segunda-feira, 8 de junho de 2020

Síndrome de Savant

Do outro lado da cidade foi possível ouvir um trecho de Glitter em Gold de Barns Courtney quando aquele jovem demorou um pouco mais para colocar seus fones de ouvido no buraco correto do celular. No fundo do ônibus duas senhoras conversavam sobre o valor do kg do pão, um pouco mais a frente próximo ao motorista um cidadão comum como muitos ali se entretinha com os olhos baixos olhando para as pichações que passavam em câmera lenta nos muros da cidade, bendita seja a lei da profundidade x a velocidade x a distância.

Uma coisa sempre me intrigou com relação a alguns aspectos da sociedade, por exemplo por que as pessoas dentro de um ônibus tem a crônica tendência de ser alheias a tudo ao redor, uma convenção social organiza todos na mesma direção: indiferença! 

Sentado ali eu podia ver e analisar cada uma das pessoas, pais de família com aspecto devastado, cansados da rotina, jovens no auge de sua idade com olhos sonolentos depois de uma noite mal dormida, sempre emburrados e preparados para destilar seu mal humor e sua educação familiar precária na primeira pessoa que cruzar seu sombrio caminho, cidadãos comuns que perderam o brilho no olhar que os tornava humanos, seres empobrecidos em sua sanidade, velhos hipócritas negando seus preconceituosos pensamentos, pessoas egoístas que sempre estão atentos para pegar celulares esquecidos nos bancos, honestidade seletiva, só quando alguém está vendo, mentes cansadas transbordadas de inutilidades tecnológicas e notícias não averiguadas. Pobres vermes parasitas que consomem as entranhas mortas em decomposição de uma decadente sociedade que de tão doente segue seu caminho, mas anda morta..e eu? Eu estava lá.

Desde quando me diagnosticaram como ressocializado quando minha Síndrome de Savant aparentemente estava controlada, e eu pude finalmente deixar aquele maldito hospício, venho ocupando minhas cansadas sinapses com pequenas crônicas do dia-a-dia, acompanho o cotidiano e preencho algumas linhas mal escritas com pensamentos mal pensados. Meu hálito arrogante e pouco paciente tem percorrido muitos diferentes ambientes, com isso a cada novo dia de vida chego cada vez mais próximo a conclusão de que no hospício as pessoas eram mais sã mentalmente do que fora dele. Os loucos em sua doença mental experimentam um estado quase inconsciente, sua fragilizada mente os leva a fazer coisas que na grande maioria das vezes não percebem, mas mesmo os loucos são honestos a sua loucura. Aqui fora vejo muitos loucos, muitas loucuras mas nenhuma honestidade.

O conceito de doença mental na minha opinião é algo relativo, por exemplo, vejo ao meu redor nesse ônibus pessoas que acordam todos os dias com pesar no olhar, amarram seus sapatos com furos na sola e a cada laço sentem a dor de ter que enfrentar um novo dia, submetem-se a constrangimentos e assédios morais em seus trabalhos, choram no banheiro, obrigadas a sorrir para garantir o salário no fim do mês, uma vida comum e medíocre. Entendo a necessidade disso, mas jamais entenderei essa mesma pessoa, não sentar a luz do luar para brindar a noite, ou respirar um ar puro ao nascer do sol. É de graça! Eu vejo pessoas se afogando na rotina cinza, deixando as folhas da rotina cobrir completamente todas as cores da vida que não precisam de cifrão na frente para ter valor. Puta que pariu, isso sim é ser louco!

O jovem de fone de ouvido levantou com sua mochila e apertou o botão solicitando a próxima parada, as duas senhoras do fundo agora falavam alguma coisa sobre uma gripe forte de alguma amiga, o cidadão comum agora tentava descascar um adesivo de publicidade no vidro da sua frente. E eu? Eu estava ali.

No meu tempo de clínica, como minha condição me permite reflexões, análises e construções sintéticas de pensamentos lógicos, eu sempre fui um detalhista expectador do estranho controverso comportamento humano, eu me sentava numa cadeira embaixo de uma arvore no quintal, e todos os dias contava o número de passos que o pobre senhor Sem Nome – nunca perguntei e assim o apelidei – dava todo santo dia entre a sua sacada térrea e o canto do muro onde não tinha nada, eram exatos 97 passos lentos, ele acordava toda manhã exatamente as 6:12h sozinho, sem despertador, escova seus dentes com 32 duas passadas de escova de um lado para o outro naquela boca velha, fazia isso no tanque onde as roupas eram lavadas, após esse ritual, ele caminhava lentamente exatos 13 passos de volta ao seu quarto, guardava a escova e demorava 12 segundos para fazê-lo, posteriormente a isso ele caminhava lentamente o restante dos passos até o canto do muro. Lá ele encostava a cabeça numa fenda onde era possível ver a rua, uma pequena divisa entre um bloco de concreto e outro, ficava ali por 3 ou 4 horas diárias, imóvel, sempre a mesma coisa, todos os dias. Esse comportamento para mim era inaceitável, que tipo de ser humano conta os exatos passos que dá numa ordinária manhã, para fazê-lo igual todo santo dia? Eu agradecia por não ser assim.

Atillas Felipe Pires
08/06/2020

CADAVER


Cena: CADAVER
ROTEIRO ORIGINAL: ATILLAS FELIPE PIRES


Cabeçalho de cena O BAR

(1) INTRODUÇÃO:

O bar – final da tarde (primeiro dia), o bar é típico de faroeste, apesar do sol do lado de fora, esta escuro na parte de dentro, a poeira invade e se assenta nas mesas, a higiene é precária, no fundo esta tocando uma melancólica música (algo de Ennio Morricone).

Personagem 1: O forasteiro

Ação (1):

O forasteiro esta vestindo uma roupa velha com detalhes em couro, um chapéu largo e sua pele esta suada e com pó grudado, o que indica uma longa viagem.

Ele entra no bar balançando a porta atrás de si, o bar não esta cheio, alguns bêbados sentados nas mesas a sua esquerda, um dos bêbados com o pé na mesa dorme com um palíto nos dentes e com o chapéu abaixado na cara, o outro tenta mudar a musica na máquina, mas não consegue e num golpe desiste e senta-se caindo na cadeira, é possível ver copos esquecidos em mesas vazias, e no canto do fundo outro bêbado dormindo sentado com um copo na mão direta, o forasteiro caminha até o balcão e pede uma dose de uísque sem gelo.

Ação (2):

O dono do bar, que também é quem serve a bebida, lhe da a dose de uísque enquanto limpa o balcão do bar com ar de desconfiado, olha para o forasteiro. O balcão é de madeira rustica com aparência envelhecida, no fundo expostas estão garrafas de bebidas velhas, com pó nos rótulos originais, no lado direito do balcão há dois vidros de bebidas com cobras mortas dentro.

Ação (3):

O forasteiro toma em um gole só a bebida, olha para o dono do bar e pede outra. Enquanto o dono do bar se vira para pegar a bebida, o forasteiro olha discretamente por cima dos ombros analisando com olhar fincado, os ocupantes do bar.  

Close: Nesse momento uma fresta da luz do sol entrando pela janela do bar é cortada pelo movimento do ventilador velho de teto que gira devagar, a luz brilha e reflete na estrela de xerife no peito do forasteiro, na cena o brilho da estrela alcança os olhos fundos de Jack Holeblood.  







Personagem 2: Jack Holeblood

Jack Holeblood esta usando um roupão grande (do estilo sobretudo) marrom claro, com botas de salto que faz barulho no assoalho de madeira, é estrábico, com barba relativamente grande, esta mastigando tabaco, os dentes são amarelos, com cabelo meio longo meio curto.


Ação (1):

Após a luz da estrela de xerife brilhar nos olhos de Jack Holeblood, Jack se levanta, cospe o tabaco que mastiga no chão e vai até o balcão do bar. Ele estava sentado em uma das mesas do lado esquerdo do bar (da perspectiva de quem entra) marcava alguns X´s na mesa de madeira.

Dialogo (1) Jack Holeblood:

“ – Estou disposto a ouvir a sua história, antes de decidir como vou te matar, pra falar a verdade estou curioso para saber se você é louco ou não, nunca ouviu falar desse lugar? Aqui a lei não existe, ela não diz nada, aqui a lei não chega, quem manda e desmanda é este que vos fala, prazer, eis aqui o tal Jack Holeblood.

Close: Cena vista da parte de fora do bar, onde a placa pendurada na entrada expõe sete furos de tiros, um para cada xerife que Jack Holeblood matou. Uma macabra coleção.

Close (2): No balcão um jornal com a noticia do famoso assassino que mata xerifes por esporte, o jornal esta a vista do forasteiro.

Ação (2):

O forasteiro olha para o jornal no balcão com a notícia de que Jack Holeblood é o famoso matador de xerifes, olha bem a foto publicada e se volta para Jack Holeblood lentamente (como que para conferir se é ele mesmo).

Dialogo (2) Forasteiro:

“ – Trago comigo sempre a minha pistola, mas nunca com todas as balas, uma estranha mania desse, como foi que disse mesmo?..desse louco, comigo vem sempre uma única bala por que quase nunca preciso mais do que isso, e estou aqui para te dizer, que cada um dos setes que você matou, essa bala solitária irá vingar, em nome da divina santidade, diferente de você eu já decidi que vou te matar, antes de ouvir sua história, mas de qualquer forma me diga, quem te estuprou na infância? Seu pai ou algum tio distante? Se for assunto pessoal não precisa me contar, pra ser sincero não me importa a história dos mortos.

Close (3) A musica melancólica no fundo parou assim que a faixa chegou ao fim junto com a ultima palavra do forasteiro, os olhares se voltaram para a cena, os bêbados que estavam dormindo acordaram, foi possível ouvir um grunhido contido, o vento bateu novamente na placa lá fora, o ventilador continuou a girar lento no teto (por um tempo foi o único barulho que se ouviu, as engrenagens velhas do ventilador de teto lento).

Dialogo (3) Jack Holeblood

“ – Esta aí duas coisas que eu não sabia, uma que eu tinha sido estuprado e outra que defunto falava (referencia a fala de Severino de Aracajú no filme O alto da Compadecida de Suassuna) você fala demais para quem acabou de chegar, olhe para aquela placa lá fora, onde eu pendurei sete estrelas igual a sua, sete tiros da minha coleção de xerifes mortos, seu desafio foi um convite arrogante para o seu próprio funeral, eu não tenho medo dessa sua única bala, no tambor da minha pistola cabem seis e todos os espaços estão ocupados se é que me entende forasteiro, como já te disse e volto a dizer, aqui a lei não tem nada para falar, quem manda e desmanda é Jack Holebloo..”

Close (4)

Antes de terminar sua fala, num movimento repentino, o forasteiro faz cair uma adaga da manga direita do seu casaco, gira-se rápido na direção de Jack Holeblood e crava a adaga num golpe certeiro bem entre os olhos, na parte onde as sobrancelhas costumam se juntar (destaque para a precisão do golpe nesse momento).

Ação (3) Forasteiro

Enquanto escuta a ultima fala de Jack Holeblood, o forasteiro começa a balançar o braço direito que esta apoiado no balcão (deixando dúvida no interlocutor) enquanto olha de canto de olho para o Jack Holeblood, um pouco antes de terminado o diálogo anterior, o Forasteiro, olha sorrateiramente para o dono do bar que esta a sua frente e deixa escapar um sorriso de canto, num golpe certeiro e quase sem olhar, crava a adaga que escorregará de sua manga enquanto se mexia, bem entre os olhos de Jack Holeblood.

Close (5)

Dado o golpe certeiro entre os olhos, o corpo de Jack Faz-Sangrar cai lentamente para trás ainda com os olhos abertos, como quem foi interrompido e não esperava o que ocorreu (de fato não esperava) o tombo é lento e demorado, o barulho do toque na madeira ecoa forte e a poeira levanta de seu casaco velho. A imagem do sangue escorrendo é mostrada apenas na madeira, não saindo da testa do morto.

Ação (4) Forasteiro

O forasteiro termina de levantar-se e fica em pé diante do corpo ali caído, retira de seu bolso esquerdo do casaco de couro, um cartaz de procurado com a imagem de Jack Holeblood, retira também a estrela de xerife de seu peito e joga ambos sob o cadáver (o cartaz e a estrela).

Dialogo (5) Forasteiro

“ – Não sou xerife meu senhor (conversando com o morto) apenas ouvi histórias a seu respeito, vim aqui para concluir meu trabalho, sou caçador de recompensas, o Ator de uma Bala Só.”

Ação (5) Ator de uma Bala Só

Enquanto termina sua ultima fala, o Ator de uma Bala Só, lentamente retira sua pistola, gira com paciência o tambor para deixar a única bala na posição de tiro, aproxima do cadáver e aperta o gatilho na direção entre o tórax e o coração, mantendo sua fama, de uma bala só.

Ação (6) Ator de uma Bala Só

Após dar o tiro que garante a morte de Jack Holeblood, o Ator de uma Bala Só, olha ao redor para os demais ocupantes do bar, da um suspiro longo, ascende um cigarro e dando as costas para o corpo, senta novamente em seu lugar, olhando para o dono do bar (que esta com olhos grandes e assustado)diz que esta com fome e pede um prato.

Dialogo (6) Ator de uma Bala Só

“ – Meu senhor, estou com um pouco de fome (com gélida calma na voz) gostaria de uma costela de carneiro com muito tempero e mais uma dose de uísque por favor”

Ação (6) Ator de uma Bala Só

Toma a dose de uísque de uma vez só, arruma-se para comer seu prato, come lentamente enquanto folheia as outras paginas do jornal no balcão, lê alguma coisa sobre assaltantes de bancos (close “bando assalta banco e mata clientes”) termina de comer, dobra a pagina do jornal e leva consigo, levanta lentamente da cadeira (como se sentisse um pouco a idade) olha para o corpo ali deitado, retira lentamente seu cinto, como se já tivesse feito isso outras varias vezes (close em marcas de sangue no cinto) amarra o cinto no pé do cadáver, sem demonstrar qualquer emoção ou qualquer sentimento, começa a atravessar o bar arrastando o corpo, antes de chegar a porta, faz uma pausa, olha em volta e encara os ocupantes do lugar, e fala.


Dialogo (6) Ator de uma Bala Só

 - sabem a origem dessa palavra? Cadáver? CArne DAda aos VErmes!”

Ação (7) Ator de uma Bala Só

O Ator de uma Bala Só, após terminado seu ultimo dialogo, continua arrastando o cadáver, sai do bar e começa a amarrar o corpo em seu cavalo.

Close (6):  

Enquanto o Ator de uma Bala Só esta amarrando o corpo em seu cavalo a musica volta (a mesma que tocava no início da cena) e entra uma voz em terceira pessoa: “..Ator de uma Bala Só sentiu as costas quando ergueu o corpo no cavalo, seu trabalho era pesado, o único ócio da sua profissão”.


FIM DA CENA