segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

katarina a velha sem hora


Ela se chama Katarina

Para mim é Katarina

Para os outros antecede senhora

Ela curte tomar chá as 5 horas

Mas nunca vê as horas, ela é sem hora

 

Uma velha mãe-de-lobo 

Que já viveu um século e meio

Em cinquenta anos apenas

O tempo na intensidade, muita calma não sou louco

Katarina, velha senhora

Que não conta os dias

Que não olha as horas

 

Nas trilhas do destino nos hotéis da vida

Naquela noite fria não tinha vinho

Eu desci para comprar cerveja mesmo quente na avenida

Na avenida logo em frente

Deveria ser tarde, horário que só quem sai a rua são os comoventes

Ou qualquer ser semovente

Nada assim, tão deprimente

Só quem saí por aí sem destino sente

 

E qualquer um que esteja de bar em bar sozinho é um ser da noite

Eu e ela somos seres noturnos e alcoólicos

Katarina é o que todos dizem, nunca perde as horas

Mesmo assim, Katarina é sem hora

E só os velhos conhecem verdadeiramente essa história

E sabem tudo que Katarina trás em sua mente

 

Dizem que veio de Moskow, fugindo da guerra

Junto com seu velho marinheiro, capitão da marinha

Era um casal do tipo que filho enterra

(na guerra as coisas não são brandas)

E naquele tempo, na frente havia gramas

Havia bombas

Aposentado dono de bar

E dizem que aquele casal sabia verdadeiramente amar

 

Katarina é um lenda no bairro dos pesares

Ao que dizem ele sabe da vida

Ela conhece os melhores bares

Ela senta sozinha na mesa e pede sempre a mesma bebida

Usa-a sempre para preencher de alguma coisa sua ferida

(pela dor do abandono, pela dor da vida)

 

Muitos dizem saber o que aconteceu

Outros dizem que ela surgiu do nada como surgem os andarilhos noturnos

Mas nem todos explicam suas jóias, seu dinheiro

Seu perfume clássico que preenche o ar

Que espalha seu nobre cheiro

Por onde quer que ele tenha meios de passar

Ela sempre ira passar, beber, andar e comprar

 

Cheguei no mesmo bar e a vi ali sentada

Fumando com uma pitadeira,  coisa antiga

Mas vi um sombrio olhar me fitar

Os olhos dela traziam a sensação de uma velha cantiga

"..um dia eu volto pro mar um dia eu volto pro meu lugar"

E diziam que ela sempre olhava para quem entrava

E que dizia que um dia seria seu velho lobo do mar

Seu amor tatuado de pele salgada

O velho contador de histórias de Moskow

E essa história sem precedente e comovente

Assim quase que do nada me cativou

Escrever ela me motivou

 

E o que dizem é que seu marido nunca teve porto

Um dia simplesmente do nada a deixou também sem porto

(que era ele)

E se desfez de todo o resto

Passou a viver em um bar abandonado contador de histórias em Moskow

Sua velha até hoje não acredita

Pensa que ele foi a esquina e que a cada segundo, com um maço de cigarro irá voltar

(mas ele nunca voltou)

Há quem diga que quase dez anos já se passou

Mas a persistência de quem ama nunca se vai

E ela sempre repete: Eu não vou o abandonar

Eu não vou o abandonar

 

Parado ali naquele bar

Resolvi não voltar pro quarto

Estava tendo uma aula de como a vida é triste pra quem sabe amar

A vida é triste pra quem sabe amar

E assim quase que sem querer pensei:

"..e ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez, uma vez"

Foi assim, assim que termino

De uma só vez!

 

Atillas Felipe Pires

16/12/2013

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