Aquele dia o vento parecia bater mais forte que o costume na janela do quarto, normalmente isso não o acordava, na verdade seu sono era muito pesado para ser interrompido por barulhos leves, nem mesmo o metrô que passava bem em cima do seu telhado tinha o poder de o despertar do seu sono bêbado. Mas aquele dia o vento o acordou, como que uma voz o chamando, o resgatando de todas as suas já encravadas melancolias e preocupações que apenas somem enquanto dorme.
Era apenas mais um dia na vida dele, que já há alguns anos repedia os dias como se todos fossem iguais, no fundo realmente eram, as lembranças de uma vida que ficou pra trás ainda as vezes o encontra, da época em que tinha belos cabelos e corpo desejado, escolhia para cada dedo uma mulher, para cada dia da semana uma nova história, brigas, sexo, bebidas, cigarros, lembranças de uma vida que o trouxe onde esta.
Levantou e pensou apenas em colocar alguma coisa naquela maldita janela, pensou em voltar a dormir, mas por algum motivo, naquele dia, resolveu fazer algo diferente, levantou e andou pela casa, um comodo pequeno embaixo da ponte do metro, aluguel barato, móveis usados, escolheu um vinil e escutou o chiado da sua empoeirada vitrola, a vida sem música é um saco, a vida é um saco, na verdade, tudo é um saco, a única coisa que não o é, é a musica. Enquanto ouvia aquela melodia clássica, sua alma se acalmava e seu corpo relaxava, era como mágica, o som daquele piano invadindo suas ideais e pintando seus pensamentos com algo que de longe lembra cores coloridas. Como há semana não acontecia, ele sentiu vontade de ver aquela que foi uma das únicas pela qual sentiu, como podemos dizer, sentiu breves, arrepios. Sentimentos!
Ela era uma mulher não lá muito bonita, trazia consigo um ar de loucura e um cabelo desajeitado e estiloso, quase sempre com o mesmo penteado, enrolado e preso com a ajuda de uma caneta ou algo do tipo, uma tatuagem na parte superior da mão esquerda onde se lia "até onde for" ela era a ela para ele. Ele não tinha ninguém por ele, mas sempre pensava nela, mas não queria que ela fosse quem sempre foi para ele. Uma boa companhia para noites de vinho barato e contas a pagar nos bar sujo da esquina, quase sempre duas horas de convivência, uma sóbria de conversas inteligentes, outra conturbada de dizeres sem sentido e vômitos bêbados, uma convivência anormal e invejável que em mais de uma elas se repetia. Havia mais de uma ela para ele.
Sentiu vontade de revê-la (as), já fazia quase um ano que não a via, teve curiosidade de saber quem era seu atual namorado, quase sempre algum idiota de vida social agradável e com sucesso no trabalho, advogado, médico, engenheiro, esse tipo de gente burra, diplomados acadêmicos e analfabetos na vida, ela namorava esses caras, por alguns meses, quase sempre o mesmo tipo, quase sempre o mesmo tempo, quase sempre o mesmo final, ela conhecia a vida, e nenhum deles a agradava nesse sentido, conversas vazias, pensamentos rasos, contas bancárias, cartões de crédito, mas na estante quase nunca um bom livro, empenho na academia, na corrida no parque, reprimindo-a nas noites de lua cheia quando queria tomar vinho de 20 litros no gargalo. Ela sentia falta dele e sua falta de crença na vida, sua forma de ver a fila do pão, suas criticas a quase tudo que passa na televisão.
Abriu a geladeira e ficou olhando, como quem sabe que precisa comer, que até esta com um pouco de fome, mas sem coragem para escolher nada que se apresenta, olhou para dentro e viu algumas opções, uma fatia de pizza da noite anterior, um pouco de arroz do começo da semana, feijão num pote de sorvete, fechou a parte de baixo da geladeira, abriu a de cima e pegou uma cerveja, abriu e sentou no sofá, olhou para o teto e ficou contando as voltas do ventilador, pensou que aquela cerveja estava realmente gelada, continuou olhando as voltas do ventilador, mais um gole, e outro, ascendeu um cigarro, continuou olhando as voltas do ventilador, levantou, diminuiu a velocidade no interruptor, pegou outra cerveja, elas realmente estavam geladas, deu um trago profundo no cigarro enquanto abria no canto da pia, olhou pela janela e viu o sol, resolveu desligar o interruptor do ventilador e sair de casa.
Colocou sua camiseta branca amassada como sempre, sua calça jeans rasgada, uma bota desbotada e um óculos escuro, as vezes sentia-se como um vampiro no sol, o brilho em todos os sentido o incomodava muito, a calçada de baixo do seu casulo, era sempre muito movimentada por causa da estação de metro que tinha ao lado, foi andando no mesmo sentido de todas aquelas pessoas, olhou um cara de terno e gravata, com pressa, tomando seu café - as 11h estava atrasado - ficou imaginando a vida daquele senhor, que mesmo novo, o passava uma impressão de velho caduco, para ele todos que vendiam a vida - vida em vendas - era caduco, tinha acoplado essa palavra a seu vocabulário, para ele, todos eram caducos, voltou para aquele cara do terno e ficou feliz por sua vida ter tomado um outro rumo, pelo menos ainda a tinha, diferente daquele caduco correndo as 11h com um café, que vive como um zumbi urbano, uma espécie medíocre de ser humano. Aquele tipo de gente que dorme antes do que gostaria para acordar antes do que deveria, que faz muito mais coisas por que tem que fazer do que por que quer fazer, aquela rotina desgraçada que por um tempo o perseguiu, acordar cedo com o barulho infernal do despertador, trânsito, ambulância, policiais, sirenes, a loucura do dia-a-dia, a vida criada e mau-desenhada, aquilo tudo o parecia ridículo, a vida de quem vive mais nunca esta vivo.
Ele continuou andando e já era quase 12h quando resolveu entrar em uma das portas de bares sujas que se apresentavam atrativas naquela mesma calçada, uma rua de centro, bem mais bares que igrejas é claro, numa terça-feira aquele horário os bares eram povoados por pessoas do seu tipo, desempregados, arruinados, alcoólatras, os noturnos desajustados, que sobreviviam da pensão da Previdência Social ou dos bicos que surgiam por aí. Entrou naquele boteco de esquina, sentou-se no balcão e pediu um conhaque com água, era um pouco cedo é verdade, mas aquele dia já estava sendo incomum desde o início, tomou um trago pequeno para sentir a mão do garçom, achou leve, tomou o resto de uma vez, pediu outro, ficou um tempo olhando para as propagandas de cigarros penduradas na parede atrás do balcão, homens e mulheres bonitos e bem barbeados, malhados, alguma frase de efeito, onde ele por si só lia, "fume até seu pulmão explodir" olhou aquilo e riu, por que era um fumante compulsivo desde os 23 anos. Ascendeu um cigarro!
"-Senhor!"
Já fazia um tempo desde a ultima vez que se pegou parando para pensar sem que estivesse bêbado ou imerso em algum tipo de discussão com uma das muitas frequentadoras de seus pensamentos e noites mal-dormidas, ficou imaginando o estado do seu pulmão, mudou de pensamento, imaginou onde poderia estar se tivesse seguido as placas apagadas da estrada que percorreu, devaneios sem sentido, quando na verdade sua preocupação era em como ganhar dinheiro para a próxima semana, no seu bolso haviam 70 pratas, e era só, todo o resto ganho da ultima publicação já tinha acabado, lembrou que muito provavelmente teria que escrever algo, qualquer baboseira que escrevia e as pessoas gostavam, mas há semanas estava sem ideias, o que o fazia ficar perdido em rodeios literários sem o menor sentido, escrevendo apenas para alimentar sua alma poética, sem pretenção, apenas escrevendo, mas agora era diferente, ele precisava de algo comercial, precisava vender.
Pensou em escrever algo sobre os bêbados, já que melhor classe de gente não existe, olhou para o lado e viu alguns exemplares, moribundos desalinhados, deitados com parte das costas na cadeira, dormindo sentado com um copo pela metade nas mãos, um boné sujo de massa de cimento, as mãos calejadas e os pés inchados, criando raízes naquele bar, pensou na família dessa gente, imaginou o abandono que os rodeia e em como o rumo da vida pode mudar num pequeno lapso de tempo, agradeceu a Deus por ter a opção de escolha, agradeceu por ser quem era como era por que queria, não por que simplesmente era, agradeceu por não ser um daqueles bêbados. Pediu mais um conhaque, agora sem água!
"-Senhor"
Seu cigarro estava quase no filtro, acendeu outro, deu um trago profundo e olhou de canto de olho para um dos bêbados, aquele em especial o chamou atenção, estava com terno e gravata, que não eram trocados a dias, amarrotado e sujo, achou interessante aquela vestimenta num lugar como aquele, quis saber qual era a história daquele mero cidadão que preenchia a decoração do lugar.
Pedro havia nascido em uma cidade pequena no interior do Estado, veio de uma família pobre, mas tanto ele como os irmãos tiveram a oportunidade de estudar e se formar em cursos superiores ou inferiores (de acordo com o seu entendimento). Havia se formado em Engenharia Civil e atuou como engenheiro na cidade onde nasceu, até decidir vir para a cidade grande atrás de mais dinheiro e menos tempo de vida.
Na cidade grande Pedro conheceu Amanda, uma menina linda que fazia estágio no escritório onde trabalhou antes de abrir o seu próprio, se apaixonou e logo se casaram, a vida se apresentava linda e bela para Pedro, engenheiro na cidade grande, uma bela esposa e em breve filhos com seus majestoso nome.
Confessou-lhe curiosidade em saber como diabos veio parar naquele lugar, naquela situação, mesmo que uma situação melhor do que aqueles que vivem a vida inteira em busca de um cenoura presa numa vara, aquilo parecia estar fora do lugar.
Aquela história e aquele nome o remeteu a um pensamento antigo que o acompanhou por alguns anos de vida, quando seu melhor passa-tempo, antes de descobrir a musica clássica, era deitar, fumar um cigarro enquanto a cerveja gelava ao som dos poetas mortos que sempre venerou.
"Quantas vezes Pedro você chora, sempre a se queixar da solidão, quem te fez com ferro fez com fogo, Pedro, é pena que você não sabe não, vai pro seu trabalho todo dia, sem saber se é bom ou se ruim, quando quer chorar vai ao banheiro Pedro, Pedro as coisas não são bem assim, toda vez que eu sinto o paraíso, ou me queimo todo (torto) no inferno, eu penso em você meu pobre amigo, que só usa sempre o mesmo terno. Pedro onde você vai eu também vou, Pedro onde você vai eu também vou, mas é que tudo acaba onde começou, é que tudo acaba onde começou!!"
Pedro lhe pareceu uma pessoa interessante, lhe pareceu alguém com histórias para contar, alguém que talvez merecesse alguns goles de companhia e alguns minutos de tragos, um ser curioso num ambiente hostil, aparentemente alguém amargurado e cheio de decepções para derramar no mundo, uma fonte sem igual de novas ideias e quem "- Senhor" sabe de preenchimento de algumas linhas.
Ele pensou em voltar um dia um pouco mais bêbado e explorar aquela história, por hora, pediu outro conhaque, ascendeu outro cigarro e pensou por onda estaria ela, a mulher de cabelo enrolado dos namorados otários.
"- Senhor, estou tentando lhe dizer a 5 minutos, não é permitido fumar dentro desse estabelecimento"
Tomou seu ultimo conhaque num gole só, deixou o bar, voltou para a calçada, deu outra tragada, pensou: que lei mais idiota!
Atillas Felipe Pires
13/05/2015
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