Acho que entrei numa vibe muito pragmática ontem a noite, olha isso: “ não existe amor enquanto não se aprender a conviver com a dor” sinceramente, esse não é muito meu estilo. Ela olhava para mim, levantava parcialmente da sua cadeira, passava a mão nos meus cabelos fazendo carinho na parte de trás da cabeça, me dava um beijo na testa e dizia: “você é ótimo”. Eu pedia outro cigarro!

Ficávamos um bom tempo ali sentados, as vezes, entre um cigarro e outro, a gente pouco se falava, apenas ficávamos lendo aquelas linhas escritas nas folhas de caderno com as rebarbas não arrancadas, esse era nosso trabalho, eu escrevia a noite, ao som de Wanda, Nelson, Cartola, ela enchia os copos, e dançava com a taça, eu me inspirava e viajava, no dia seguinte, fazíamos juntos o ritual da edição, onde líamos toda a produção da noite anterior, e juntos montávamos aquilo que de alguma maneira fazia sentido – as vezes era raro – principalmente quando eu me desprendia do pudor, e me entregava ao sabor seco e mágico de infinitas garrafas de vinho (tínhamos o ótimo habito de nunca deixar o vinho acabar).

Ali sentada ela ia pegando os papéis amassados e manchados de vinho, lia um a um, e fazia três diferentes montes: o primeiro era os quais deveríamos mandar para a editora, o segundo era os quais deveríamos guardar e complementar e o terceiro era dos quais mereciam a tristeza gélida do lixo da cozinha, eu nunca contestei seus critérios, possivelmente há contos e poemas que eu nem lembro que fiz e nunca li e que foram para o lixo, um filho que não conheceu o pai, um pai que não conheceu o filho.

Ela pegou um papel pequeno, meio rasgado, tinha apenas uma estrofe, a essa altura eu já tinha terminado meu café, e estava abrindo a gaveta da cozinha para ver se achava outro maço de cigarro, ascendi mais um e passei o maço para ela, ela nunca negava um cigarro, a fumaça subia, eu cruzei a perna e fiquei observando ela ali, com a mão entre os cabelos segurando a testa, algumas mechas caindo entre os olhos, lendo em voz baixa, ela não conseguia ler apenas com os olhos e eu achava aquele detalhe lindo, assim como todos os outros que compunham aquela obra de arte que ela era por inteira, eu tive um bom tempo para escolher a quem entregaria minha linhas, a quem dedicaria meus textos românticos que tão pouco publiquei, e quando a vi sentada naquele banco, no pátio central da faculdade, num sábado cedo, eu tive a mais absoluta certeza que seria pra ela que entregaria a minha melhor arte. O meu amor!

Naquele dia eu estava muito cansado, a noite havia sido longa, eu era um adolescente que gastava onda com amigos e bebidas até nascer o sol com seu brilho que socava minha cara enquanto dormia no banco do fundo do ônibus indo pra faculdade, eu desci cansado e sem vontade no ponto da avenida, e fui caminhando da forma mais lenta possível, parei em uma padaria, eu estava com uma ressaca de mil homens e um anão, pensei num misto, quase vomitei, fui até a prateleira do fundo e peguei uma bolacha (eu adorava Óreo) continuei andando e comendo uma bolacha de cada vez, raspando o recheio e comendo as partes separadas, entrei na faculdade, me dei conta que cheguei cedo, a aula começava as 9h30 e eram 9h00, sentei num banco, cansado e querendo dormir, no mesmo banco, um pouco mais longe, um grupo conversava, algo sobre uma delas que havia começado a cantar, o grupo se desfez, alguns tinham aula as 9h00, então ela ficou lá, sozinha, linda, com suas pulseiras e seus olhos castanhos mel, entre tudo que eu poderia dizer, entre todas as abordagens possíveis, todos os charmes disponíveis, me ative a dizer: “você quer uma bolacha?”.

Naquela manhã em especial, o monte do “lixo” estava maior que os demais, a noite anterior de fato tinha sido muito regada, inclusive me lembrei que em um dado momento da noite, eu parei de escrever, peguei ela pela cintura e comecei a rodá-la no alto, caímos é claro, e pela maldita lei dos azares, meu copo estacionou sua queda na minha segunda amada, a vitrola que berrava James Brown, sentimos a oscilação do som, mas bêbados não nos importamos muito, agora que não estava mais bêbado, tive medo de ligar e não ouvir mais minhas obras primas.  

Levantei da segunda cadeira da mesa pequena, e fui até a sala, tínhamos um móvel na parede lateral, onde eu com muito orgulho deixava minha coleção de vinil exposta, com outra caneca de café na mão, e com o cigarro na mesma mão, fui passando os títulos um por um, esperando aquele toque que nos diz: “quanto tempo não escuto esse”, então parei em Elis, tirei da capa de papelão e coloquei na agulha, o som encheu a sala: “não quero lhe falar meu grande amor..” por Deus, estava perfeito.

Deixei Elis falando e voltei para a cozinha, ela ainda estava trabalhando, olhei no relógio que tínhamos pendurado na porta da geladeira, já se aproximava das 14h da tarde, cheguei na parte de trás dela, segurei com as duas mãos nos seus ombros, naquela parte entre o pescoço e os ombros, apertei com carinho, senti ela se encolher e largar o papel na mesa, encostar sua cabeça na minha barriga e fechar os olhos. Naquele instante tive a certeza que tudo que fiz na minha vida até ali, era pra viver aquele momento, tudo que eu abdiquei, todos os erros e acertos, tudo que lutei, todas as noite, dias, semanas e meses de amorosa solidão, foi tudo para chegar até ali, pra viver aqueles segundos da mais genuína e perfeita paixão, que era a tradução exata do amor. Naquele instante, e apenas naquele instante, eu vi que valeu a pena todos os “eu te amos” que deixei de falar, por era pra ela que eu estava guardando todos eles. Ela me disse: “eu te amo” eu respondi: “eu te amo”, de forma tão natural quanto o nascer do sol que surge imperceptível no começo da manhã. Me peguei naquele momento completamente rendido, me peguei naquele momento, vivendo talvez a melhor parte da minha vida, passada, presente e futura, na verdade, aquele era o único momento em que eu me peguei vivendo.

Olhando ela de cima para baixo, com os olhos fechados e relaxando na proporção exata dos meus toques, eu pensei que queria aquilo para sempre, assim como os bilhetes que eu mandei pra ela na nossa primeira passagem: “por que pra mim, pra sempre é sempre pra sempre” antagonizando o pragmatismo de Renato Russo em sua celebre: “sem saber que o pra sempre, sempre acaba” Renato, que por sinal, preencheu nossa história com muitas de suas musicas, assim como o sábio e louco Nando Reis.

Guardamos o monte – que nessa manhã estava pequeno – dos “enviar para editora” na gaveta dos “enviar para editora” e fomos até a varanda, onde tínhamos duas cadeiras grandes, daquelas de velhos pacatos e velhas ranzinzas, sentamos cada um na sua cadeira, ela sempre sentava com os pés em cima da cadeira, e em dias frios, como estava aquela tarde, ela colocava as pernas dentro da camiseta, do nosso apartamento, a visão não era das melhores, víamos outros prédios, mas ao menos era um andar alto, já valia a brisa de ficar ali sem fazer nada, ou quase nada, já que nossos finais de tarde era preenchido com o inicio da noite que era pintado com os pincéis da cevada bem gelada.

Quando a noite foi chegando naquele dia, o ritual iria voltar, ela iria dançar, eu iria pensar, a vitrola iria cantar, a taça em algum lugar iria cair em algum momento, e assim passavam nossos dias naqueles dias, até ela virar fumaça e me deixar, até ela não ter vivido tudo aquilo, até o monte ter sido analisado sozinho, até a varanda ser apreciada sozinho, até o cigarro não ser compartilhado, até o café ser amargo e o cigarro pesado, até a massagem ser paga, e os poemas rasgados, até a vitrola que não funcionava a anos ser deixada na penhora e os vinil doados ao sebo, até as escritas serem esquecidas, e as editoras nunca vistas, até o final dessa utopia, dessa vontade de viver o que ficou onde deveria ter ficado.

Ela era o que eu nunca deixei ser, apenas na minha fantasiosa cabeça era o que deveria ter sido.

Atillas Felipe Pires
23/09/2016
 

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