quarta-feira, 8 de julho de 2015

Na madrugada todos os gatos são pardos

Na madrugada todos os loucos se confundem
Perambulando por aí a procura de algo mais
Apenas mais uma virada nessa história
Uma guinada na direção correta
Os reis da escória
Na madrugada os becos são iguais
Os semáforos nunca piscam
O mundo pertence aos habitantes do subsolo social
Aqueles que durante o dia buscam trocados no farol
Os donos das ruas quando todos dormem
Que rezam em prol do seu estilete individual
Quando as luzes dos prédios se apagam
Os gatos pardos saem sem destino
Desviando dos cachorros que em forma de sirene barulhenta
Surgem latindo
O mundo que todos desconhecem
A vida não contada nos jornais
São todos seres imortais
Em busca de algo mais
Seguem desviando do plano infernal
Pulando das armadilhas do inimigo
Lembrando que  não é por que sonham
Que estão dormindo
Ignorando as estatísticas
Se mantendo longe das manchetes de jornal
Que as seis da manhã sempre mostra um irmão
Que não driblou os caminhos do mal
São todos seres  da noite com visão noturna
Seres noturnos não pelo turno
Sobrevivendo no calabouço da cidadania
Invisíveis ao seu, ao meu, aos nossos olhos
Que teimam em acreditar
Que a solução é virar a direção e não olhar
Na madrugada todos os gatos são pardos


Atillas Felipe Pires
04/07/2014

Estadia temporária

Diga-se de passagem quando estiver de passagem
Por uma antiga e mal-cuidada estalagem
Na beira de uma estrada de deslumbrante paisagem
Com os pneus quentes, cansados e  rodados
Uma zumbido no motor indicando manutenção
Um bom dia ao recepcionista desajustado
Um afetuoso aperto de mão
As roupas no varal finalmente uma parada confortável
Quantos dias se passaram dessa viagem inesgotável
Estou de volta a melhor forma, a minha forma ideal
Já é tarde, vou tirar as roupas do varal

Mais alguns tragos sentado na cadeira de madeira externa
Olhando para a floresta logo em frente
Uma placa apagada indicando a decadência da região
Nada além do que imaginei, nada além do que mais me deixa contente
Um dia a mais ou um dia a menos
Entre a terra e Vênus
Meus nervos de aço continuam fortes para acelerar mais e mais
Com o tanque sempre cheio o destino tanto faz

Um violino nas costas preso por cadarços
Logo hoje meu foninho esquerdo esta falhando
Gosto do meu som perfeito
Viajar viajando
Ainda ontem pisei sem querer numa poça de barro
Minhas botas a cada dia contam  novas histórias
Entre derrotas e desapegos, visíveis vitórias
Colocando novas pessoas no meu livro diário
A única marcação que preciso
Pintando meu destino com novas cores
Muito prazer meu nome é otário

A garrafa sempre cheia no porta-luvas
Não aconselhável mas profundamente agradável
Uma dose a cada curva  quando não encontro chuvas
Dentro do controle para não perder o controle
Com os vidros abertos sentindo o vento local
No toca-fitas uma parada qualquer
Percorro entre Cassia Eller a James Brown
Passando pelas batidas simples  qualquer porra banal  

Nas minhas viagens encontro varias personagens
Me apaixono e desapaixono como quem  lubrifica as engrenagens
Vivendo de estrofes em estrofes
Apenas a cada dia encaixando novas rimas
Provando o sabor de novas salivas
Doces, amargas, cativantes, inebriantes
Diabólicas, desajustadas, apaixonantes
As vezes apenas piso um pouco mais fundo
E coloco meu pé na estrada
Sozinho e nulo, conhecendo o mundo
Ansioso apenas com a próxima parada
Uma vida em looping

Diga-se de passagem quando estiver de passagem
Por uma antiga e mal-cuidada estalagem
Na beira de uma estrada de deslumbrante paisagem
Com os pneus quentes, cansados e  rodados
Uma zumbido no motor indicando manutenção
Uma bom dia ao recepcionista desajustado
Um afetuoso aperto de mão
As roupas no varal finalmente uma parada confortável
Quantos dias se passaram dessa viagem inesgotável
Estou de volta a melhor forma, a minha forma ideal
Já é tarde, vou tirar as roupas do varal

Atillas Felipe Pires
04/07/2015
 

Fusca de motor pifado



Ainda me lembro e sempre vem do nada
Aquele fusca de pneus carecas
Aquele bagageiro sempre lotado
Quantas idas e vindas naquela nossa vida de estrada
Meu fusca velho com adesivos sobrepostos
O som chiado daquelas musicas que nós sempre colocávamos no  repeat
Nando Reis, Tim Maia, ou qualquer coisa beat

Enquanto o som rolava eu segurava sua mão
Acelerando sem destino enquanto acompanhava a canção
“pra você guardei o amor que nunca soube dar”
Até a próxima curva fechada quando a faixa pulava
Eu te via me olhar e pra mim aquilo era tudo
Te ouvir dizer que sua melhor parte era a que dizia me amar

Ótimo clima, até o motor pifar
A fumaça do carburador subia forte e branca
Aquela merda sempre deixando na mão
O meu mau humor sendo colorido com o seu bem-estar
Enquanto chutava a lataria te ouvia cantar:
“..você me faz correr demais..os riscos dessa highway”
E tudo passava e eu dizia hey: “..só mais um abraço”
Um beijo na testa correndo risco nessa highway

Nessa nossa estrada a viagem era sempre muito conturbada
Eu sempre desarrumado e atrasado
Você a organizada
Esquecia de abastecer enquanto parava para comprar mais álcool, meu negócio era beber
Sempre ouvia me dizer: « não esqueceu de nada »
Por fim era quase sempre o mesmo fim
Com o próximo começo sempre evidente
Até o dia que encontramos a ultima estação
Te deixei em casa com um olhar tão comovente e o coração na mão
E nossa viagem ficou no passado como algo que esta sempre presente

Mas meu fusca eterno anda só a casca
Esperando pela próxima ida sem destino a qualquer lugar
 E tem dias que encontro a solução:
« escute garota, o vento canta uma canção
Dessas que a gente nunca canta sem razão
Me diga, garota : « Será a estrada uma prisão?  »
Eu acho que sim, você finge que não
Mas nem por isso ficaremos parados
Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão
Tudo bem garota, não adianta mesmo ser livre
Se tanta gente vive sem ter como dizer »
Me sopra assim do nada, essa bela canção
« nessa infinita highway »

Escrevo memórias invento histórias
Dessas do tipo que nunca vale a penas escrever
Eu penso em conexões
Quase sempre sem sentido
Como confundir fuscas e corações
Num belo quadro que nunca existiu
Mas que fica muito belo para quem imaginou e assistiu
Enquanto isso vou deixando minhas marcas por aí
Desse pneu careca, desse motor pra fundir
Copiando alguns dos ídolos
Nessa "infinita highway"

Atillas Pires
08/07/2015

O azar de ter sorte

Esbarrei com a sorte numa dose de azar
Enquanto saía por aí e me vi numa mesa qualquer de bar
Era noite fria mais sentamos na parte de fora
Eu pedi aquela que estava mais gelada
Mesmo sabendo que era um pouco fora de hora

Esbarrei com a sorte numa dose de azar
E nunca me vi numa onda positiva  como aquela
Algo que me lembrou as variações das ondas do mar
Era a sensação de viajar no seu olhar
Quem poderia imaginar que nas esquinas do destino
Eu iria sem motivo algum te encontrar

Dei de cara com a sorte e ela estava sorrindo
Enquanto eu me deitava em seu colo e me preparava para dormir
Minha sorte surgiu de carruagem e me encantou com seu instinto de liberdade
Não tentou me conquistar
Na verdade pareceu querer me esnobar

Me intriguei e percebi que encontrei
Minha sorte apareceu sem pedir licença
E me fez querer cada vez mais
Eu sentia como se fosse alcançar o inalcançável
Senti minha força inabalável
Algo que para mim sempre me tocou como algo tão improvável
Eu vi a sorte vindo na minha direção
E ela parecia trazer consigo um pouco de azar
Eu pensei que ia passar
Mas não passou

Eu senti o cheiro do hálito da sorte
Provei  seu beijo
Mas por fim, eu esbarrei no azar
Apenas um mero lampejo
A sorte chegou para me mostrar
Que as vezes é melhor ser um cara com azar

Atillas Felipe Pires
08/07/2015