Ela vivia solitária
Vivendo uma vida apagada, uma vida sem graça
Por várias vezes, pensou em suicídio
Dada o tamanho da sua desgraça
Sem um amor que colorisse a sua vida
Sem cuidado vindo de alguém não da familia
Era tudo o que ela buscava
Era tudo o que ela queria
Ele tinha perdido a vontade de viver fazia algum tempo
Vivia de café em café diluindo a sua magoa
O tempo não foi bom com seu futuro
Tudo o que ele queria era ver o sol depois daquele muro
Que vivia entre ele e seus sonhos, entre ele e sua vida doce
Com o tempo, consigo mesmo, aprendeu a ser duro
Ela vivia vagando, caminhando, cantarolando cantigas tristes
Nas molhadas ruas de Barcelona
As vezes passava reto do lugar onde queria ir
No fundo ela não queria nunca ir a lugar algum
Sentia como se a qualquer segundo fosse provar o sabor da lona
Ele parecia cada dia mais triste com a sua sina
Para quem tem sonho de escritor
Ser ajudante de biblioteca é algo frustrante
"Coloque os livros por ordem de escritor na estante"
Quando ele queria ter escrito-os
No fundo, um intelectual sofredor
Vivendo de poesias autorias e contos em resquícios
Ela resolveu entrar num café qualquer
O primeiro que viu, pediu leite com açucar
Quis mudar aquele dia
Quem sabe adoçar um pouco toda a sua melancolia
E por trás da garçonete que a servia
Ela viu ele!
Ele resolveu sair a tarde para dar uma volta
Terminou de tirar a poeira dos livros e foi ao café mais próximo
Sabia que tanto faz, tanto fez, mais isso ele fez
Entrou e da porta
Sendo servida por uma garçonete
Ele viu ela!
Eles se olharam, de longe seus corações de cara se tocaram
Eles sentiram a mesma coisa sem saber
Eles viram um futuro pela frente
Talvez um motivo para parar de sofrer
Parecia que como mágica suas vidas se embalaram
Ela chegou em casa e não parava de pensar nele
Ele voltou ao trabalho e quis saber onde ela morava
Ela a muito não se arrumava, não se importava
Ele pensou que queria vê-la outra vez mais
Ela passou seu batom mais vermelho e usou sua echarpe que menos desbotava
Ele pensou num álibe que a fascinasse
Ela entrou na livraria e como estava linda
Ele a viu entrar e pensou - como ela é linda
Ela o viu trabalhar fingindo escolher algum livro
Ele se aproximou e um livro do alto ela a pegar ele ajudou
Ela nem viu o titulo, na verdade não gostava de ler
Ele viu e perguntou? Gosta de caracóis
Ela respondeu - O que?
Ele disse o livro que escolheu
Ele ficou com vergonha e quis correm para debaixo dos seus lençóis
Ela em casa não parava por um segundo de pensar na voz dele
Ele no trabalho dizia para si mesmo que ela era a pessoa
Nada sabiam dos sentimentos do outro, nem ela nem ele
Ela todos os dias no mesmo horário comprava um livro
Ele todos os dias no mesmo horário embalava um livro
Ela não tinha coragem de dizer que o amava
Ele não tinha coragem de dizer que a amava
Ela viu sua vida por uma lente colorida
Ele viu sua vida por um livro romântico
Ela se sentiu em seu corpo cada dia mais vida
Ele parecia ter em seu ser, um prazer balsâmico
Ela repetiu o ritual para vê-lo por semanas
Ele treinou no espelho
Uma forma de dizer tudo que sentia
Ela decidiu dizer um dia
Ela se arrumou como nunca antes
Ele tinha faltado ao trabalho naquela manhã
Ela chegou e por ele ao seu chefe perguntou
Ela ouviu não tinha mais ele
Ela viu seu sonho virar farelo de pão doce
Ele havia sofrido um acidente
Ela não acreditava e tremia de dor
Tremia os dentes
Ele havia partido, sem volta
Ela correu pelas molhadas ruas de Barcelona
Ela voltou a ser só ela
Ela viu sua visão focar cinza
Ela finalmente sentiu o gosto da lona
Ela chorou
Ela da mais pura e amarga dor finalmente provou
Ela voltou para casa e olhou para o nada
Viu no seu armário todos os livros que comprou
Como não lia, ainda embalados
Ela por impulso resolver abri-los
Ela ficou paralisada com o que olhou
A cada livro que abria um novo bilhetinho
"Oi, gostei de te ver no café ontem, como se chama?"
Ela se jogou na cama
"Oi, por que não me responde? Estava linda hoje"
Ela pensou em se matar
Ela abriu todos os livros
Ele não havia faltado com os recados em nenhum
Ela chorou lágrimas que encheriam um mar
"Oi, por favor me responda, vamos comer no Bar Vedum?"
Ela sentiu que poderia ter alguém a quem amar
Ela leu todos os bilhetes
Até o ultimo livro embalado
Ele havia escrito em todos, dizendo o quanto estava apaixonado
Ela leu o ultimo bilhete
"Acho que te amo"
Atillas Felipe Pires
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