quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Morte



O som ligado ainda rugia alto naquele carro capotado, o óleo estava vazando e fazendo uma goteira lenta de cima pra  baixo, as rodas dianteiras ainda estavam girando só que bem devagar apenas pelo impulso, uma fumaça branca emitia um barulho de vazão enquanto preenchia o ar com um cheiro de água quente misturada com gasolina. Lá dentro as gargalhadas presentes minutos antes se tornaram em um silêncio sepulcral, os corpos adormecidos no sono eterno repousavam imóveis e serenos.

O beijo da morte pode lhe tocar das maneiras mais imprevisíveis possíveis, pode ser no tilintar suave dos talheres de uma comida envenenada, pode ser num tombo bêbado bobo com a cabeça no meio fio, no concreto que se desprende do viaduto, uma bala que não encontrou seu alvo, ou quem sabe, o desvio abrupto de um cachorro em uma via pública banhada pela escuridão da noite.

Os corpos serão encontrados numa mesa fria para reconhecimento da família, os pais chegarão provavelmente já em prantos, mas com uma falsa esperança de que talvez por uma bondade do destino ou dos astros, a noticia seja falsa, desejando que aquele filho estendido seja de outra pessoa, o altruísmo humano se esvai completamente frente ao desespero, por Deus que seja o filho de outro. A sala provavelmente estará muito gelada, assim como a frieza daqueles que manipulam o lugar, a indiferença de quem trabalha com a morte é deprimente mas necessária e profissional. O primeiro ato do espetáculo de horror, é a retirada do pano branco, a certeza que teimava em não chegar agora se concretiza, os arranhões e os roxos nos olhos, a face um pouco inchada. A verdade nua e crua, o cheiro de morte e lagrima preenche o ambiente.

As primeiras horas são de descrença, o sentimento que prevalece é o de que em algum momento alguém chegará e dirá que tudo é uma tremenda mentira, que seu filho entrará naquela sala de espera andando e dizendo que esta tudo bem. As horas seguintes começam a aflorar outros sentimentos, o que será daqui pra frente, e os amigos, o quarto, o carro, a bicicleta, os tênis, as lembranças, ainda há lá no fundo a descrença, ou quem sabe, a inconsciente vontade de não acreditar no que esta de fato acontecendo.

No fundo presa por um suporte no canto superior da sala há uma televisão de poucas polegadas, esta passando um jornal de primeira hora da manhã, tenta-se prender a atenção em algo diferente, respira fundo, finge que esta tudo bem, inútil, a noticia começa nítida e termina sem a menor importância. O lugar ainda esta gelado, lá fora os carros começam a movimentar o dia, o mundo continua a girar como se nada tivesse acontecendo, ninguém se importa com todos aqueles veículos estacionados no necrotério publico, todas as histórias e sentimentos tristes presentes em cada um dos donos daqueles carros.
As engrenagens precisam continuar a girar, mas para aquelas pessoas, é brutalmente doloroso ver como o mundo continua exatamente o mesmo depois da morte, lá fora todos os carros estão andando, os rádios ligados ouvindo musicas matinais, a vida continua em todos os seus aspectos, mas não ali, ali não há mais vida, e as quais existem é como se não existissem.

Um funcionário entra na sala, chama o responsável pelo corpo, pede que o sigam até uma sala, onde serão preenchidos todos os papéis referentes ao enterro, dolorosamente todos os dados devem ser passados, o registro público da morte, a burocracia mórbida. Terminado esse processo é hora de escolher o caixão, o plano funerário oferece mogno, mas existe a possibilidade de comprar araucária!

Obrigado senhor, pela dor!

Atillas Felipe Pires
08\02\2018

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