quarta-feira, 25 de maio de 2016

Frases de traseira de caminhão

Talvez não me valha a loucura falar de poesia. Na verdade, pouco sei dessa paradoxal questão, as vezes me considero um poeta em outras apenas alguém que transpoema minha falta de lagrimas em palavras geometricamente equilibradas numa corda bamba que curiosamente se mantém estática mesmo em meio a mais de uma tempestade que já encarei. Sou na verdade um louco que não vive a própria loucura, alguém que desenha a própria insanidade que gostaria de ter,quando me encontro com "excesso de lucidez, lou"curo-me". 

Por vezes, vezes mais, vezes menos, me transporto de mim mesmo, assumo um estado de espirito que não me pertence, afinal de contas, nada nos pertence abaixo do céu, somos meros personagem que vive num eterno exercício de variações emocionais, uma espécie cruel de montanha-russa sentimental, o qual, graciosamente, nos faz provar dos mais variados e excêntricos sabores dessa louca viagem que se chama vida. Estamos eternamente em uma viagem de trem com as janelas abertas, o que entrará com o vento e socará nosso já surrado rosto, na próxima curva, é adocicadamente imprevisível e bom ou dolorosamente cortante e assassino, tudo dependerá da sorte que o destino lhe reserva.

Sei transitar muito bem nessa vida, provando em cada nova esquina um novo sabor, sei da minha natureza original que é essencialmente suburbana, mas adoro meu timbre teatral, que me transforma num carismático camaleão social, odiavelmente amável e sempre sentimentalmente indisponível. Este sou eu sendo eu mesmo, uma das raras aparições nesse ambiente, uma das raras confissões que fiz nessa tranquila vida turbulenta, assumindo minha real forma geminiana, por fim, sobre tudo isso, não concordo e nem discordo, muito pelo contrário.

Acredito que eu tenha um especial talento em confundir o que esta em órbita a mim, criando um mundo e devaneios que nem mesmo eu entendo, no fim, acho que minha droga preferida é a segurança de causar insegurança, e não ser um solo sólido a ninguém, me faço de lago em movimento, um eterno mar em ressaca - condição que graças aos Deuses e a todos os Orixás, experimento com regularidade - eu passo abraçando e sendo doce com as pedras que permeiam minha margem, mas deixo claro que sou correnteza que se esvai e no meu ritmo não tem marcha ré, eu almejo banhar de amor as pedras que estão a minha frente, pelo simples fato que pelo curso natural das coisas, logo ficarão também para trás. Outra rara confissão!

Ok, vamos lá, em uma outra noite dessa adentrei um rabugento e enfadonho ambiente noturno, naquelas bandas conhecido como bar, na minha cabeça, uma espécie de catedral sagrada, entrei como se fosse um veterano frequentador, sentei a beira do balcão, como fazem os cowboys, pedi minha já manjada bebida, uísque sem gelo, uma dose dupla, por favor, tomei num trago longo e cortante, aquela noite abandonei minha poltrona de couro e meu livro de 1926 para forçosamente voltar a respirar o fedor noturno de urina dos banheiros sujos desse tipo de lugar. Lembro que naquela feliz ocasião a vitrola de fundo gritava aos berros alguma coisa que me pareceu, Miles Davis com seu marcante Kind of blue, o cenário ideal para uma noite surreal. 

Não contente com as três iniciais doses duplas, pensei que talvez seria interessante cravar em minha introdução do livro que seria aquela noite, um copo americano cheio de Cointreau - nunca fui fã daqueles copos minimalistas que colocavam essa bebida na posição deprimente de pós-drink - tomei como se fosse a ultima bebida da minha vida, com certeza se eu estivesse no corredor da morte, pediria um copo de Cointreau para anestesiar minha partida. 

Lá pelas 01, 02, ou 3 horas da manhã, fui tocado por uma mão leve de unhas vermelhas, com a evidência que de que precisavam ser retocadas, era o personagem feminino daquela nefasta e já desenhada noite tempestuosa. Uma visita inesperada para uma noite cravejada de diamantes de barro.

Na verdade esse negócio de cameleão social foi uma definição que eu mesmo me dei há uns anos atrás, achei interessante a analogia com esse animal, principalmente pelo fato de eu mesmo não saber qual das minhas múltiplas faces é a verdadeira, apenas as visto conforme o ambiente ao qual estou atuando, sem saber jamais quando estou fora do palco, na verdade, eu sempre quis ser ator, quando criança minha mãe dizia que eu falava que seria o novo/velho/mais-ou-menos velho, James Dean - traduzido para minha real realidade, e me desfazendo do personagem desse texto - a referencia artística desse parágrafo era talvez algum topetudinho de Malhação, mas o fato central dessa assertiva confusa, é que, sempre me imaginei um ator e talvez por isso, não canso de atuar na peça sem fim que é essa minha tortuosa história de vida.

Já a questão de comparar-me a um rio - ou qualquer inconsistência fluvial - mora justamente no fato de que sempre me considerei um viajante sem porto, assim como as correntezas que nunca param para dar um oi, apenas passam, banham as pedras no caminho, as dão forma, lhe dão o carinho que lhe peculiar, as acoberta com seu manto refrescante e calmo, e por fim, segue viagem no leito infinito até o imensidão do mar que o espera. Não olhar para trás! Meu fascínio não motivado.

Realmente aquelas unhas por fazer me traziam a ideia do descontrole orgânico que sempre me cativou nas mulheres, o coque no cabelo com uma caneta bic, as havaianas nos pés, as pulseiras de linha nos braços, a falta de vontade de impressionar sempre me impressionou, a segurança da mulher  que sabe que Deus lhe foi generoso na beleza natural e que instintivamente pouco se importa em se arrumar com as inaturalidades e futilidades da falsa beleza. Outra rara confissão.

Quando me virei para ver a dona daquelas mãos, fui tomado de assalto e meus lampejos de respiração fraquejaram como se um espirito passasse ao meu lado e colhesse minha alma, senti o gelo do medo atingir em cheio meu estomago vazio, fui tomado por aqueles raros momentos em que me fogem as palavras, aquelas quase inexistentes lacunas que não me permitiram concatenar os verbos e substantivos e tão pouco formular alguma frase que fizesse algum sentido, num gole seco que arranhou minha garganta, tomei os últimos mls do meu copo, enquanto pensava em algo para dizer, pareceu uma eternidade, e as exatas palavras foram: "o banheiro daqui tem um cheiro horrível". 

Eu deveria ter mais ou menos uns 16 anos, talvez mais, talvez menos, realmente não me lembro muito bem da época em que isso aconteceu, sempre fui um cara que despontava para o lado não comum das convenções sociais, ir a igreja, ao parque, fazer o papel nessa época era muito complicado pra mim, mesmo assim, aquilo aconteceu, mesmo evitando, a maior das desgraças que podem acalentar o coração de um homem, me aconteceu, conheci uma garota, que curiosamente reunia todos os atributos que me fascinavam na espécie, inevitavelmente me peguei, como posso dizer, tendo quem sabe, breves arrepios destinados a esse angelical ser. Foram tempos bons na minha vida, uma temporada de felicidade e tristezas extremas, vivíamos mergulhando tanto no mais alto dos momentos bons, como nos mais profundos e obscuros momentos ruins, me rendi, e nessa derradeira época, cravei uma tatuagem em meio peito. Uma luz que não produz sombras!

Quando penso nesse negócio de levar a vida como se fosse um enorme prato a saborear, de querer provar os diversos sabores das esquinas que frequento, na verdade quero dizer que acho que estamos aqui de passagem, e que nossa estadia nesse plano é bastante corrida, nosso filme passa numa gravação de velocidade acelerada, por isso a ideia de me manter estático rendido ao mesmo sabor sempre - ou quase sempre - me parece uma forma covarde de desperdício de força vital, digo covarde por que ao meu ver, a segurança de ter um pouso é apenas o medo de se manter voando o medo  de não ter nada quando na verdade se pode ter tudo, um paradoxo que sempre - ou quase sempre - esteve muito claro em minhas afogadas sinapses atrapalhadas pelos excessos que cometi no percurso. 

Ela assentiu com um delicado balançar de cabeça, realmente a possibilidade do cheiro do banheiro ser ruim era bastante grande.

Atillas Felipe Pires
25/05/2016 

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