Desceu daquele ônibus antigo em uma das paradas, foi andando
com todos os outros passageiros em direção àquela lanchonete de beira de
estrada, não estava com vontade de ir ao banheiro, sentou-se no balcão e ficou
olhando para as propagandas de cigarro na parede ao fundo do bar.
Não tinha muitas pessoas na lanchonete, o dia estava frio e
caía alguns flocos de neve lá fora, se aconchegou um pouco mais no seu
agasalho, pediu um copo de café com leite quente, ficou ali sentado e bebendo
sua bebida lentamente. Por algum motivo, naquele exato momento foi atingido por
uma felicidade extrema, como se tudo o que viveu até aquele momento era
exatamente o que deveria acontecer para leva-lo até ali, sentado naquela
lanchonete de beira de estrada, tomando um café com leite enquanto lá fora a
neve caía, no fundo, um rádio chiado e falhando tocando alguma coisa não entendível.
Sentiu-se feliz por estar ali, no teto girava um ventilador,
a velocidade era cadenciada, a luz batia e produzia uma sombra no balcão que
tremulava conforme os giros dele, ele colocou sua mão sobre o efeito da sombra
indo e vindo, ficou olhando aquilo por um tempo, com um olhar pensativo mas sem
pensar em nada. Voltou seu olhar para sua caneca de café com leite quente,
tomou mais um gole, reparou que ao lado do letreiro de cigarro atrás do balcão
havia uma propaganda de cerveja, leu as letras pequenas. Só por ler, nada
demais.
Aquele ali era o seu lugar, sem motivo algum, sem um amor,
sem bebidas alcoólicas, sem fantasias, apenas a simplicidade de estar ali,
sentado, sem fazer nada, enquanto lá fora a neve continuava a cair. Por algum
motivo inexplicável aquele lugar pareceu lhe acolher como nenhum outro o fez
antes, aquele banco alto de pernas finas, aquele balcão de madeira viva, aquela
energia antiga e boa, a caneca e o letreiro da propaganda, a balconista, a
garçonete, o barulho do rádio, tudo parecia estar exatamente onde deveria
estar, uma sincronização inexplicável que o tocou profundamente. Sentiu estar
no lugar mais feliz do mundo, no seu lugar mais feliz do mundo, aquele
sentimento foi inescrupulosamente inesperado, arrogante, chegou sem pedir
licença, o tomou por completo sem o menor pudor. Ele nunca tinha sentido àquilo,
tudo pareceu mais colorido, mesmo sendo cinza, o cheiro do mogno e o doce do café
com leite, aquele era o melhor lugar do mundo, ali, naquele balcão, naquele
banco, com aquele café com leite, olhando para àquele letreiro.
Reparou que os demais passageiros começaram a levantar para
voltar ao ônibus, lentamente a lanchonete foi voltando a ficar vazia, apenas o
barulho de rádio falhando no fundo. Olhou mais uma vez para a sombra tremulante
do ventilador de teto, tomou seu ultimo gole de café com leite quente, fechou
seu agasalho até o início do pescoço, pegou sua mala de mão e caminhou
lentamente até o ônibus.
Entrou, colocou sua mala de mão na parte de cima do assento,
sentou e encostou a cabeça na janela de vidro do ônibus, olhou para aquela
lanchonete, enquanto a neve caía, o motorista ligou o motor, e o ônibus começou
a se movimentar em direção a estrada, a lanchonete foi ficando para trás, e ele
foi acompanhando-a com o olhar até quando foi possível, até que ela sumiu, até
que ela ficou no caminho da sua viagem.
Atillas Felipe Pires
01\11\2017
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