O som ligado ainda rugia alto
naquele carro capotado, o óleo estava vazando e fazendo uma goteira lenta de
cima pra baixo, as rodas dianteiras ainda estavam girando só que bem
devagar apenas pelo impulso, uma fumaça branca emitia um barulho de vazão enquanto
preenchia o ar com um cheiro de água quente misturada com gasolina. Lá dentro
as gargalhadas presentes minutos antes se tornaram em um silêncio sepulcral, os
corpos adormecidos no sono eterno repousavam imóveis e serenos.
O beijo da morte pode lhe tocar
das maneiras mais imprevisíveis possíveis, pode ser no tilintar suave dos
talheres de uma comida envenenada, pode ser num tombo bêbado bobo com a cabeça
no meio fio, no concreto que se desprende do viaduto, uma bala que não encontrou
seu alvo, ou quem sabe, o desvio abrupto de um cachorro em uma via pública
banhada pela escuridão da noite.
Os corpos serão encontrados numa
mesa fria para reconhecimento da família, os pais chegarão provavelmente já em
prantos, mas com uma falsa esperança de que talvez por uma bondade do destino
ou dos astros, a noticia seja falsa, desejando que aquele filho estendido seja
de outra pessoa, o altruísmo humano se esvai completamente frente ao desespero,
por Deus que seja o filho de outro. A sala provavelmente estará muito gelada,
assim como a frieza daqueles que manipulam o lugar, a indiferença de quem
trabalha com a morte é deprimente mas necessária e profissional. O primeiro ato
do espetáculo de horror, é a retirada do pano branco, a certeza que teimava em
não chegar agora se concretiza, os arranhões e os roxos nos olhos, a face um
pouco inchada. A verdade nua e crua, o cheiro de morte e lagrima preenche o
ambiente.
As primeiras horas são de
descrença, o sentimento que prevalece é o de que em algum momento alguém
chegará e dirá que tudo é uma tremenda mentira, que seu filho entrará naquela
sala de espera andando e dizendo que esta tudo bem. As horas seguintes começam
a aflorar outros sentimentos, o que será daqui pra frente, e os amigos, o quarto,
o carro, a bicicleta, os tênis, as lembranças, ainda há lá no fundo a
descrença, ou quem sabe, a inconsciente vontade de não acreditar no que esta de
fato acontecendo.
No fundo presa por um suporte no
canto superior da sala há uma televisão de poucas polegadas, esta passando um
jornal de primeira hora da manhã, tenta-se prender a atenção em algo diferente,
respira fundo, finge que esta tudo bem, inútil, a noticia começa nítida e
termina sem a menor importância. O lugar ainda esta gelado, lá fora os carros
começam a movimentar o dia, o mundo continua a girar como se nada tivesse
acontecendo, ninguém se importa com todos aqueles veículos estacionados no
necrotério publico, todas as histórias e sentimentos tristes presentes em cada
um dos donos daqueles carros.
As
engrenagens precisam continuar a girar, mas para aquelas pessoas, é brutalmente
doloroso ver como o mundo continua exatamente o mesmo depois da morte, lá fora
todos os carros estão andando, os rádios ligados ouvindo musicas matinais, a
vida continua em todos os seus aspectos, mas não ali, ali não há mais vida, e
as quais existem é como se não existissem.
Um
funcionário entra na sala, chama o responsável pelo corpo, pede que o sigam até
uma sala, onde serão preenchidos todos os papéis referentes ao enterro,
dolorosamente todos os dados devem ser passados, o registro público da morte, a
burocracia mórbida. Terminado esse processo é hora de escolher o caixão, o
plano funerário oferece mogno, mas existe a possibilidade de comprar araucária!
Obrigado
senhor, pela dor!
Atillas
Felipe Pires
08\02\2018
08\02\2018
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