quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Nirvana



Desceu daquele ônibus antigo em uma das paradas, foi andando com todos os outros passageiros em direção àquela lanchonete de beira de estrada, não estava com vontade de ir ao banheiro, sentou-se no balcão e ficou olhando para as propagandas de cigarro na parede ao fundo do bar.

Não tinha muitas pessoas na lanchonete, o dia estava frio e caía alguns flocos de neve lá fora, se aconchegou um pouco mais no seu agasalho, pediu um copo de café com leite quente, ficou ali sentado e bebendo sua bebida lentamente. Por algum motivo, naquele exato momento foi atingido por uma felicidade extrema, como se tudo o que viveu até aquele momento era exatamente o que deveria acontecer para leva-lo até ali, sentado naquela lanchonete de beira de estrada, tomando um café com leite enquanto lá fora a neve caía, no fundo, um rádio chiado e falhando tocando alguma coisa não entendível.

Sentiu-se feliz por estar ali, no teto girava um ventilador, a velocidade era cadenciada, a luz batia e produzia uma sombra no balcão que tremulava conforme os giros dele, ele colocou sua mão sobre o efeito da sombra indo e vindo, ficou olhando aquilo por um tempo, com um olhar pensativo mas sem pensar em nada. Voltou seu olhar para sua caneca de café com leite quente, tomou mais um gole, reparou que ao lado do letreiro de cigarro atrás do balcão havia uma propaganda de cerveja, leu as letras pequenas. Só por ler, nada demais.

Aquele ali era o seu lugar, sem motivo algum, sem um amor, sem bebidas alcoólicas, sem fantasias, apenas a simplicidade de estar ali, sentado, sem fazer nada, enquanto lá fora a neve continuava a cair. Por algum motivo inexplicável aquele lugar pareceu lhe acolher como nenhum outro o fez antes, aquele banco alto de pernas finas, aquele balcão de madeira viva, aquela energia antiga e boa, a caneca e o letreiro da propaganda, a balconista, a garçonete, o barulho do rádio, tudo parecia estar exatamente onde deveria estar, uma sincronização inexplicável que o tocou profundamente. Sentiu estar no lugar mais feliz do mundo, no seu lugar mais feliz do mundo, aquele sentimento foi inescrupulosamente inesperado, arrogante, chegou sem pedir licença, o tomou por completo sem o menor pudor. Ele nunca tinha sentido àquilo, tudo pareceu mais colorido, mesmo sendo cinza, o cheiro do mogno e o doce do café com leite, aquele era o melhor lugar do mundo, ali, naquele balcão, naquele banco, com aquele café com leite, olhando para àquele letreiro.  

Reparou que os demais passageiros começaram a levantar para voltar ao ônibus, lentamente a lanchonete foi voltando a ficar vazia, apenas o barulho de rádio falhando no fundo. Olhou mais uma vez para a sombra tremulante do ventilador de teto, tomou seu ultimo gole de café com leite quente, fechou seu agasalho até o início do pescoço, pegou sua mala de mão e caminhou lentamente até o ônibus.

Entrou, colocou sua mala de mão na parte de cima do assento, sentou e encostou a cabeça na janela de vidro do ônibus, olhou para aquela lanchonete, enquanto a neve caía, o motorista ligou o motor, e o ônibus começou a se movimentar em direção a estrada, a lanchonete foi ficando para trás, e ele foi acompanhando-a com o olhar até quando foi possível, até que ela sumiu, até que ela ficou no caminho da sua viagem.

Atillas Felipe Pires
01\11\2017

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