quarta-feira, 25 de maio de 2016

Frases de traseira de caminhão

Talvez não me valha a loucura falar de poesia. Na verdade, pouco sei dessa paradoxal questão, as vezes me considero um poeta em outras apenas alguém que transpoema minha falta de lagrimas em palavras geometricamente equilibradas numa corda bamba que curiosamente se mantém estática mesmo em meio a mais de uma tempestade que já encarei. Sou na verdade um louco que não vive a própria loucura, alguém que desenha a própria insanidade que gostaria de ter,quando me encontro com "excesso de lucidez, lou"curo-me". 

Por vezes, vezes mais, vezes menos, me transporto de mim mesmo, assumo um estado de espirito que não me pertence, afinal de contas, nada nos pertence abaixo do céu, somos meros personagem que vive num eterno exercício de variações emocionais, uma espécie cruel de montanha-russa sentimental, o qual, graciosamente, nos faz provar dos mais variados e excêntricos sabores dessa louca viagem que se chama vida. Estamos eternamente em uma viagem de trem com as janelas abertas, o que entrará com o vento e socará nosso já surrado rosto, na próxima curva, é adocicadamente imprevisível e bom ou dolorosamente cortante e assassino, tudo dependerá da sorte que o destino lhe reserva.

Sei transitar muito bem nessa vida, provando em cada nova esquina um novo sabor, sei da minha natureza original que é essencialmente suburbana, mas adoro meu timbre teatral, que me transforma num carismático camaleão social, odiavelmente amável e sempre sentimentalmente indisponível. Este sou eu sendo eu mesmo, uma das raras aparições nesse ambiente, uma das raras confissões que fiz nessa tranquila vida turbulenta, assumindo minha real forma geminiana, por fim, sobre tudo isso, não concordo e nem discordo, muito pelo contrário.

Acredito que eu tenha um especial talento em confundir o que esta em órbita a mim, criando um mundo e devaneios que nem mesmo eu entendo, no fim, acho que minha droga preferida é a segurança de causar insegurança, e não ser um solo sólido a ninguém, me faço de lago em movimento, um eterno mar em ressaca - condição que graças aos Deuses e a todos os Orixás, experimento com regularidade - eu passo abraçando e sendo doce com as pedras que permeiam minha margem, mas deixo claro que sou correnteza que se esvai e no meu ritmo não tem marcha ré, eu almejo banhar de amor as pedras que estão a minha frente, pelo simples fato que pelo curso natural das coisas, logo ficarão também para trás. Outra rara confissão!

Ok, vamos lá, em uma outra noite dessa adentrei um rabugento e enfadonho ambiente noturno, naquelas bandas conhecido como bar, na minha cabeça, uma espécie de catedral sagrada, entrei como se fosse um veterano frequentador, sentei a beira do balcão, como fazem os cowboys, pedi minha já manjada bebida, uísque sem gelo, uma dose dupla, por favor, tomei num trago longo e cortante, aquela noite abandonei minha poltrona de couro e meu livro de 1926 para forçosamente voltar a respirar o fedor noturno de urina dos banheiros sujos desse tipo de lugar. Lembro que naquela feliz ocasião a vitrola de fundo gritava aos berros alguma coisa que me pareceu, Miles Davis com seu marcante Kind of blue, o cenário ideal para uma noite surreal. 

Não contente com as três iniciais doses duplas, pensei que talvez seria interessante cravar em minha introdução do livro que seria aquela noite, um copo americano cheio de Cointreau - nunca fui fã daqueles copos minimalistas que colocavam essa bebida na posição deprimente de pós-drink - tomei como se fosse a ultima bebida da minha vida, com certeza se eu estivesse no corredor da morte, pediria um copo de Cointreau para anestesiar minha partida. 

Lá pelas 01, 02, ou 3 horas da manhã, fui tocado por uma mão leve de unhas vermelhas, com a evidência que de que precisavam ser retocadas, era o personagem feminino daquela nefasta e já desenhada noite tempestuosa. Uma visita inesperada para uma noite cravejada de diamantes de barro.

Na verdade esse negócio de cameleão social foi uma definição que eu mesmo me dei há uns anos atrás, achei interessante a analogia com esse animal, principalmente pelo fato de eu mesmo não saber qual das minhas múltiplas faces é a verdadeira, apenas as visto conforme o ambiente ao qual estou atuando, sem saber jamais quando estou fora do palco, na verdade, eu sempre quis ser ator, quando criança minha mãe dizia que eu falava que seria o novo/velho/mais-ou-menos velho, James Dean - traduzido para minha real realidade, e me desfazendo do personagem desse texto - a referencia artística desse parágrafo era talvez algum topetudinho de Malhação, mas o fato central dessa assertiva confusa, é que, sempre me imaginei um ator e talvez por isso, não canso de atuar na peça sem fim que é essa minha tortuosa história de vida.

Já a questão de comparar-me a um rio - ou qualquer inconsistência fluvial - mora justamente no fato de que sempre me considerei um viajante sem porto, assim como as correntezas que nunca param para dar um oi, apenas passam, banham as pedras no caminho, as dão forma, lhe dão o carinho que lhe peculiar, as acoberta com seu manto refrescante e calmo, e por fim, segue viagem no leito infinito até o imensidão do mar que o espera. Não olhar para trás! Meu fascínio não motivado.

Realmente aquelas unhas por fazer me traziam a ideia do descontrole orgânico que sempre me cativou nas mulheres, o coque no cabelo com uma caneta bic, as havaianas nos pés, as pulseiras de linha nos braços, a falta de vontade de impressionar sempre me impressionou, a segurança da mulher  que sabe que Deus lhe foi generoso na beleza natural e que instintivamente pouco se importa em se arrumar com as inaturalidades e futilidades da falsa beleza. Outra rara confissão.

Quando me virei para ver a dona daquelas mãos, fui tomado de assalto e meus lampejos de respiração fraquejaram como se um espirito passasse ao meu lado e colhesse minha alma, senti o gelo do medo atingir em cheio meu estomago vazio, fui tomado por aqueles raros momentos em que me fogem as palavras, aquelas quase inexistentes lacunas que não me permitiram concatenar os verbos e substantivos e tão pouco formular alguma frase que fizesse algum sentido, num gole seco que arranhou minha garganta, tomei os últimos mls do meu copo, enquanto pensava em algo para dizer, pareceu uma eternidade, e as exatas palavras foram: "o banheiro daqui tem um cheiro horrível". 

Eu deveria ter mais ou menos uns 16 anos, talvez mais, talvez menos, realmente não me lembro muito bem da época em que isso aconteceu, sempre fui um cara que despontava para o lado não comum das convenções sociais, ir a igreja, ao parque, fazer o papel nessa época era muito complicado pra mim, mesmo assim, aquilo aconteceu, mesmo evitando, a maior das desgraças que podem acalentar o coração de um homem, me aconteceu, conheci uma garota, que curiosamente reunia todos os atributos que me fascinavam na espécie, inevitavelmente me peguei, como posso dizer, tendo quem sabe, breves arrepios destinados a esse angelical ser. Foram tempos bons na minha vida, uma temporada de felicidade e tristezas extremas, vivíamos mergulhando tanto no mais alto dos momentos bons, como nos mais profundos e obscuros momentos ruins, me rendi, e nessa derradeira época, cravei uma tatuagem em meio peito. Uma luz que não produz sombras!

Quando penso nesse negócio de levar a vida como se fosse um enorme prato a saborear, de querer provar os diversos sabores das esquinas que frequento, na verdade quero dizer que acho que estamos aqui de passagem, e que nossa estadia nesse plano é bastante corrida, nosso filme passa numa gravação de velocidade acelerada, por isso a ideia de me manter estático rendido ao mesmo sabor sempre - ou quase sempre - me parece uma forma covarde de desperdício de força vital, digo covarde por que ao meu ver, a segurança de ter um pouso é apenas o medo de se manter voando o medo  de não ter nada quando na verdade se pode ter tudo, um paradoxo que sempre - ou quase sempre - esteve muito claro em minhas afogadas sinapses atrapalhadas pelos excessos que cometi no percurso. 

Ela assentiu com um delicado balançar de cabeça, realmente a possibilidade do cheiro do banheiro ser ruim era bastante grande.

Atillas Felipe Pires
25/05/2016 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Referências

Eu já caminhei descalço por alguns asfaltos quentes dessa vida
Eu sei bem onde posso ou não posso pisar
Aprendi quase sem querer a não ter ninguém por perto
Pra me avisar onde posso ou não posso estar
Dos calos que consegui foi muito pouco ou quase nada o que aprendi
Só sei que vivi, e já é o bastante pra mim
Se você não me brinda a meia noite ao som de Jules 
Se você não me surpreende em conhecer Luisiana Blues
Eu realmente não tenho muito o que lhe dizer
Se minha história foi escrita nas pautas musicais de Wanda Jackson
Eu te amo, nunca foi meu melhor som
Vou me sentar no meu piano imaginário e me ver ao estilo Ray Charles
Pode gritar comigo, desde que seja como em Hit the road Jack
Esse é o meu check
Meu piléque, meu check de vivo, não de mate
Venha até mim e não esqueça sua taça
O brilho dessa madrugada é um arremate 
Fique e me mate, ou vá embora
Assim eu mesmo posso ter o poder
Assim pode ser
Que eu mesmo me mate

O suicídio emocional
Sem chace, nunca fui um cara lá muito sentimental
Transcorro nessas linhas desvirtuadas
Todo o meu (inventado) inferno astral
Ok, nada assim tão mal
Faz um tempo que não leio jornal
Então até que estou bem
Se for assim, então vem
Vem meu bem
Sem gelo e amadeirado
Nunca entendi o gosto da pele ser salgado
Estou para namorado
Como Billy Hoyle esta para as cestas enterradas
Nesse sentido eu nunca estou pronto
Percorri muitas estradas
Esse é o ponto

Ohh, yeah..isso aí
Esse é o ponto

 

Atillas Felipe Pires
29/03/2016
 

Onde não se ganha o pão

Fila do pão pra quem fila o pão
Desse nosso dia-a-dia
De quem nem ganha 1 centavo por metro capinado
(de ganha-pão)
Acorda bem cedo
Com olho cerrado
Parte na estrada, beirando aquele cercado
Caminhadinha matinal até a plantação
De quem não tem um vintém 
Mas carrega consigo, três décadas de calos nas mãos
E no fundo fica na fila
(na fila do pão)
Mas o pão não fila
Por que no bolso sem peso só carrega a magoa 
No Estado sem água
Sem água pro pão

Olha pro céu lhe caí uma pedra
Do alto da inchada que polui a visão
Quando toma impulso pra cravar seu ódio no chão
Cavando e enterrando o seu ganha-pão
No sol dessa terra
Dessa terra garrida 
Onde as vezes faz, as vezes cura as suas feridas
Lhe vem sempre a mente
A promessa do homem
Que vem de repente no que chamam de eleição
"Vamos trazer energia, e garantir ganha-pão"
"Me de a vara e não o peixe
Eu não quero esmola não"
Lhe volta a resposta
Que escreveu na porta do seu casébre 
Tem os próprios anti-corpos
Quase nunca tem febre 

No suor dessa vida
Garante-lhe a mesa com peso
Mesmo que não muito
Mas o bastante que lhe evita o despreso
De ver no jornal - de quem não tem teatro eletrônico
(no centro da sala de estar)
Esse circo platônico
Que cerca essa nação
Que la distante
Não lhe garante o mínimo para o ganha-pão
Basta que chova um pouquinho
É tudo que precisamos
O chão nos da tudo
E chuva você ainda não aprendeu a fazer não
Volte com suas promessas no mesmo avião
Do alto da sua arrogância você não entende
Por que a mil pés não se ara o chão
Lhe turva a visão
Então evite a janela
Volte a sua sala redonda
Onde se reúnem os saqueadores dessa nação
Os que não merecem as belezas dessa terra
Que não deveria nem ter parado aqui
Na época das caravela 

Refletido bastante
Enquanto naquela carreira vai adiante
Semeando a própria história
Já vê o sol ir embora
É hora de voltar pelo cercado
Caminhando calado
Ele vem calmamente contemplando o cerrado
Minha terra, minha história
Meu chapéu de couro
Minha sandália cobrindo meus pés sujos
Esse é o meu ouro
O ouro do sertão que ninguém lhe tira não
O ouro do sertão que ninguém lhe compra não
Eis aqui minha confissão
Eis aqui minha oração
Uma homenagem singela
A essa nobre e forte parte da nação

 

Atillas Felipe Pires 

18/-5/2016

De ponta a ponta

Eu vou mergulhar na luz brilhante dessa ponta 
(dessa ponta da cidade)
Vou me jogar numa onda tragável e surfar de ideias em ideias
(como se faz nessa cidade)
Vou caminhar mas sem querer sair do lugar
E a brisa que me tocar terá força para me levar
Para me levar ao meu lugar
Sendo esse o meu lugar, será sem sair do lugar 
Que ela levemente vai me levar

Atillas Felipe Pires
15/05/2016

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Com amor e loucura

Como é doce esse olhar refletindo o mais belo luar
Eu me sinto em casa como não me sentia em mil anos
Esse é e nunca deixou de ser o meu lugar
Aprendi que só se conhece o brilho real das estrelas quando se propõem a amar
Sentindo o banho da lua nova, naquele belo luar
O mais belo luar

Por favor traga mais uma dose e um cigarro sem filtro
Malboro Vermelho
Meus olhos estão trêmulos diante do espelho
Mas não ligo, eu vou continuar
As vezes a missão da noite é só transar (ou vomitar)
Sinceramente? Eu não vou parar

As vezes numa noite quente de verão
Eu tive o prazer de entrar na parte de dentro do meu coração
Aprendi te vendo passar sem pretenção com livros na mão
Que o que nos faz ver as cores dessa vida pode estar escondido no nosso antigo olhar cinza
Aprendi que o sabor do calor e o cheiro do olhar no ar é o que nos faz querer estar
Estar em qualquer lugar
Eu vou ficar aqui para sempre
Eu vou ficar e te esperar passar

A merda do motor nunca pega direito no frio
Quando me sinto assim eu preciso pisar fundo
Nessa altura eu dou um trago ainda mais profundo
Essa mesa esta imunda, cadê a garçonete!?
(tremenda piriguete)
Sempre somem nessas horas
A desse bar parece ser surda (mas que bunda)
Hoje não estou com animo para flertar
Mas se continuar com esse olhar
Vai conhecer o capô do meu carro
Me vendo por cima e apreciando o luar sangrar
(pare de gritar)

Essa foi sem dúvida a melhor noite da minha vida
Uma noite que durou bem mais do que até raiar o dia
Há anos que não tinha calafrios ao beijar
Eu escuto ao longe uma bela melodia
Que nunca termine essa trilha sonora, muito menos esse luar
Que esteja sempre em mim enquanto durar
Paz, amor e sanidade intelectual
Com você nada esta fora do normal

Acelero meu carro na direção contrária
Eu sou o par perfeito pra quem ama um canalha
Se achar pesado, posso mudar de posição
Eu nunca vou estar cansado
 Não vai perceber e estarei indo embora
A saída tão sútil como a chegada
Eu nunca fico parado
Talvez eu seja um dos seus  melhores pratos
Nesse beco sujo e mal frequentado
Nos divertindo como ratos
Não acredito no que sussurram sobre mim
São meros e incabidos boatos
Posso ser um rato
Mas sou o rei dos ratos

Foi um toque do Cúpido diretamente em mim
Uma flexa sem direção que acertou em cheio seu alvo
Coloriu meu calejado coração
Aparentemente e surpreendentemente me fez perder a razão
Enquanto isso aquele mais belo luar não acaba
Que seja enquanto for
O mais belo e claro luar
Eu regando a mais bela flor
(com amor)
Com quase todo o meu amor

Nunca gostei de barulhos internos no meu carro
Essas latas sacudindo o interior estão me irritando
(já disse para parar de gritar)
Enquanto isso eu vou guiando
Pra mim nunca tem mal-tempo
(vamos fazendo isso e aquilo ao mesmo tempo)
Não sou a melhor amostra do gênero, não sou o melhor do sexo
Mas o transe da voz de Allan Jackson
Me deixa quase um profissional
Não tenho papel higiênico, tome aqui esse jornal
(quanto brutalidade)
Não vou te contar histórias de princesas
Você já não tem mais idade
Agora prove um pouco mais do meu gosto
Do gosto dessa tremenda insanidade
(a melhor fase da sua idade)

Enquanto isso vamos enfrente ouvindo o ronco do motor
Eu deixo o vidro aberto e o sol atinge meus óculos escuros
Vamos juntos na mesma trilha descobrir esse e outros mundos
Vamos juntos, meu amor
O céu laranja me trás uma cena de cinema
Acho que vou levantar a capota, vamos sentir o vento
No retrovisor vejo ficando para trás tudo que nunca me fez bem
(que nunca me ajudou)
O som do toca-fitas velho, nos dizendo coisas de liberdade
(você esta na melhor idade)
A percussão por conta do contato quente da borracha no asfalto
Pra mim não tem mal-tempo, agora não se preocupe em tirar o salto
Eu não ligo que coloquem o pé na parte de cima do assoalho
Enquanto isso
Vamos sempre juntos meu amor
Até a próxima cidade, por favor!
(a melhor fase da sua idade)

Como amor e loucura

Atillas Felipe Pires
07/12/2015








quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Naquele quarto

Naquele quarto eu costumava ficar parado sentado numa cadeira velha, com uma cerveja nas mãos ficava horas olhando pela janela, sempre fui uma pessoa um pouco solitária, não daqueles solitários de não ter ninguém por perto, isso as vezes eu tinha até demais, mas aqueles solitário de não ter ninguém na parte de dentro, minha alma era vazia de presenças alheias, eu não sentia o calor de um sentimento em meu peito, eu parecia ser alguém oco, como uma arvore verde e bonita só que com o tronco podre e prestes a cair.

 Naquele quarto eu costumava manter o frigobar sempre cheio de alguma coisa, na verdade, eu me sentia desesperado quando precisava ficar uma ou duas horas sem cerveja ou uísque, eram minhas companhias, sim, eram minhas melhores companhias, não que seja algo simples assim, mas acredito que somos os nossos melhores interlocutores e ouvintes ao mesmo tempo, e quando estamos com um trago ou dois na mente, nos tornamos melhores oradores e ainda melhores ouvintes, eu sempre fui minha melhor companhia.

Sei que isso parece extremamente melancólico e quem sabe um pouco perturbador, mas desenvolvi meus anos assim e confesso que não me arrependi do que vivi, nunca me faltou companhia acessória, quase sempre algo bem superficial, exceto por algumas pessoas que se aventuraram um pouco mais na trilha confusa e perigosa do meu arredio coração - todas em vão! Mesmo assim, as companhias que me rodearam em todo esse tempo me fizeram muito bem, foram pequenas doses de diversão e depravação, povoaram de muita agitação a fita cassete da minha vida, eu não poderia fazer um filme melhor se voltasse no tempo, eu realmente não me arrependo.

Naquele quarto eu tinha todas as minhas paginas amarelas num canto úmido, minha única preocupação era perder aqueles escritos para as malditas traças que teimavam em me visitar, todos os outros campos da minha vida estavam exatamente onde deveriam estar, minha conta bancária, meu carro, a gasolina, o banheiro e o jantar, tudo estava exatamente onde deveria estar, inclusive eu naquela cadeira velha olhando aquela rua mal frequentada.  As vezes eu era tomado por algum espírito negativo, e imaginava uma caveira imóvel naquela posição estática, integrando-se ao estilo dos móveis velhos e gastos - assim como eu mesmo - daquele quarto de hotel barato, mas só por um tempo, logo depois eu ascendia um cigarro e abria outra garrafa nos dentes, gostava de dias assim, normalmente rendia um ou dois capítulos para meus inacabados textos, experimentava a sensação de um pouco menos de solidão interna quando escrevia, eu criava um mundo novo, um mundo que nada tem a ver com o meu, e virava amigo daquele ser que movimentava minhas histórias, as pessoas me confundiam com ele, mas nunca tivemos quaisquer eventuais similaridade, ele era o oposto a mim.

Naquele quarto eu convivi com algumas histórias passageiras, eu as vi chegar e as vi partir, quase com a mesma sutileza, lembro de todas as tentativas inúteis de cravar memórias mais fundas em minha alma, das desesperadas loucuras de marcar mais fundo em minha hepiderme alguma tatuagem permanente, mas aquilo sempre passava, na verdade, tudo sempre passa. É isso, tudo sempre passa!! Nunca gostei de ser confundido com águas paradas, sempre fiz parte de uma correnteza nessa vida, permeando, beijando, convivendo e passando pelas pedras sólidas que encontrei no leito desse meu agitado rio.

Parece estranho, mas sinto que naquele quarto eu podia ir longe e ao mesmo tempo me manter parado no mesmo lugar, eu viajava distante, até cair a brasa do cigarro em meus braços cruzados, essas marcas eram perigosas, por que elas sim eram permanentes, por isso, colecionei marcas de cigarro em meus braços, nenhuma mais, essas doem bem menos para serem feitas, eu não me arrependo das minhas dores emocionais que fiz questão de minimizar, eu não me arrependo das minhas marcas de cigarro que fiz questão de expor.

Sempre senti que mesmo que eu me esforçasse, essa realmente era a vida a qual eu estava destinado, algumas pessoas vieram a esse mundo com um propósito traçado - ou todos, quem sabe - e o meu talvez fosse mostrar para aquelas que tiveram o desprazer de cruzar minha história, (sempre paralelamente e nunca circular) que existem coisas bem melhores por aí, que existem algumas almas perdidas por aí que trazem muito mais cor e solidez, algumas almas que no seu processo de criação não desenvolveram asas que voam, no lugar criaram um coração. As vezes fico pasmo em como é possível pulsar sangue em minhas veias.

Naquele quarto eu refiz e fiz algumas dezenas de vezes muitas reflexões, algumas tão famintas de sensatez que cortejei a loucura quase que diariamente, eu tinha a mania anormal de me manter sempre fora do normal, pra ser sincero, eu realmente nunca fui um cara muito normal, todos na real..somos forçados a desenvolver personagens e levar essa vida de modo teatral, indo ao trabalho todos os dias, tomando banho na hora, desligando a televisão para dormir, comendo de 3 em 3 horas, lendo por obrigação, esperando nossa vez na fila do pão e falando com alguém sobre o clima do dia, sempre em cena nessa vida, sempre com o roteiro nas mãos, eu cometi talvez, o erro de as vezes fugir do personagem - não fui um bom ator (a essa altura me convenço, que nem escritor), "algumas pessoas nunca enlouquecem, que vida de merda elas devem ter". Naquele quarto em alguns lapsos bem rápidos, eu tive o prazer sexual de ser eu mesmo, é sempre um orgasmo lembrar desses momentos.

Eu costumava expor alguns dos meus escritos para uma seleta freguesia, que incessantemente me consumia como quem seca um vinho velho que se confundi com um bom, eu brincava de confundir com meus produtos, causar algumas poucas cãibras cerebrais que as tirava do mundo real por alguns minutos, eu era como uma droga altamente recomendável para àqueles que não têm problemas com vícios, eu não me arrependo das minhas exposição periódicas. Eu fiz meus próprios filmes de comédia!

Naquela cadeira antiga, eu estabeleci minha estadia, não era muito confortável, mas me trazia uma estranha sensação de intelectualidade, por vezes me sentia o próprio Don Corleone em seus melhores anos, com meus cigarros, livros e vinil, todos velhos, aquele era meu mundo e eu realmente gostava dele. Eu conquistei rosas de todas as cores apenas apresentando minha capa bege e desbotada, eu não me arrependo.

Por vezes eu ouvia a campanhia do quarto tocar - a recepção era uma merda - e ficava imaginando qual seria a novela que entraria dessa vez, eu vivi de reprises de séries a capítulos únicos, eu desenhei e colori e também fiz alguns rascunhos sem acabamento.

Por fim, naquele quarto onde cabia uma vida (ou era uma vida) as coisas passaram muito mais rápido do que eu imaginei, o tempo que passei sentado naquela cadeira foi realmente muito bom, e considerando a relatividade do tempo, acho que continuo sem me arrepender. Sou grato pelas histórias que vivi, sou grato pelas dores que senti, sou até mesmo grato pelas dores que causei - eu nunca matei ninguém.

Eu nunca matei ninguém!

Atillas Felipe Pires

Ela é pura utopia

Ela é da atmosfera mais bela
Nem parece ser um ser aqui da terra
Ela me brinda com seu amor
Ela domina meu ser com seu jeito de ser
Fiquei viciado no seu sabor
Ela é linda, cabelos escuros, olhos claros
As sombras dos seus cílios na cor da sua retina me coloca em transe
Como a sua tatuagem que começa bem baixo e vai subindo
Ela me fascina de noite ou de dia, acordada ou dormindo
Meu pulsar acelerado faz todas as outras dores irem sumindo
Corpo de musa, pele elétrica, arma do prazer
Seu olhar verde me atinge em cheio e eu já não sei o que fazer
Ela é do tipo que hipnotiza o espelho
As luzes se ascendem quando ela chega
Do tipo diamante que sempre diz a que veio
Já quebrei minhas regras por ela
Por que quando se esbarra com anjos deve-se criar asas para tocá-los e sair aqui da terra
O certo é flutuar e dançar sentindo o brilho que emana dela
Preencher meu ser vazio
Habitar os andares pouco utilizados do meu corpo flácido e arrogante
Ela lapidou sem querer meu principal diamante
Se ela não estiver ao meu lado sinto que não vou seguir a diante
Ela surgiu como que do nada pelos caminhos da vida
Eu já a conhecia nas minhas projeções de a ver algum dia
E por fim valeu esperar até o fim
De tudo que há em mim, ela é tudo que deveria sempre estar aqui
O hoje, o amanhã e o que esta por vim
Ela me mostrou as faces ocultas do amor
Eu malandrão pensei que era o bom
Hoje aqui estou
Ela é tudo eu paro na estrada
Ela vê o mundo com cores diferentes para cada caminhada
Eu nunca soube valorizar quase nada
Ela me mostrou o que eu não sou
E que na verdade é tudo isso que sou
Ela veio do nada quem diria
Ela é pura utopia
Ela me trás as melhores cores do meu dia
Ela sabe como anestesiar minhas dores
Ela não tenta me conquistar
E seu jeito de me notar sem me deixar notar me prendeu no seu olhar
Eu já perdi as rédeas do meu tão bem traçado plano
Hoje apenas vou viajando enquanto ela brinca de "não estou te conquistando"
Ela me deixou a mercê
Do mar de amor que guardei
Achou o caminho pra luz que sempre ignorei
Ela é bem mais que aquilo que eu sonhei
Ela me mostra os segredos dos mistérios
Da paz do Hindu ao radical da Opus Day
Ao gosto do vinho e o limite dos estéreos
‎Nada mal nem tão sério de tudo isso que falei
Ela me veio tão rápido enquanto eu dormia
Ela é pura utopia

Atillas Felipe Pires
02/12/15