segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Agulha, Bares e Fronteiras

Aquela agulha ficava girando sem parar, até chegar ao ponto vazio do disco, então surgia no ambiente aquele agradável chiado de quando todas as faixas já foram todas tocadas e o aparelho murmura sedento por uma nova melodia. Eu tinha o costume de apreciar aquele chiado final, era como se aquilo fosse uma espécie de reverencia do artista, pedindo meus aplausos, virar o lado antes de ouvir aquele chiado seria tão ultrajante quanto sair do teatro antes dos artistas se curvarem juntos de mãos dadas para o seu público.

Eu ouço a reverencia ao final dos discos, e quase sempre faço ouvir meus aplausos em pensamentos e sorrisos de canto.

Naquela tarde em especial eu havia almoçado na antiga Rua Fleet no cruzamento com a Jones, conhecia por lá um restaurante caseiro que ficava ao final de um beco sem saída, virando a direta, com uma placa pendurada onde era possível ler: “Bebida a vontade”. Nunca fui do tipo de boêmio que apreciou boa comida, mas nunca abri mão de boa bebida, e pra mim, a melhor bebida era aquela que não acabava. Por lá, ela não acabava nunca, o marido da dona trabalhava numa distribuidora e fazia da sua rotina de trabalho o desvio de umas 2 ou 15 caixas por semana, o que servia de atrativo para o negócio alimentício da família.

Usualmente eu almoçava nesse restaurante e preenchia minhas tardes com a prerrogativa do lugar, bebia sozinho, acompanhado, feliz, triste, satisfeito ou mau humorado, eu ficava lá sentado no balcão e via um a um os fregueses indo embora, via dona Joana varrendo o salão principal, e ficava encarando o relógio e ouvindo ao fundo o rádio comunicador, que sempre girava na mesma rádio, uma sintonia clandestina que apresentava bandas de Blues regionais de pouca notoriedade, naquele balcão eu podia refletir e me iludir com minhas próprias reflexões, foi por lá que tive muitas ideias que por anos preencheram meus papéis brancos, foi por lá também que tomei muitas das decisões idiotas que me trouxeram onde estou – pro bem ou pro mal.

Quando me cansava de beber, e principalmente quando cansava de contar as voltas por segundo do ventilador de teto, eu pedia para Dona Joana embrulhar uma caixa de cervejas long neck (tempo bom aquele, vinha 12 garrafas por 23 pratas) e voltava caminhando para meu sujo e embolorado apartamento, que ficava duas, três ou cinco quadras dali.

Naquele dia resolvi ouvir um pouco de Cartola, me faria bem lembrar do Brasil, aquela voz verdadeiramente carioca melodiando a letra que alcançava em cheio meu gélido coração, era sem dúvida uma das obras artísticas que mais me fascinavam. Para aquele chiado, eu praticamente jogava moedas!

“Preciso ir a procurar..rir pra não chorar”

Quando o chiado começou a preencher as ondas sonoras do meu quarto, comecei a ouvir bem mais que algo uníssono, talvez pelo efeito etílico da tarde somado a quinta garrafa que já estava abrindo, eu consegui ouvir o que aquele ponto final tinha a me dizer, consegui ouvir o velho Cartola com seu cigarro na boca, dizendo por entre lábios equilibrando o cigarro com maestria enquanto profere suas sábias palavras: “preciso ir a procurar..rir pra não chorar” eu estava maravilhado com aquilo, eu conseguia ouvir bem claramente aquelas melódicas palavras. Uma mensagem direcionada aquela parte de mim que teima em se esconder das cores da vida, do amor, do calor, da paixão, aquela parte de mim, que encontra a solução sempre no fundo molhado de uma garrafa ou nos tragos infindáveis da nicotina mortífera e cancerígena, meu pulmão sabe que eu sou fumante e vive pedindo trago a todo estante.

Pois bem, as tardes naquele restaurante eram de fato muito gratificante, eu realmente gostava muito de passar aquele tempo sozinho com minhas afogadas ideias, eu sempre fui daqueles que preferia frequentar lugares daquele tipo, lugares marrom, sem muito metálico, lugares quentes, de carpete e tapetes pendurados, gostava de lugares com energia viva e não meramente ambientes planejados e meticulosamente estudados para – possivelmente – agradar aos clientes, eu gostava dos lugares que simplesmente eram o que eram, e eu, é que tinha o poder de decidir se iria ou não frequentá-lo. Eu era assim!

Havia esse cara, um sonhador que ganhava a vida pintando o rosto e tocando violino nos bares da cidade, o que ele mesmo costuma chamar de intervenção musical, com sua fantasia que me lembrava os ciganos da Romênia no filme O Corcunda de Notre Dame, ele costuma me tirar aplausos mentais e moedas reais, quando o seu chiado começava e ele estendia seu chapéu de palhaço, eu quase sempre jogava uma ou duas moedas. Por vezes eu invejei o palhaço – ou intervencionista musical – ele sempre me aparentou ter uma energia leve e positiva, alguém que frequenta essa vida como uma pluma que segue o rumo do vento, de forma leve e suave, surfando pelos ares até a próxima parada – ou no seu caso, até o próximo bar.  Certa vez, paguei-lhe uma dose de hidromel, a seu gosto, nunca fui fã de bebidas doces. Horas depois, ele havia bebido uma jarra daquela porcaria melada e eu uma garrafa do meu habitual uísque sem gelo.

Uma reflexão: Incrível como o mundo parece bem mais colorido quando estamos bêbados, sei que esse tipo de afirmação é bem pouco ortodoxa, e posso – possivelmente irei – ser bastante criticado por dizer isso, mas a verdade é que, na verdade, a minha verdade, é que a liberação dos instintos mais naturais de nossa mente é capaz de traduzir em sentimentos alguns dos pensamentos mais escondidos e exterioriza-los das mais diversas formas, alguns gargalham compulsivamente, outros choram copiosamente, tudo dependerá da natureza dos sentimentos reprimidos, nesse contexto é como se a alteração necessária dos nossos sentidos funciona-se como uma torneira que libera esses sentimentos, e nos trás a sensação de alívio, em palavras minhas e mais simples, é como gozar pelo cérebro.

Ele foi ficando cada vez mais alcoolizado! O que teria um palhaço musico a dizer quando ativado seus sentimentos reprimidos? Quais as frustrações e inquietações de um ser que flutua pela vida? Um individuo que surfa nas ondas que afogam as pessoas normais? Nada, ele me disse, “eu não tenho nada para dizer” Respeitei, as vezes não queremos abrir nossas torneiras, então, coloquei um ponto final na conversa, assim como colocarei nesse paragrafo, tudo isso, essa introdução inútil, para lhes dizer um ambíguo silencioso e sonoro: Nada!

Sinceramente, nunca acreditei na bobagem de que tudo tem que ter um sentido, de que tudo deve seguir o ritmo traçado pelos padrões, começo, meio e fim, surpresa no final, ação nas entrelinhas, não entendo a necessidade de subestimar a capacidade colaborativa do interlocutor, acima de tudo, não entendo a necessidade de subestimar a capacidade criativa do interlocutor. Te dou os elementos você cria a formula, te dou as variáveis e você decifra a equação.  Eis aqui descrito a falência e desconstrução do possível e ao mesmo tempo inalcançável sucesso literário, não há pecado em ter uma muleta desde que não se tenha preguiça de andar.

Sou adepto das rupturas bruscas, dos parágrafos intercalados e das palavras que de tão sem sentido acabam por ter um sentido. Esse estilo sempre orbitou em minhas produções, talvez por isso você nunca tenha ouvido falar de mim. Após tudo isso, aquele palhaço desistiu do seu nada, mas aí, quem queria o nada era eu.

“..ainda é cedo amor, mal começastes a conhecer a vida, já anuncias a hora da partida” quando minha vitrola alcançou essa faixa, fui tomado por uma emoção arrepiante que poucos artistas me arrancam, maldito e bendito Cartola, odeio emoções mas admiro quem causa emoções, um contrassenso que me define da primeira letra ao ultimo ponto final. Pensar enlouquece, pense nisso! Eu gostava muito de fazer isso, ouvir Cartola e inventar minhas histórias loucas com bêbados e garrafas, restaurantes e senhoras.

Ainda consigo me lembrar, a ultima e triste vez que falei com dona Joana, enquanto ela varria o chão cantarolando uma cantiga cigana, eu estava em mais uma tarde como qualquer outra e resolvi puxar assunto com aquela senhora, que apesar do semblante sempre amigável me passava a terrível sensação de alguém sofrida. Conversamos sobre tudo, desde sua despedida da Romênia e chegada clandestina em solo americano, contou-me sem muitos detalhes sobre os filhos, eram 4, todos novos quando deixou seu país de origem, nesse ponto da conversa seus olhos marejaram e ela contou sobre o mais novo que perdeu-se na travessia da fronteira, ela nunca mais o viu.

Dizia que o filho há muito perdido, muito embora novo, já demonstrava sem iguais talentos, um artista de alma e coração, tinha a incrível habilidade de aprender sozinho qualquer instrumento musical, pouco antes de se perder havia acabado de ganhar um violino usado, e vinha arranhado aquelas cordas no porão do barco velho que os trouxe da Romênia, dona Joana disse que ainda ouvia àquelas mau-soladas linhas de quem estava conhecendo algo novo até hoje em seus pensamentos. Fiquei de fato comovido com as palavras de dona Joana, que definia o filho como uma alma de sorriso fácil, como alguém que tinha prazer em ver o outro sorrir, como um palhaço.

Atillas Felipe Pires
29/08/2016

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