quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Ele
Ele levantou, olhou em volta, viu suas meias jogadas no tapete da sala, e uma garrafa vazia rolando na parte do piso frio. Ele não quis continuar levantando, se jogou para trás e ficou olhando para o teto, parecia uma tarefa extremamente difícil, mas já estava incomodado com àquela situação, finalmente levantou, não podia continuar daquele jeito. Foi até a janela e fechou aquela miserável fresta que deixava um fio fino de sol atingir-lhe bem o rosto em cheio, que maldita situação que o incomodava, o fez, voltou para a cama e se deitou novamente, resolveu o problema, e dormiu novamente, sentindo o cheiro do seu próprio hálito bêbado.
Já passará das 15h daquele mesmo dia, ele abriu novamente os olhos, o corpo estava dolorido, e sua dor de cabeça matinal o lembrava da noite anterior. Seu dia começava sempre entre as 15h e as 16h, nunca antes, as vezes depois, abriu uma garrafa de cerveja, estava um pouco quente, mas era apenas para matar o tempo enquanto procurava alguma coisa para comer. Andou até a cozinha, olhou em volta, pensou em como as coisas parecem bem mais interessantes durante a noite, pensou que o dia era para o tipo de pessoas que vivem em busca de dinheiro para viver a vida a noite, ele nunca gostou do dia, nunca se adaptou ao dia, a luz o incomodava. A visão da sua cozinha o fez perder a fome, abriu outra cerveja e voltou para o sofá, sentou encima do seu maço de cigarro, ficou feliz em ver que ainda tinha dois, ascendeu um, deu um trago fundo. Bebeu e fumou, os únicos prazeres que se alcança durante a estadia do sol ao seu mundo.
A vida estava passando rápido demais, desde seu último grande sucesso de vendas, já havia passado quase dois anos, e o dinheiro estava acabando. No ritmo que estava indo suas finanças acabariam em nove, talvez dez meses, pensou que talvez fosse a hora de começar a escrever novamente. Ascendeu o segundo cigarro, ficou puto em lembrar que era o último, a ideia de ter que sair de casa para comprar mais o tirava um pouco do humor, que sempre era ruim. Levantou e quase caiu, havia se tornado comum essas tonturas depois de um ou dois cigarros, alguma coisa estava fora do normal, depois de tantos anos fumando seguidos cigarros em seguidos dias, seu corpo já não era o mesmo.
Vestiu seu roupão xadrez e uma pantufa que achou por perto, desceu até o bar do hotel que vivia, comprou dois maços de cigarro, e mais três fardos de haineeken quente que era mais barata, e duas separadas geladas para ir bebendo até que os fardos gelassem, escutou a musica do elevador, olhando para o espelho e contemplando sua face que um dia forá motivo de amores diversos, hoje apenas o lembrava que não escovou os dentes e já era quase 18h da tarde.
A noite estava chegando, quase 19h, e ele estava se animando. A noite torna as cores mais vivas, o brilho dos letreiros são mais interessantes que pássaros cantando, os bêbados no auge da loucura do dia deixa tudo mais vibrante e a vida se torna como que num mundo paralelo, como se a noite fosse a parte boa do dia. Ele abriu a janela do 16o andar, olhou para o mais longe que conseguiu, abriu um dos maços de cigarro ascendeu mais um e deixou a fumaça ir quase que sem tragar, apenas pelo prazer de imaginar as imagens que se formam no alucinante movimento daquela névoa branca, cavalos cavalgando em sua volta. Ficou feliz por um momento em estar ali sozinho contemplando o céu e a fumaça indo fazia seus poucos problemas desaparecerem.
Deixou a janela aberta e voltou para a geladeira, abriu outra cerveja, agora já geladas, olhou para a cozinha e gostou do ambiente, o jornal do dia anterior aberto na mezinha de jantar, a taça de vinho com o fundo ainda vermelho da sua ultima refeição acompanhado ainda no mesmo lugar, os lembretes que foram esquecidos presos na porta do armário, e todas as coisas inúteis daquele sagrado e inutilizado local. Gostou da sua vida, gostou de ser um desajustado noturno!
Voltou para a janela e o céu continuava lá, ficou pensando no possível personagem de seu próximo livro, tomou mais um gole, jogou o cigarro fora, ascendeu outro e deu, como de praxe, um trago forte, olhou a fumaça e pensou mais uma vez nos cavalos que a forma como ela se vai formam em sua volta, ele realmente se sentia bem com àquilo, pensou que talvez pudesse falar de cavalos de fumaça. Realmente aquilo lhe pareceu uma ótima ideia, cavalos de fumaça parecei um bom título, poderia quem sabe se desprender das histórias da vida real e escrever sobre o mundo da fumaça que sai da ponta do cigarro de um fumante solitário. Deu mais um trago, bebeu mais um gole, pensou em que poderia escrever, qual poderia ser o personagem do seu próximo livro, soltou mais uma vez fumaça, viu seus cavalos, pensou que talvez pudesse falar da vida de um pai de família que perdia o dinheiro da família apostando em cavalos. Ele se esqueceu da primeira ideia depois da quinta garrafa, talvez não lembrasse mais nem da segunda, nunca mais teria a mesma ideia. Fumou e olhou para a noite!
Voltou o olhar para dentro do seu apartamento, incrível como esses hotéis de luxo te fazem sentir em casa, o sofá estava ainda desarrumado, assim como sua cara, voltou para a cozinha para pegar outra cerveja, a quinta ou sexta ou terceira, quem vai saber, parou na entrada da porta, que visão incrível, tudo estava bem mais interessante, pensou que poderia escrever um livro sobre sua cozinha, um livro sobre um cara que vivia numa cozinha, que tinha seu colchão embaixo da pia e que a goteira que o incomodava era por causa da louça que ele nunca lavava, deu risada sozinho, mas continuou mirabolante naquela loucura, imagina só, um cara que vive numa cozinha, seria ótimo, geladeira com cerveja, armário com uísque, e seu colchão velho embaixo da pia, puta que pariu que viagem. Pegou outra cerveja e voltou para a janela.
Até hoje ele não entende por que resolveu sair de casa naquela noite, seus pensamentos eram o bastante para o entreter até o amanhecer, mas naquele dia resolveu sair atoa. Foi até o suas caixas de papelão e procurou alguma roupa aceitável, foi por exclusão e pegou a qual estava menos amarrotada, uma camisa de botões com as mangas largas e uma calça jeans levis com a borda rasgada. Pegou outra cerveja na geladeira e passou pelo cara que dormia embaixo da pia, riu sozinho novamente, ascendeu outro cigarro..disse tchau aos cavalos e ao pai de família viciado e entrou no elevador. Sua face no espelho estava amável.
Apesar da época fria a noite estava boa, o vento batia mais batia leve, ou talvez a sensibilidade da sua pele já não era a mesma. Eis aí a resposta para a sobrevivência dos moradores de rua, ele pensou, riu novamente, seu humor era sempre bom. Andou na avenida do hotel, tinha alguns bares no caminho, escolheu o letreiro mais interessante, gostou de um que dizia "Seu lugar não é aqui". Entrou!
Foi direto em direção ao balcão, sentou e pediu um uísque com água, ascendeu um cigarro, o garçom veio e lhe disse que não era permitido fumar lá dentro, realmente fazia tempo que ele não saia de casa. Apagou o cigarro na língua olhando fundo nos olhos do garçom com a expressão mais demoníaca possível e respondeu lentamente, OK! Pegou seu uísque e tomou todo de uma vez só, pediu outro, agora sem água, aprovou a qualidade da madeira, ficou por um tempo bebendo e olhando para seu uísque, analisando o movimento maluco daquele liquido marrom enquanto o balança, o reflexo nas laterais do copo parecia uma história a ser contada, tipo, um bando de sereias bêbadas loucas para fazer sexo com você, imaginou um monte de sereias bêbadas cantando desafinadas, sorriu sozinho, pensou que talvez pudesse escrever sobre aquilo, sereias bêbadas era um bom título.
HEY! Aquela voz fina o tirou da sua viagem das sereias!
Aí já era demais pra ele, contato social feminino? Resolveu voltar para seu quarto de hotel.
Abriu a geladeira da sua cozinha interessante com taça de vinho amanhecida, leu a noticia de três dias atrás, falou para o cara que dorme embaixo da pia de como o mundo é uma merda, abriu outra cerveja, ascendeu outro cigarro falou com os cavalos aconselhou o viciado em corridas, abriu a janela e olhou para o mais longe possível, começou a ver os primeiros raios do sol, fechou a janela, dessa vez amarrou bem a cortina, e foi dormir, esperando acordar com hálito bêbado lá pelas 15h ou 16h.
Atillas Felipe Pires
14/08/2014
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
30%
Me movi em passos lentos
Meio com o senso de humor embolorado
No meio fio do banheiro cambaleante
Como ando enquanto estou embriagado
Mas a profundidade que alcança meu pensamento fica podre meus órgãos
Minha beleza ainda me mantém vivo
Esconde meu solitário sofrimento
No fundo dos meus olhos você é o único brilho fraco que eu encontro
E as sombras dos meus cílios te ofuscam
Quase sem querer mudam as cores da minha alma que te buscam
Mudam a direção do meu viver
Ou mal viver
E demoro no chuveiro
Porque não quero o começo do meu dia
Minha rotina engomada
Sempre erro o nó da gravata
Me peguei pensando em todos os meus envolvimentos
Perguntas do tipo: para onde vai meus relacionamentos
Sem resposta pronta, apenas mais um dia quem diria
O caso lembrado, o cara bem falado
Superfícies de flores plantadas em terra de moribundo
Não é exagero
No autodespreso mergulho fundo
Hoje acordei 30%
Welcome to my life
Fuja do meu mundo
06/08/2014
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Cúmulo da Saudade
Quase todos me esqueceram
Eu sei que é uma história sem fim
Ainda mais pra mim
Mano da rua que aprendeu morrer por ela
Se eu pudesse voltar no tempo
Não tinha pego àquela arma
Não tinha a imagem de sangue escorrendo na viela
Não faria uma família ascender mensalmente uma vela
Mas eu me perdi, não sei por onde
Quando penso nos motivos não encontro a solução
E de carros em carros, carreiras em carreiras
A vida me levou pra onde eu nunca imaginei
Eu me deixei seguir e ser seduzido pelo brilho dourado da corrente
Esquecendo tudo que aprendi
Deixando de lado tudo que sonhei
Hoje estou aqui e meu sol não é redondo
A imagem do outro mundo me parece o paraíso
Onde a vida é ditada pela sirene que serve de relógio
Eu não nasci pra isso
O tempo é rei, meu pai já me dizia
Meu filho seja forte
Esconda a faca e feche o corte
E quando a noite chega e os gritos do pátio interno me assustam
Eu debruço em sofrimento
E meu soluço acorda mais de um detento
E de cigarro em cigarro lembranças meus olhos embaça
A liberdade dignidade são conquistadas na marra
E a saudade invade na velocidade do tempo que passa
E ai pode crer um dia vou estar com vocês
Nessa carta vão sentimentos e lágrimas
Saudade do tempo que passou e que não volta mais
Quando das noites e altas madrugadas
Me lembro dos carros e das cervejas gelada
É nessa hora que a saudade me mata
A preocupação daqui é outra parada
Quem sabe um dia eu ainda possa estar com vocês
O futebol de domingo e aos altas risadas
Das minas que ficaram no tempo
De repente meus dias se tornam negros
E é só sofrimento
Quem sabe um dia eu ainda possa estar com vocês
E de cigarro em cigarro lembranças meus olhos embaça
A liberdade dignidade são conquistadas na marra
E a saudade invade na velocidade do tempo que passa
E ai pode crer um dia vou estar com vocês
Peço desculpas pela caneta falhada
Pela borda da folha que não foi tirada
Mas por aqui eu não encontro outro meio de dizer o que sinto minha rapaziada
Mas uma hora que passa, uma hora a mais de vida
Aqui o relógio conta três em um
Eu sonho um dia em poder dizer que o tempo esta passando depressa
Do inicio ao fim da festa quando as horas voavam
Por aqui o dia dura mais de um mês
E a saudade aperta
Quem sabe um dia eu ainda possa estar com vocês
Não quero me estender, espero que estejam todos bem
Quero que lembrem que a vida é curta e que as decisões importantes
Melhor o calor da lareira da sala que o frio do beco cortante
E que todos alcancem a mais profunda paz
No frio gélido da noite que não acaba
Deixo meus sentimentos aos que se foram
Minhas letra vai ficando ruim
Aqui as 20:h a luz se apaga.
Atillas Felipe Pires
30/07/2014
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Oração
Por que em algum lugar escondido na rotina
Em algum canto que foge do esquadro da minha retina
O meu melhor lado eu sei que vou encontrar
Minha parte mais reluzente
Que não só na mostra dos dentes
Mas também por dentro
Eu esteja verdadeiramente
Verdadeiramente contente
E que meu pesar seja pela dor do cansaço pelo excesso de vida
Meu amor nas pessoas que me cativaram no decorrer do envelhecimento
Que eu alcance a perfeição e a contradição juntas no mesmo lugar
E da minha arte expire meu próprio reconhecimento
Que minha riqueza seja de amizades
E minha crise de saudades
Peço que minhas lágrimas venham da formatura
Da formatura de uma filha
E meu cansaço do futebol de domingo
Ou de aprender de cor a cartilha
Do ensino fundamental novamente
Para criar em minha vida
Eu mesmo no meu descendente
Que eu encontre o meu lugar
E que no final da minha vida
Eu esteja deitado no campo
Como que eu um altar
Olhando para o céu feliz por tudo que fiz
E que meus arrependimentos sejam pelo o que não fiz
Que meus erros tenham formado meus anticorpos
E que dessa para a outra vida eu parta
Eu parta feliz
Feliz
Que assim seja
Enquanto for
Que seu olhar divino me encontre, vém
A Deus e a todos os santos
Amém!
Atillas Felipe Pires
28/07/2014
SELE
Ela já esqueceu por quem se apaixonou
Ele deixou de usar estiletes para tirar mangas e fazer coletes
Ela já não recebe desenhos de caveiras e vespas
Ele deixou de correr atrás do vento sem sentido
Ela percebe que a cada dia sua vida e ideologia esta diminuindo
Ele esqueceu da tatuagem que planejou fazer
Ela já não encontra prazer em sentar na laje a noite para beber
Ele já não conta histórias indigenas sobre as estrelas
Ela já não lembra mais dos poemas ciganos que se viciou em ler
Ele já deixou de lado sua tinta óleo e suas telas
Ela sente falta da paisagem colorida nas paredes
Ele parou de fumar
Ela parou de tragar
Ele não se embriaga e causa brigas
Ela sente falta do antigo idiota
Ele despregou o apanhador de sonhos da porta
Ela passou a ter pesadelos
Ele já não sente arrepio ao toque em seus pelos
Ela encontra na cômoda todas as pulseiras de linha e couro
Ele comprou um relógio de ouro
Ela não vai mais aos sábados a feira
Ele só vive de segunda a sexta-feira
Ela espana a poeira dos cds de rock´n roll
Ele perde tempo na tv vendo talk show
Ela procura no espelho o reflexo das calças rasgadas
Ele pegou apreço por baladas
Ela achou que seu estilo hippie rap hard core beat era eterno
Ele se rendeu ao trabalho e como Pedro usa sempre o mesmo terno
Ela achou que o pensamento under e as palavras rápidas eram de verdade
Ele deixou de ler Bukowiski abandonou na estrada Jack Kerouak
Ela tem na gaveta On The Road e Misto Quente
Ele esqueceu dos seus livros favoritos
Ela sonha com o dia que ele vai perguntar dos seus livros já lidos
Ele chegou ao pior ponto da vida
Ela sabe que o perdeu
Ele não sabe onde se perdeu
Ela tenta resgatá-lo
Ele já a esqueceu
Ela nunca deixou de amar seu plebeu
Ele dormiu sem dizer boa noite
Ela sonhou com aquele que um dia foi seu
Ele sonhou com seu passado que não é mais seu
Ela dormiu sem vontade de acordar
Ele dormiu sem vontade de acordar
Eles tiveram esse único momento em comum
Eles são um casal comum
Atilllas Felipe Pires
28/07/2014
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Corvo
As vezes sinto o peso sombrio em meus ombros
Desse corvo invisível que insiste em me acompanhar
Que de todas as coisas boas faz força e medita alto
Só afim de me privar
Meu próprio eu em dualismo
Meu suicídio emocional
Minha parte irracional
O cara que não pensa, banhado e bem cortido
Perdido no alcoolismo
Só mais um pedido
Por favor, pare com isso
Que esse corvo voe
Que eu construa meu altruísmo
Me cansei das ruas que frequentei
Dos lugares que meu coração partido me convida a visitar
Hoje sou alguém sem sentido
Sem fé, sem calor
Sem amor
Sem ninguém para amar
Eu ainda sou um garoto
Que cresceu mas esqueceu de amadurecer as veias fortes do coração
E lá se foi mais um pouco do meu mel
Meu último suspiro
Minha libertação
Meu ritmo de me sacrificar
No meu próprio altar
E do alto desse muro eu vejo minha vida passar
Enquanto esse corvo invisível é quem me faz companhia
Vem de longe, me aterrorizar
Atillas Felipe Pires