quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Abra seus livros!

Ela vivia solitária

Vivendo uma vida apagada, uma vida sem graça

Por várias vezes, pensou em suicídio

Dada o tamanho da sua desgraça

Sem um amor que colorisse a sua vida

Sem cuidado vindo de alguém não da familia

Era tudo o que ela buscava

Era tudo o que ela queria

Ele tinha perdido a vontade de viver fazia algum tempo

Vivia de café em café diluindo a sua magoa

O tempo não foi bom com seu futuro

Tudo o que ele queria era ver o sol depois daquele muro

Que vivia entre ele e seus sonhos, entre ele e sua vida doce

Com o tempo, consigo mesmo, aprendeu a ser duro

Ela vivia vagando, caminhando, cantarolando cantigas tristes

Nas molhadas ruas de Barcelona

As vezes passava reto do lugar onde queria ir

No fundo ela não queria nunca ir a lugar algum

Sentia como se a qualquer segundo fosse provar o sabor da lona

Ele parecia cada dia mais triste com a sua sina

Para quem tem sonho de escritor

Ser ajudante de biblioteca é algo frustrante

"Coloque os livros por ordem de escritor na estante"

Quando ele queria ter escrito-os

No fundo, um intelectual sofredor

Vivendo de poesias autorias e contos em resquícios

Ela resolveu entrar num café qualquer

O primeiro que viu, pediu leite com açucar

Quis mudar aquele dia

Quem sabe adoçar um pouco toda a sua melancolia

E por trás da garçonete que a servia

Ela viu ele!

Ele resolveu sair a tarde para dar uma volta

Terminou de tirar a poeira dos livros e foi ao café mais próximo

Sabia que tanto faz, tanto fez, mais isso ele fez

Entrou e da porta

Sendo servida por uma garçonete

Ele viu ela!

Eles se olharam, de longe seus corações de cara se tocaram

Eles sentiram a mesma coisa sem saber

Eles viram um futuro pela frente

Talvez um motivo para parar de sofrer

Parecia que como mágica suas vidas se embalaram

Ela chegou em casa e não parava de pensar nele

Ele voltou ao trabalho e quis saber onde ela morava

Ela a muito não se arrumava, não se importava

Ele pensou que queria vê-la outra vez mais

Ela passou seu batom mais vermelho e usou sua echarpe que menos desbotava

Ele pensou num álibe que a fascinasse

Ela entrou na livraria e como estava linda

Ele a viu entrar e pensou - como ela é linda

Ela o viu trabalhar fingindo escolher algum livro

Ele se aproximou e um livro do alto ela a pegar ele ajudou

Ela nem viu o titulo, na verdade não gostava de ler

Ele viu e perguntou? Gosta de caracóis

Ela respondeu - O que?

Ele disse o livro que escolheu

Ele ficou com vergonha e quis correm para debaixo dos seus lençóis

Ela em casa não parava por um segundo de pensar na voz dele

Ele no trabalho dizia para si mesmo que ela era a pessoa

Nada sabiam dos sentimentos do outro, nem ela nem ele

Ela todos os dias no mesmo horário comprava um livro

Ele todos os dias no mesmo horário embalava um livro

Ela não tinha coragem de dizer que o amava

Ele não tinha coragem de dizer que a amava

Ela viu sua vida por uma lente colorida

Ele viu sua vida por um livro romântico

Ela se sentiu em seu corpo cada dia mais vida

Ele parecia ter em seu ser, um prazer balsâmico

Ela repetiu o ritual para vê-lo por semanas

Ele treinou no espelho

Uma forma de dizer tudo que sentia

Ela decidiu dizer um dia

Ela se arrumou como nunca antes

Ele tinha faltado ao trabalho naquela manhã

Ela chegou e por ele ao seu chefe perguntou

Ela ouviu não tinha mais ele

Ela viu seu sonho virar farelo de pão doce

Ele havia sofrido um acidente

Ela não acreditava e tremia de dor

Tremia os dentes

Ele havia partido, sem volta

Ela correu pelas molhadas ruas de Barcelona

Ela voltou a ser só ela

Ela viu sua visão focar cinza

Ela finalmente sentiu o gosto da lona

Ela chorou

Ela da mais pura e amarga dor finalmente provou

Ela voltou para casa e olhou para o nada

Viu no seu armário todos os livros que comprou

Como não lia, ainda embalados

Ela por impulso resolver abri-los

Ela ficou paralisada com o que olhou

A cada livro que abria um novo bilhetinho

"Oi, gostei de te ver no café ontem, como se chama?"

Ela se jogou na cama

"Oi, por que não me responde? Estava linda hoje"

Ela pensou em se matar

Ela abriu todos os livros

Ele não havia faltado com os recados em nenhum

Ela chorou lágrimas que encheriam um mar

"Oi, por favor me responda, vamos comer no Bar Vedum?"

Ela sentiu que poderia ter alguém a quem amar

Ela leu todos os bilhetes

Até o ultimo livro embalado

Ele havia escrito em todos, dizendo o quanto estava apaixonado

Ela leu o ultimo bilhete

"Acho que te amo"

Atillas Felipe Pires

Nenhum comentário:

Postar um comentário