terça-feira, 17 de março de 2015

Uma overdose noturna (entre horas)

02:41

"Perambulei caminhos no escuro
Bebi barbiticurus até enlouquecer
Beijei o cosmo, fui até o absurdo"
E se for pra rodar o meu mundo
Que seja feito um cego mudo

Pensei em mudar a direção
Criar, reinventar, reaver as análises
Deixar vencer meu coração
E quem sabe onde vai me levar
Uma nova vida
Uma nova melodia
Nas maus traçadas linhas de uma antiga canção

Quem iria dizer
Que numa noite quente de março
Na derradeira noite do prazer
Eu iria parar para dizer:
Isso é viver

Atillas Felipe Pires
18/03/2015

02:39

Quando você nasce e cresce sem perceber
Alguém vem e sempre te diz o que fazer
Em casa todos te guiam até o momento que julgam certo
Até o momento que estiver nas ruas ladrilhadas sem ninguém por perto
E por aí você vai, pelo pai, mãe, avô, vó, padre e professor
Todos te dizendo o que é bom ou não pra comer
Seja para o corpo ou para alma
E quando já é homem feito
Irão te dizer
Meu filho é hora de casar
Ter casa
Tem alguém para ficar até o fim dos dias
Uma só alma para amar
A chatice da mesmisse
Tudo sempre igual
Arroz, feijão, mingal
Logo eu, um cara tão vandal

Atillas Felipe Pires
18/03/2015 

02:37



Naquele dia ele acordou anormalmente fora do seu horário, era apenas 9h da manhã e seus olhos se abriram sem motivo, talvez as crianças na rua, quem sabe o sinal do colégio na esquina de baixo daquele hotel velho, acordou e ficou olhando para o teto por um tempo, levantou lentamente e esbarrou numa garrafa vazia de éter – aquilo ainda o mataria um dia.

Ele imaginou que estava sozinho como sempre estava, mas naquela manhã surpreendeu-se ao ver aquela forma feminina deitada ao seu lado – normalmente elas acordam cedo e somem para não ter o desprazer de vê-lo sóbrio. A primeira coisa que lhe veio a cabeça foi descer para o bar e ficar vendo pelo canto do elevador ela passar para ir embora, mas lembrou-se que o bar do hotel só abria após ao 12h – sem sentido, mas nunca lhe foi problema. Resolveu que não faria nada, levantou-se e foi para a varanda, seu local preferido de todos os hotéis.

Aquela semana estava numa região especialmente fria, pensou que uma dose de vodka pudesse lhe cair bem, foi até a geladeira e ficou feliz em ver uma garrafa com um ou dois dedos, não sujou um copo para isso é claro.

Tentou inutilmente lembrar-se quem era aquela garota e por qual nome lhe chamaria quando acordasse, foi em vão, tomou sua dose,  e olhou para o telhado das casas da rua a frente, ficou imaginando todas aquelas pessoas levando suas vidas idiotas, indo comprar pão, respeitando a fila para o caixa, fazendo pose de pessoa boa, dando bom dia e agradecendo a Deus pelo dia e pela vida, uma porra de uma peça de teatro infinita, todos fazendo seus personagens socialmente aceitáveis, enquanto eram animais carniceiros sedentos por sexo e masturbação, o bom dia para a caixa da padaria escondia uma imaginação dela sem roupas, a espera da fila imaginando a esposa do vizinho virando-se e oferecendo uma boquete. Personagens! Uma peça.

O mundo ao seus olhos é uma tremenda putaria, homens vão ao trabalho para ganhar dinheiro, comprar carros e roupas para seduzir mulheres – não só a sua é claro – a natureza humana sempre foi exposta aos seus olhos sem véu e sem cores beges, o socialmente aceitável, a fé inabalável, características de um roteiro desumano, enquanto na verdade todos querem transar.

Ela ficou ali, olhando aquele escritor falido falando aquele amontoado de coisas sem sentido, estava muito bêbada para reagir àquelas bobagens, passou algumas cenas na sua cabeça sobre aquela conversa, alguma coisa sobre a vida ser um teatro e as pessoas serem todas viciadas em sexo, uma loucura sem sentido, ainda não tinha entendido o que fazia naquele quarto de hotel desde as 13h da tarde, já era quase 20h30. Vou embora!

Cara, estou indo nessa, ele escutou em seus pensamentos, voltou dos viciados em sexo e olhou para aquela menina, ela havia acordado, não respondeu, apenas acenou com a cabeça positivamente. Já era quase 21h, o bar deveria estar aberto.

Atillas Felipe Pires
18/03/2015

02:12



Estamos todos no controle
Mesmo sendo evidente toda essa falta de controle
O controle da televisão sempre no braço esquerdo do sofá
Todo o controle do mundo ao alcance da sua mão
Alcance
Estamos todos no controle
Mesmo quando o mundo parece girar descompassado em sua mente
 As vezes o controle é seu
Basta o click certo e o mundo parece bem mais legal
Alcance logo ali
É simples, escolha o decimal, troque o canal

Pra onde foi, toda a mecânica analógica cerebral?
Todo esforço emocional
Transferido superficialmente para a força eletrônica
Do avanço do retrocesso
Estamos todos no controle
Eu, você, o Papa o Presidente e todo o resto
Estamos no controle da falta de controle
Estamos felizes com a plana de 50
Enquanto as páginas ficam cada dia mais amarelas
Toque-as
Esqueça as notas certas
Acerte bem na do meio enquanto as doses estão postas
Não acredite nos ancoras sentinelas
Nos religiosos apóstatas

Estamos todos no controle
Encontre sua forma e perca o controle
A liberdade não tem roteiro, não tem diretores, não tem horário
A liberdade não tem opção preto-e-branco ou a cores
A liberdade esta onde se quer estar
Aperte o botão vermelho no centro ou na direita superior
Vamos todos desligar
Assuma o seu controle
Tire as pilhas do controle
Estamos no controle
Sente a brisa te acertar
Afaste-se da rotina programada
Perca o controle perca o programa

Atillas Felipe Pires
18/03/2015

01:54



Eu sou da noite
Mesmo quando a noite já não cabe mais em mim
Na madrugada todos os gatos são pardos
A arte que emana pelo ar do meu ar
Que poluí meu oxigênio com a arte que me cerca
Cansei dos meus fardos
Eu sou da noite
E na minha noite não há espaço para mais nada além de mim

Mais um trago nessa dose barata
Mais uma troca sem sentido das cores do meu céu
E em momento assim o que importa é minha nova playlist
A decisão que me rodeia em qual lado da cama dormir
Não me vem a mente
Enquanto houver melodias noturnas que manobram meus pensamentos
Eu sou da noite
Vê se me entende
Me pregue na parede do seu coração e guarde esquecido
Enquanto a lua reflete a janela do meu quarto
Ao som de Alan Jackson
Eu sou meu próprio motivo para estar aqui
Alimentando meu já saliente egocentrismo
Até aí nada novo de novo

Eu vou frequentar o baixo
Eu frequento o alto
Meu altar é meu lar
Minha sala meu mundo
Minhas letras minha vida
Transbordando entre voluptuosas palavras e incógnitas frases
De todas as minhas fases
Estou na pior
Mas seguindo o ritmo da vida
Vamos enfrente
Enquanto há do outro lado da linha alguém
Que mesmo sem perceber vai sempre além
Além da linha que nunca deveria cruzar
A espada que termina sempre fincada no mesmo lugar
Eu sou da noite
E assim vai sempre ser enquanto for
Eu sou da noite
Eu não sei mais amar

Atillas Felipe Pires
18/03/2018

domingo, 11 de janeiro de 2015

O retorno dos meus fones



Experimentei o retorno dos meus fones de ouvido
Depois de um tempo que os tinha perdido
Resolvi desempoeirar minhas antigas melodias esquecidas
No fundo da gaveta trancada com as chaves da minha rotina
Mirei para o lado esquerdo a minha retina
Minhas botas desamarradas graças a Deus ainda estão velhas
E o couro desbotado
Hoje experimentei meu outro lado
Aquele que ainda não foi furtado

Então levante-se menina e vem pra rua
O sol esta quente mais nossos pais nos deixam sair depois das 16h
Ficar sem fazer nada, andar sem pretensão
Apenas pelo prazer da ação de não ter obrigação
E nossos dias não podem mais ser contados
As horas não valem nada quando não se faz nada
E o valor nunca mais estará no tempo apontado na planilha de controle
Estou no controle
Então venha comigo menina
Levanta e vem pra rua
Essa liberdade é minha
Assim como minhas calças rasgadas
Mas também é sua
Assim como meus desenhos na calçada
Hoje eu amarrei uma nova pulseira velha
Daquelas que não tiro
E me veio esse estalo como um tiro
Por isso não me retiro
Não vou sair nem ficar
Hoje experimentei o retorno dos meus fones de ouvido

O que mais terás a me dizer
Nesse conto sem ponto
Nessa costura sem linha
Desse meu eu que nunca esta na linha, nem deveria
Sentei no sol com meu novo chapéu estilo blues
Rasguei minhas mangas mais uma vez
Na melhor posição de todas, como sempre me pus
Minha liberdade esta na minha santidade
No meu caderno de “ não quero mais”
Que não carrega mágoas nem insanidades
Apenas as necessárias
Eu não sou daqui, da humildade retirei minhas sandálias
Meu amor sempre será só meu e de mais ninguém
Aquele que me apetece quando olho no espelho
É quem cuido é quem me espelho
Minhas botas continuam velhas
Minhas camisetas rasgadas
E meus fones nunca me falaram tantas soluções
Estou de volta a melhor forma
Estou em forma

Atillas Felipe Pires
01/01/2015