Ela se
chama Katarina
Para
mim é Katarina
Para
os outros antecede senhora
Ela
curte tomar chá as 5 horas
Mas
nunca vê as horas, ela é sem hora
Uma
velha mãe-de-lobo
Que já
viveu um século e meio
Em
cinquenta anos apenas
O
tempo na intensidade, muita calma não sou louco
Katarina,
velha senhora
Que
não conta os dias
Que
não olha as horas
Nas
trilhas do destino nos hotéis da vida
Naquela
noite fria não tinha vinho
Eu
desci para comprar cerveja mesmo quente na avenida
Na
avenida logo em frente
Deveria
ser tarde, horário que só quem sai a rua são os comoventes
Ou
qualquer ser semovente
Nada assim,
tão deprimente
Só
quem saí por aí sem destino sente
E
qualquer um que esteja de bar em bar sozinho é um ser da noite
Eu e
ela somos seres noturnos e alcoólicos
Katarina
é o que todos dizem, nunca perde as horas
Mesmo
assim, Katarina é sem hora
E só
os velhos conhecem verdadeiramente essa história
E
sabem tudo que Katarina trás em sua mente
Dizem
que veio de Moskow, fugindo da guerra
Junto
com seu velho marinheiro, capitão da marinha
Era um
casal do tipo que filho enterra
(na
guerra as coisas não são brandas)
E
naquele tempo, na frente havia gramas
Havia
bombas
Aposentado
dono de bar
E
dizem que aquele casal sabia verdadeiramente amar
Katarina
é um lenda no bairro dos pesares
Ao que
dizem ele sabe da vida
Ela
conhece os melhores bares
Ela
senta sozinha na mesa e pede sempre a mesma bebida
Usa-a
sempre para preencher de alguma coisa sua ferida
(pela
dor do abandono, pela dor da vida)
Muitos
dizem saber o que aconteceu
Outros
dizem que ela surgiu do nada como surgem os andarilhos noturnos
Mas
nem todos explicam suas jóias, seu dinheiro
Seu
perfume clássico que preenche o ar
Que
espalha seu nobre cheiro
Por
onde quer que ele tenha meios de passar
Ela
sempre ira passar, beber, andar e comprar
Cheguei
no mesmo bar e a vi ali sentada
Fumando
com uma pitadeira, coisa antiga
Mas vi
um sombrio olhar me fitar
Os
olhos dela traziam a sensação de uma velha cantiga
"..um
dia eu volto pro mar um dia eu volto pro meu lugar"
E
diziam que ela sempre olhava para quem entrava
E que
dizia que um dia seria seu velho lobo do mar
Seu
amor tatuado de pele salgada
O
velho contador de histórias de Moskow
E essa
história sem precedente e comovente
Assim
quase que do nada me cativou
Escrever
ela me motivou
E o
que dizem é que seu marido nunca teve porto
Um dia
simplesmente do nada a deixou também sem porto
(que
era ele)
E se
desfez de todo o resto
Passou
a viver em um bar abandonado contador de histórias em Moskow
Sua
velha até hoje não acredita
Pensa
que ele foi a esquina e que a cada segundo, com um maço de cigarro irá voltar
(mas
ele nunca voltou)
Há
quem diga que quase dez anos já se passou
Mas a
persistência de quem ama nunca se vai
E ela
sempre repete: Eu não vou o abandonar
Eu não
vou o abandonar
Parado
ali naquele bar
Resolvi
não voltar pro quarto
Estava
tendo uma aula de como a vida é triste pra quem sabe amar
A vida
é triste pra quem sabe amar
E
assim quase que sem querer pensei:
"..e
ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez, uma vez"
Foi
assim, assim que termino
De uma
só vez!
Atillas
Felipe Pires
16/12/2013
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