quarta-feira, 18 de maio de 2016

Onde não se ganha o pão

Fila do pão pra quem fila o pão
Desse nosso dia-a-dia
De quem nem ganha 1 centavo por metro capinado
(de ganha-pão)
Acorda bem cedo
Com olho cerrado
Parte na estrada, beirando aquele cercado
Caminhadinha matinal até a plantação
De quem não tem um vintém 
Mas carrega consigo, três décadas de calos nas mãos
E no fundo fica na fila
(na fila do pão)
Mas o pão não fila
Por que no bolso sem peso só carrega a magoa 
No Estado sem água
Sem água pro pão

Olha pro céu lhe caí uma pedra
Do alto da inchada que polui a visão
Quando toma impulso pra cravar seu ódio no chão
Cavando e enterrando o seu ganha-pão
No sol dessa terra
Dessa terra garrida 
Onde as vezes faz, as vezes cura as suas feridas
Lhe vem sempre a mente
A promessa do homem
Que vem de repente no que chamam de eleição
"Vamos trazer energia, e garantir ganha-pão"
"Me de a vara e não o peixe
Eu não quero esmola não"
Lhe volta a resposta
Que escreveu na porta do seu casébre 
Tem os próprios anti-corpos
Quase nunca tem febre 

No suor dessa vida
Garante-lhe a mesa com peso
Mesmo que não muito
Mas o bastante que lhe evita o despreso
De ver no jornal - de quem não tem teatro eletrônico
(no centro da sala de estar)
Esse circo platônico
Que cerca essa nação
Que la distante
Não lhe garante o mínimo para o ganha-pão
Basta que chova um pouquinho
É tudo que precisamos
O chão nos da tudo
E chuva você ainda não aprendeu a fazer não
Volte com suas promessas no mesmo avião
Do alto da sua arrogância você não entende
Por que a mil pés não se ara o chão
Lhe turva a visão
Então evite a janela
Volte a sua sala redonda
Onde se reúnem os saqueadores dessa nação
Os que não merecem as belezas dessa terra
Que não deveria nem ter parado aqui
Na época das caravela 

Refletido bastante
Enquanto naquela carreira vai adiante
Semeando a própria história
Já vê o sol ir embora
É hora de voltar pelo cercado
Caminhando calado
Ele vem calmamente contemplando o cerrado
Minha terra, minha história
Meu chapéu de couro
Minha sandália cobrindo meus pés sujos
Esse é o meu ouro
O ouro do sertão que ninguém lhe tira não
O ouro do sertão que ninguém lhe compra não
Eis aqui minha confissão
Eis aqui minha oração
Uma homenagem singela
A essa nobre e forte parte da nação

 

Atillas Felipe Pires 

18/-5/2016

Nenhum comentário:

Postar um comentário