terça-feira, 7 de novembro de 2017

Era do Depauperamento



Naquele dia em especial estava muito difícil preparar a aula, o cansaço mental do dia batia bem mais forte do que o normal, talvez estivesse ficando doente, o tempo tem mudado constantemente de maneira brusca e imprevisível. Levantou e foi até a cozinha, pegou uma cápsula de vitamina na geladeira, aproveitou para tomar sua capsula diária de alimentação e água gaseificada.

Voltou para a sala onde costumava preparar as aulas, precisava deixar aquele chip de história da humanidade pronto antes do amanhecer. Ainda não sabia qual seria o nível orgânico de aceitação dos alunos, é sempre uma surpresa como cada massa cefálica vai receber o material, não é incomum algumas rejeições. Por fim, após inseridas as informações, ele também precisava se preparar para as explicações técnicas, depois com as projeções memoriais  exibidas na cabeça de cada aluno, era preciso uma eximia didática para elucidar as informações inseridas.

Mesmo para um professor especializado no tema, sempre é um desafio explicar para as turmas a história da humanidade, as dúvidas eram inevitáveis e extensas, os alunos não tinham muita facilidade em entender todos os caminhos percorridos pelo homem até chegar no estágio de evolução ao qual se encontram. Algumas coisas parecem ilógicas, e realmente, é bem pouco crível alguns dos fatos e costumes que nossos ancestrais tinham.

Naquele tempo os humanos costumavam ter muitos hábitos orgânicos, a troca de fluídos era intensa e inclusive o principal e único meio de reprodução, além de um prazer pagão que os forçava a liberar vitamina e líquido reprodutivo sem a menor necessidade e se corromperem mutualmente abrindo precedentes para doenças fatais, os alimentos eram sólidos e precisavam ser cozidos, o corpo era frágil e precisava constantemente de suprimentos médicos e intervenções cirúrgicas. A utilização cerebral ainda não passava de 10% da capacidade total e quase todas as atividades eram desempenhadas com estímulos físicos e consequentemente geravam desgaste de fibras e células, causando o envelhecimento e por fim a morte – maior temor de nossos ancestrais.

Explicar sobre a morte era talvez a pior parte do tema, algo invisível que vinha sem avisar e fazia com que as pessoas deixassem umas as outras, causava tristeza e reações químicas orgânicas como choro e dor – outros temas que também eram complexos de tratar nas aulas.

Por ser o principal estudioso da história humana, já havia dado aquela aula por quase 97 anos consecutivos, então era possível prever quase todas as perguntas dos embriões, mesmo assim, sempre surgiam questionamentos que o faziam pensar, a evolução acelerada fazia com que cada vez mais as novas safras de humanos viessem inteligentes e dotados de dedução instantânea.

Seus pensamentos foram interrompidos por uma chamada telepática, projetou as imagens na parede da sala enquanto viu surgir sua ex-esposa:  ”Norbiteu preciso que você me envie os arquivos e lembranças do nosso casamento, o processo de fragmentação dos dados esta marcado para a próxima quinzena!”

A frieza com que ela lidou com o tema, o deixou de fato incomodado, talvez por ainda sentir resquícios do tal de amor por ela, por sinal, percorreu sua mente o fato dessa ter sido uma das poucas doenças milenares herdadas dos nossos ancestrais primitivos: o amor! Os sintomas ainda estavam bem presentes em seu organismo, aceleração dos batimentos, o peito pesado, respiração ofegante. Respondeu que esteve ocupado com as aulas, mas que iria compilar suas lembranças e enviaria os dados quanto antes fosse possível.

A voz robótica dela se foi, assim como sua imagem. Para ele é triste imaginar que ela pode estar nesse momento em qualquer sistema operacional satisfazendo as necessidade de alguém por aí. Mas absteve-se desses pensamentos e voltou para sua preparação curricular, sempre o animava a primeira aula do período letivo, a gana por conhecimento que os embriões surgiam era uma folha em branco para ser preenchida.

Como explicar para os alunos que seus pais históricos tinham o péssimo habito de se matar aos montes? Como explicar que era perfeitamente normal hábitos alimentares que aceleravam inversamente o período de vida? Eram todas questões que todos os anos eram levantadas e geravam calorosos debates sobre a veracidade dos escritos e provas históricas que baseavam o material lecionado. Para os alunos era extremamente impossível acreditar que haviam inúmeros hábitos de suicídio lento: drogas, cigarro, bebidas alcoólicas, comidas embutidas, açúcar, sal, fumaça de motores, petróleo, remédios, anabolizantes, televisão, micro-ondas, além disso, era impossível explicar o motivo pelo qual a limitação cognitiva dos humanos-primitivos os permitiu demorar tantos anos para perceberem os motivos da sua inevitável morte, os motivos pelos quais sua burrice os distanciava da eternidade. 

Em meio as suas análises, até para ele era estranho pensar nesses argumentos e pontos a serem explicados, o ser humano desde a sua criação havia passado por inúmeras civilizações e consequentes evoluções, mas o período chamado de Era do Depauperamento, foi sem dúvida o pior momento atravessado pela humanidade. Marcado por guerras, doenças, terrorismo, religião, poluição, televisão, indústrias, e principalmente mortes, quase culminou na extinção completa da espécie. Os principais historiadores dessa época, argumentam que foi o maior declínio atravessado pela raça, mas extremamente importante para que houvesse o pulo para evolução até que chegássemos no estágio em que estamos. 

Nessa altura de sua preparação para a aula, Norbiteu lembrou de um antigo texto histórico, que era tido como uma profecia da religião antiga chamada Cristianismo, principal crença dos humanos primitivos, lhe veio a ideia de inserir esse texto para explicar como os próprios humanos eram capazes de prever sua exterminação, mas nada fizeram para mudar seu futuro, lia-se desse relato histórico: Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos,Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons,Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te – 2 Timóteo Capitulo 3, Versículo 1 a 5.

Sinceramente, escrever sobre o futuro sempre foi um desafio bastante grande, talvez a vontade de mudar seu estilo bêbado para algo mais sério o fizesse criar narrativas bem pouco aceitáveis, sentiu que talvez não fosse o caminho correto a seguir, foi até o frigobar daquele hotel velho, abriu outra cerveja, ascendeu um cigarro Malboro vermelho, na volta para a cama diminuiu um pouco mais a temperatura do ar condicionado, tropeçou no tapete embolorado, bateu a ponta do dedo no pé no criado mudo, maldito quarto de hotel barato.

Atillas Felipe Pires
07\11\2017

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