quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Só com hora marcada

- tudo bem, vamos partir do principio de que sua lógica esteja certa, vamos encarar a vida com essa maneira robusta e rude, pra não dizer pragmática demais.

- não se trata de pragmatismo, estamos falando de senso de realidade, estamos falando da visão fática que temos desse mundo insano e megalomaníaco. Reflita por um instante, nas objetivações das pessoas, pense nos porquês desse circo. Não há sentido entre a força vital despendida e o resultado final alcançado.


- juro por Deus e todos os Orixás, que não entendi uma misera vírgula do que você acabou de falar, sua escola é muito diferente da minha. Você permeia suas sentenças com palavras impactantes e prenuncia sua assertiva de maneira orquestrada para um impacto final, mas no fundo, não diz absolutamente nada, “insano”, “megalomaníaco”, “objetivações”, “circo”, traga o tema para o campo técnico de forma objetiva, deixe suas rodas linguísticas para seus falidos livros.


- por óbvio que não me entende, você se preocupa muito mais em anotar minhas palavras do que analisar a ideia, por não conseguir antagonizar meu ponto de vista, você descontrói a forma, sem ter um mero dizer analítico e crítico sobre a essência. Meu caro amigo, isso é vergonhoso.

- você me faz rir! Agora me passe esse isqueiro e alcance o maço de cigarro que esta na segunda gaveta dessa escrivaninha.

- por que diabos você guarda uma porra de uma pistola 9 mm na sua gaveta?

- chega a ser gratificante ver sair um palavrão dessa sua boca tão polida e prolixa. Eu não guardo, eu mantenho, é um pouco diferente, mas fique tranquilo, não esta carregada, é apenas uma mania de velho psicólogo que com o tempo aprendeu a manter o perigo e a segurança no mesmo aço forjado.

- minha conclusão é que os anos 60 nos fizeram realmente muito mal. Há quanto tempo estamos aqui nesse embolorado consultório, cheirando a fumaça de cigarro velha e encharcando nossos cansados fígados nesse uísque? Com o pretexto de novas ideias e discussões críticas, nos tornamos dois bêbados falidos que cruzam a perna e ascendem mais um cigarro enquanto segura o copo com a outra mão. Acho que não quero mais isso pra mim. Não consigo resolver meus conflitos internos, por isso bebo, e quando bebo, eu alimento meus  conflitos internos que não consigo resolver, entrando assim numa porra de um círculo vicioso fatalmente perigoso. Estou com meu espirito inchado, assim como esse meu corpo doente de 57 anos, quando olho no espelho com essa barba mal feita e essas rugas sobrepostas, consigo me ver daqui 20 anos, mesmo não passando míseros segundos, estou fadado a ficar aqui estático igual as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar. Lembre-se meu velho e nobre amigo, as pedras rolantes não criam musgos.

- gostei da referencia á Raul e Rolling Stone, de resto, amasse sua fala e jogue no lixo, vou te dar uma receita para remédios mais fortes, seu maldito viciado. Aliás, falando nisso, as quais você me deu já estão acabando, preciso de mais algumas.

- será que você não consegue entender, olhe para essas paredes, olhe para esse lugar, carpete empoeirado, móveis antigos e caros com aspecto ultrapassado, mogno de madeira maciça, um globo terrestre num canto esquecido, livros antigos desatualizados, e essa merda dessa poltrona velha. Em meio a tudo isso, nós dois, fingindo ser profissionais intelectuais, mas no fundo, não passamos de mais uma parte da mobília, somos velhos e empoeirados com nossos diplomas pendurados, nossas suspensórias e abotoadeiras, nossos anéis antigos no dedo mindinho. Cara, você não entende? Estamos nos acoplando ao ambiente a cada nova década que passamos aqui.

- e nossos clientes?

- o que tem eles, outros fodidos igual a gente.

(a companhia toca)

- atenda a porta você esta mais perto.

- mas cada a porra da secretaria?

- você a demitiu faz algumas semanas já.

- por que demônios eu fiz isso? E por que demônios você deixou?

- você estava bêbado e tinha acabado de cheirar uma carreira cavalar de cocaína, um cliente chegou sem hora marcada, e você num acesso de fúria tacou o cinzeiro na pobre da Luzia. Ela não suportou e foi embora.

- então eu não a demiti, ela quem quis ir embora.

- fatidicamente falando, foi o que aconteceu.

- mas que merda, quem é esse filho da puta que marcou sessão numa terça as 21h da noite?

- não faço a menor ideia.

- Puta que pariu, mande-o entrar.

Atillas Felipe Pires
13/10/2016

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