Quando aparece e desperta, meu dom não desperta a conquista! Quando
cruza sem pedir passagem o meu caminho, no meu caminho não permanece,
quando mira em meus olhos o brilho desses olhos, nos meus olhos não
fica, quando quero que fique,
triplica a marcha veloz e corre, de tanto medo do pretérito não pratica
o futuro, quando eu miro o futuro, quem eu quero no presente me vê no
pretérito, quando interrompe meus planos, não há planos por baixo dos
panos, quando tento conquistar, não conquisto,
só sabe me amar quem eu não sei amar, quando paro pra pensar, minha
vida é apenas uma máquina de lembrar, quando peço pra ficar, toma rumo
diferente sem olhar pra trás, furtiva mente que me prega uma lição, que
se for pra eu querer não há quem vai me querer,
então é melhor eu não querer, quem sabe meu enredo seja arredondar por
aí as margens dessa triste sina, essa melancolia que me domina, quando
chega pra ficar, desperta em mim o famoso sal do a(mar), pra no fim me
deixar, se for pra eu querer ninguém vai me
querer, então é melhor eu não querer.
Atillas Felipe Pires
16/09/2016
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Nunca faço minhas barras
Liguei meu carro enferrujado
Com aquele banco antigo, e ronco acelerado
Um opala 76, onde mantenho meus budas pendurados
O cheiro de gasolina em cada acelero
A cada segundo vejo mais rápido ir passando o tracejado da BR 166
Ao meu lado meu violão desgastado no banco do passageiro
Eu sigo enfrente ouvindo no toca-fitas The Big Six (Os grandes 6)
O arquiteto da rima, fazendo 166 fechar com 6
Resolvi não levar muita coisa, apenas alguns jeans rasgado
Aquelas minhas pulseiras que são antídotos, pra salvar um coração alado
Minha antiga bota com couro surrado
Minha caixa de sapato cheia de fitas, onde mantenho todos os meus santos guardados
O cheiro de viagem natural quando paro em cada banheiro
Uma pousada barata onde a água sempre sai fria do chuveiro
Um cigarro a cada novo play apertado
E bem escondido embaixo do banco de trás
Um isopor com Countreau bem gelado
Não uso drogas, mas as vezes sigo embriagado
Apenas mais um corte na pele, desse ser famigerado
Com sinceridade desde os 27 que não sei qual é minha cidade
A vida na estrada por vezes nos faz perder a identidade
Deixei passar a idade
Mas por fim, me sobrou coragem
Vendi dois vinis que eram raridade
Comprei um violão
Saí por aí exteriorizando minha arte
Os passos por onde andei, deixei a marca do salto largo
A barra que raspa no chão, deixando o aspecto planejado
No fim um mero personagem de mim mesmo
No ultimo posto toquei “Mais do Mesmo”
Quando me falta criatividade deixo bem claro que sou o mesmo
Ficando evidente quando rimo três linhas com mesmo
Esse sou eu mesmo
Muito prazer, eu sempre fui o mesmo!
Atillas Felipe Pires
04/10/2016
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Café, Cigarro e Fumaça (Principalmente Fumaça)
A gente costumava acordar entre as 11h e as 13h, eu
deixava ela dormindo e descia para pegar o jornal na porta de algum
vizinho do andar de baixo, voltava e normalmente ela já tinha acordado.
Ascendia um cigarro e colocava a água do café
para ferver, ela ascendia outro cigarro ainda na cama, levantava e
abria a janela, jogava cinzas no porta-incensos (particularmente eu
odiava ver ela fazer aquilo, era um insulto a mística dos cheiros de
sabores). Mas a visão de vê-la apenas de calcinha com
uma camiseta minha grande e larga, rasgada escrita Hard Rock Café, me
fazia esquecer da intolerância pelo habito da cinza no incenso.
Vinha na minha direção e me abraçava enquanto eu já
estava passando a água quente pelo coador do café, me dava um beijo na
nuca e dizia “bom dia amor”, abria a geladeira e tateava algo para
comer, sem sucesso, tínhamos o péssimo habito
de esquecer de ir ao mercado. Eu ficava ali esperando a água passar
pelo coador levando o pó de café consigo, a transformação das matérias,
ficava observando aquela ebulição química, enquanto isso ela sentava na
pequena mesa de dois lugares, ascendia outro
cigarro, amarrava os cabelos num coque com uma caneta, erguia uma das
pernas e sentava em cima da própria perna e começava a mexer nos meus
rascunhos, por vezes fazia algumas anotações, sugestões e até correções
ortográficas, fui um péssimo aluno de português,
motivo pelo qual virei um notável escritor.
O café ficava pronto, eu pegava duas canecas de
alumínio com a alça amassada, passava uma para ela, e pedia um cigarro,
até hoje não encontrei prazer mais genuíno do que tomar uma caneca de
café fumando um cigarro, eu sentava na outra cadeira
da mesa pequena, segurava sua mão, enquanto pegava algum rascunho do
bolo de papéis para ler (esse era nosso jornal).
- Acho que entrei numa vibe muito pragmática ontem a
noite, olha isso: “ não existe amor enquanto não se aprender a conviver
com a dor” sinceramente, esse não é muito meu estilo. Ela olhava para
mim, levantava parcialmente da sua cadeira,
passava a mão nos meus cabelos fazendo carinho na parte de trás da
cabeça, me dava um beijo na testa e dizia: “você é ótimo”. Eu pedia
outro cigarro!
Ficávamos um bom tempo ali sentados, as vezes,
entre um cigarro e outro, a gente pouco se falava, apenas ficávamos
lendo aquelas linhas escritas nas folhas de caderno com as rebarbas não
arrancadas, esse era nosso trabalho, eu escrevia
a noite, ao som de Wanda, Nelson, Cartola, ela enchia os copos, e
dançava com a taça, eu me inspirava e viajava, no dia seguinte, fazíamos
juntos o ritual da edição, onde líamos toda a produção da noite
anterior, e juntos montávamos aquilo que de alguma maneira
fazia sentido – as vezes era raro – principalmente quando eu me
desprendia do pudor, e me entregava ao sabor seco e mágico de infinitas
garrafas de vinho (tínhamos o ótimo habito de nunca deixar o vinho
acabar).
Ali sentada ela ia pegando os papéis amassados e
manchados de vinho, lia um a um, e fazia três diferentes montes: o
primeiro era os quais deveríamos mandar para a editora, o segundo era os
quais deveríamos guardar e complementar e o terceiro
era dos quais mereciam a tristeza gélida do lixo da cozinha, eu nunca
contestei seus critérios, possivelmente há contos e poemas que eu nem
lembro que fiz e nunca li e que foram para o lixo, um filho que não
conheceu o pai, um pai que não conheceu o filho.
Ela pegou um papel pequeno, meio rasgado, tinha
apenas uma estrofe, a essa altura eu já tinha terminado meu café, e
estava abrindo a gaveta da cozinha para ver se achava outro maço de
cigarro, ascendi mais um e passei o maço para ela, ela
nunca negava um cigarro, a fumaça subia, eu cruzei a perna e fiquei
observando ela ali, com a mão entre os cabelos segurando a testa,
algumas mechas caindo entre os olhos, lendo em voz baixa, ela não
conseguia ler apenas com os olhos e eu achava aquele detalhe
lindo, assim como todos os outros que compunham aquela obra de arte que
ela era por inteira, eu tive um bom tempo para escolher a quem
entregaria minha linhas, a quem dedicaria meus textos românticos que tão
pouco publiquei, e quando a vi sentada naquele banco,
no pátio central da faculdade, num sábado cedo, eu tive a mais absoluta
certeza que seria pra ela que entregaria a minha melhor arte. O meu
amor!
Naquele dia eu estava muito cansado, a noite havia
sido longa, eu era um adolescente que gastava onda com amigos e bebidas
até nascer o sol com seu brilho que socava minha cara enquanto dormia no
banco do fundo do ônibus indo pra faculdade,
eu desci cansado e sem vontade no ponto da avenida, e fui caminhando da
forma mais lenta possível, parei em uma padaria, eu estava com uma
ressaca de mil homens e um anão, pensei num misto, quase vomitei, fui
até a prateleira do fundo e peguei uma bolacha
(eu adorava Óreo) continuei andando e comendo uma bolacha de cada vez,
raspando o recheio e comendo as partes separadas, entrei na faculdade,
me dei conta que cheguei cedo, a aula começava as 9h30 e eram 9h00,
sentei num banco, cansado e querendo dormir, no
mesmo banco, um pouco mais longe, um grupo conversava, algo sobre uma
delas que havia começado a cantar, o grupo se desfez, alguns tinham aula
as 9h00, então ela ficou lá, sozinha, linda, com suas pulseiras e seus
olhos castanhos mel, entre tudo que eu poderia
dizer, entre todas as abordagens possíveis, todos os charmes
disponíveis, me ative a dizer: “você quer uma bolacha?”.
Naquela manhã em especial, o monte do “lixo” estava
maior que os demais, a noite anterior de fato tinha sido muito regada,
inclusive me lembrei que em um dado momento da noite, eu parei de
escrever, peguei ela pela cintura e comecei a rodá-la
no alto, caímos é claro, e pela maldita lei dos azares, meu copo
estacionou sua queda na minha segunda amada, a vitrola que berrava James
Brown, sentimos a oscilação do som, mas bêbados não nos importamos
muito, agora que não estava mais bêbado, tive medo
de ligar e não ouvir mais minhas obras primas.
Levantei da segunda cadeira da mesa pequena, e fui
até a sala, tínhamos um móvel na parede lateral, onde eu com muito
orgulho deixava minha coleção de vinil exposta, com outra caneca de café
na mão, e com o cigarro na mesma mão, fui passando
os títulos um por um, esperando aquele toque que nos diz: “quanto tempo
não escuto esse”, então parei em Elis, tirei da capa de papelão e
coloquei na agulha, o som encheu a sala: “não quero lhe falar meu grande
amor..” por Deus, estava perfeito.
Deixei Elis falando e voltei para a cozinha, ela
ainda estava trabalhando, olhei no relógio que tínhamos pendurado na
porta da geladeira, já se aproximava das 14h da tarde, cheguei na parte
de trás dela, segurei com as duas mãos nos seus
ombros, naquela parte entre o pescoço e os ombros, apertei com carinho,
senti ela se encolher e largar o papel na mesa, encostar sua cabeça na
minha barriga e fechar os olhos. Naquele instante tive a certeza que
tudo que fiz na minha vida até ali, era pra
viver aquele momento, tudo que eu abdiquei, todos os erros e acertos,
tudo que lutei, todas as noite, dias, semanas e meses de amorosa
solidão, foi tudo para chegar até ali, pra viver aqueles segundos da
mais genuína e perfeita paixão, que era a tradução exata
do amor. Naquele instante, e apenas naquele instante, eu vi que valeu a
pena todos os “eu te amos” que deixei de falar, por era pra ela que eu
estava guardando todos eles. Ela me disse: “eu te amo” eu respondi: “eu
te amo”, de forma tão natural quanto o nascer
do sol que surge imperceptível no começo da manhã. Me peguei naquele
momento completamente rendido, me peguei naquele momento, vivendo talvez
a melhor parte da minha vida, passada, presente e futura, na verdade,
aquele era o único momento em que eu me peguei
vivendo.
Olhando ela de cima para baixo, com os olhos
fechados e relaxando na proporção exata dos meus toques, eu pensei que
queria aquilo para sempre, assim como os bilhetes que eu mandei pra ela
na nossa primeira passagem: “por que pra mim, pra
sempre é sempre pra sempre” antagonizando o pragmatismo de Renato Russo
em sua celebre: “sem saber que o pra sempre, sempre acaba” Renato, que
por sinal, preencheu nossa história com muitas de suas musicas, assim
como o sábio e louco Nando Reis.
Guardamos o monte – que nessa manhã estava pequeno –
dos “enviar para editora” na gaveta dos “enviar para editora” e fomos
até a varanda, onde tínhamos duas cadeiras grandes, daquelas de velhos
pacatos e velhas ranzinzas, sentamos cada
um na sua cadeira, ela sempre sentava com os pés em cima da cadeira, e
em dias frios, como estava aquela tarde, ela colocava as pernas dentro
da camiseta, do nosso apartamento, a visão não era das melhores, víamos
outros prédios, mas ao menos era um andar
alto, já valia a brisa de ficar ali sem fazer nada, ou quase nada, já
que nossos finais de tarde era preenchido com o inicio da noite que era
pintado com os pincéis da cevada bem gelada.
Quando a noite foi chegando naquele dia, o ritual
iria voltar, ela iria dançar, eu iria pensar, a vitrola iria cantar, a
taça em algum lugar iria cair em algum momento, e assim passavam nossos
dias naqueles dias, até ela virar fumaça e
me deixar, até ela não ter vivido tudo aquilo, até o monte ter sido
analisado sozinho, até a varanda ser apreciada sozinho, até o cigarro
não ser compartilhado, até o café ser amargo e o cigarro pesado, até a
massagem ser paga, e os poemas rasgados, até a
vitrola que não funcionava a anos ser deixada na penhora e os vinil
doados ao sebo, até as escritas serem esquecidas, e as editoras nunca
vistas, até o final dessa utopia, dessa vontade de viver o que ficou
onde deveria ter ficado.
Ela era o que eu nunca deixei ser, apenas na minha fantasiosa cabeça era o que deveria ter sido.
Atillas Felipe Pires
23/09/2016
Espelho, espelho meu
Olhando no espelho o que você consegue ver?
Sinceramente eu não tenho muito o que dizer
O que o tempo fez com você?
Nunca me importei, nunca fui de jogar pra perder
Onde estão seus amores? O que aconteceu com as flores?
Espremi com limão, adicionei vodka e temperei com minhas dores
O que você fez com a sua vida? Onde foi que se perdeu na estrada?
Eu nunca saí da estrada, e com a minha vida, eu prefiro não afundar o dedo na ferida
Como você se sente ao ver os emocionais que o cercam evoluindo? E você apenas indo?
Eu não sinto, apenas continuo indo, e vindo, as vezes, por hora estou sorrindo
Mas e todas aquelas coisas que Shakespeare falou? Sobre o amor e a tragédia andarem juntos?
Concordo em gênero numero e grau, só que no meu caso, os anjos do amor são moribundos
(mas fico com as tragédias)
Onde você pretende chegar? Quais seus planos? Qual o ritmo da progressão?
Quero chegar em quatro lugares: no bar, na mesa certa, na pessoa certa, na suíte vaga, e que aceite cartão
Entre a cruz e a espada?
O escudo
De direita ou de esquerda?
Ereto
Levando essa vida, você não se imagina sendo um verme social? Um inseto?
Quando criança eu colecionava insetos, seria bom ser um inseto
Por que o sarcasmo em todas as respostas?
Porque é a única coisa que me resta, nesse rio de bostas
E além disso, o que mais te resta?
Meus livros, pulseiras e minhas botas
Imateriais?
Minhas palavras, meus ideais
Sentimentais?
Meus pais, e nada mais
Amores?
Apenas os sabores (provincianos) dos pêlos pubianos
Porque tão sujo?
Nascemos melados
Por que tão baixo?
Tenho 1,83
E as bebidas?
Vamos
Nunca pensa em parar?
Apenas nas placa de pare
Sempre tão rápido? Clínico nas respostas?
Quando já sei as perguntas fica fácil
Como você sabe as perguntas?
Eu as estou escrevendo
Faz sentido, me esqueci por um momento, por que escreve?
Tenho dedos
E os enredos?
Tarantino
Os seus?
São meus
As ideias, de onde vem?
Das minhas ideias
E suas ideias, de quais ideais vem?
Das ideias dos livros que leio, e as vezes do além
O que é o além?
O que existe entre o momento da morte e o nascimento
Que profundo, e a filosofia?
Estudo do saber
Você gosta de saber?
Apenas das coisas que não me farão sofrer
Apenas das coisas que não me farão sofrer
Você já sofreu?
Muito
Por que?
Porque vivi as coisas certas nos momentos errados
Já pensou e reviver as coisas certas no momento certo
Cada pessoa é uma pessoa, cada momento um momento
E a pessoa? E o momento?
Foram embora, com os anos e com o vento
Ainda reflete?
Bem fundo na alma
E o que faz quanto a isso?
Reflito e amortizo a dor com calma
Qual o prazo da amortização?
Já se foram anos, quem sabe uma vida, só sei que bate forte no coração
Você é romântico?
Fui
Ainda é?
As vezes, comigo mesmo.
Egocêntrico?
Apenas quando bebo
Por que?
O mundo gira ao meu redor
Acha apropriado fazer piadas?
Sim, o rumo da conversa estava indo pra um abismo sem volta
Sobre o amor?
Não tenho mais
Certeza?
Ok, não mostro mais
Loira ou morena?
Disposta a tudo, pra mim tanto faz
Libertino?
Apenas quando parece atraente
Falso?
Camaleão social
DC ou Marvel?
Acho a diferença sútil, de universo a universo, tudo bem banal
Carnaval?
Vamos
Com quantos pau se faz uma canoa?
Não sei, só sei que com apenas um se come uma coroa
Sexista?
Realista
Machista?
Nunca
Marxista?
Fui
.
Atillas Felipe Pires
23/09/2016
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Eu entendi o amor! Finalmente
A primeira vez que vi minha mãe espremendo um cravo do meu pai
Eu pensei que fosse um bigato!
Eu pensei que fosse um bigato!
Tédio
- mas nesses dias eu realmente não quero saber de muitas coisas, na verdade eu odeio ter que me atualizar sobre tudo o tempo inteiro, é muita informação, muita coisa nos consumindo o tempo inteiro, então as vezes eu prefiro sentar no sofá e olhar as horas passarem, até me entendiar da natureza do tédio, então eu vou pra cama e faço a mesma coisa, assim vou passando meus dias nesse lugar.
- entendo seu modo de passar o tempo, mas não concordo. Na sua condição eu aproveitaria o tempo para ler um livro ou pedir ao Senhor Salazar que lhe empreste uma fita cassete, eles ainda tem aquela televisão nos fundos do quarto antigo? Acredito que sim, esta aí, se eu tivesse que viver aqui como você, eu ocuparia meu tempo com livros e filmes antigos.
- já fiz isso, e com o passar dos anos não havia mais filmes e nem livros que eu não tivesse lido, depois disso eu passei a escrever, tenho alguns contos, milhares de poesias e dois livros que não consigo por Deus, dar um ponto final. Por isso, hoje sentar e esperar o tempo passar é meu melhor jeito de ficar, por que consigo revisitar algumas memórias da minha antiga vida, da vida que eu tinha antes de vir pra cá.
- vou lhe trazer novos livros e novos filmes, nos últimos anos houveram interessantes lançamentos, a indústria não tem poupado cifras na cultura do entretenimento.
- não! não precisa, eu não quero mais ler e nem assistir nada, apenas quero sentar e ficar olhando a hora passar.
- você esta conformado em se entregar e viver o resto dos seus dias decorando as rachaduras das paredes?
- sim, e tenho encontrado o melhor de mim nessa fase de não fazer nada, aqui, normalmente as 15h03 eu consigo ouvir o barulho do ônibus inter-estadual, acho fascinante a pontualidade do motorista, há meses eu tenho o observado, quando o relógio caminha para as 15h eu vou para baixo da grande arvore no quintal, que é próxima ao muro, e fico olhando no relógio, até ouvir o primeiro som perceptível do motor do ônibus, às 15h01, as vezes imagino que ouvi alguma coisa, às 15h02 tenho certeza que já consigo ouvir o ruído do motor um pouco a distância, e exatamente as 15h03 o ônibus passa ao lado do muro, seu som se faz totalmente audível e eu consigo ver a parte de cima do ônibus por de trás do muro. Tenho um caderninho onde estou marcando por dia e hora, e já fazem uns 17 dias que ele não registra um misero minuto de atraso, a ultima vez que se atrasou passou pelo muro umas 15h05. Nunca mais voltou a acontecer!
-e por que você resolveu parar de escrever?
-resolvi experimentar as entranhas do tédio, escrever me servia como uma remédio contra o tédio, e essa é uma doença que faz bem, nem sempre uma mente está apenas cheia de nada.
- não entendi
- e nem precisa, apenas eu preciso, e eu entendo!
- ok
- por que você acha que o motorista é tão pontual, já que o vem observando? alguma ideia dos motivos que o fazem levar essa rota marcada tão a sério?
- não, eu não sei, mas desenvolvi algumas teorias, a primeira é que ele provavelmente recebeu um papel onde esta registrado todas as horas que deve passar em cada ponto, o próximo ponto da rua fica a exatos 7 minutos do grande muro do quintal, então presumo que seu horário no ponto é exatamente às 15h10, essa é a primeira teoria que responde o fato dele passar exatamente às 15h03 próximo ao muro.
-ok, mas isso não explica a pontualidade do motorista, apenas a torna mais fática.
- a segunda teoria é a de que ele deve ter tomado muitos ônibus na vida, e provavelmente irritava-se muito com os atrasos dos seus fieis porém não pontuais motoristas e talvez por isso, manobra a velocidade correta pra chegar exatamente no horário. Por ultimo, acredito que ele deva saber que atrás do muro grande tem alguém sentado esperando sua chegada, e por uma disputa interna e externa ele cumpre seu horário, para provar que seu recorde - agora de 17 dias - não será quebrado.
- você precisa voltar a tomar os seus remédio, vou conversar com o Doutor Mataus sobre essa inexplicada suspensão, há quantos dias você os deixou de tomar?
- 17 dias.
- pois bem, vou conversar com o Doutor.
- Obrigado!
Atillas Felipe Pires
29/08/2016
Agulha, Bares e Fronteiras
Aquela agulha ficava girando sem parar, até chegar ao ponto vazio do disco, então surgia no ambiente aquele agradável chiado de quando todas as faixas já foram todas tocadas e o aparelho murmura sedento por uma nova melodia. Eu tinha o costume de apreciar aquele chiado final, era como se aquilo fosse uma espécie de reverencia do artista, pedindo meus aplausos, virar o lado antes de ouvir aquele chiado seria tão ultrajante quanto sair do teatro antes dos artistas se curvarem juntos de mãos dadas para o seu público.
Eu ouço a reverencia ao final dos discos, e quase sempre faço ouvir meus aplausos em pensamentos e sorrisos de canto.
Naquela tarde em especial eu havia almoçado na antiga Rua Fleet no cruzamento com a Jones, conhecia por lá um restaurante caseiro que ficava ao final de um beco sem saída, virando a direta, com uma placa pendurada onde era possível ler: “Bebida a vontade”. Nunca fui do tipo de boêmio que apreciou boa comida, mas nunca abri mão de boa bebida, e pra mim, a melhor bebida era aquela que não acabava. Por lá, ela não acabava nunca, o marido da dona trabalhava numa distribuidora e fazia da sua rotina de trabalho o desvio de umas 2 ou 15 caixas por semana, o que servia de atrativo para o negócio alimentício da família.
Usualmente eu almoçava nesse restaurante e preenchia minhas tardes com a prerrogativa do lugar, bebia sozinho, acompanhado, feliz, triste, satisfeito ou mau humorado, eu ficava lá sentado no balcão e via um a um os fregueses indo embora, via dona Joana varrendo o salão principal, e ficava encarando o relógio e ouvindo ao fundo o rádio comunicador, que sempre girava na mesma rádio, uma sintonia clandestina que apresentava bandas de Blues regionais de pouca notoriedade, naquele balcão eu podia refletir e me iludir com minhas próprias reflexões, foi por lá que tive muitas ideias que por anos preencheram meus papéis brancos, foi por lá também que tomei muitas das decisões idiotas que me trouxeram onde estou – pro bem ou pro mal.
Quando me cansava de beber, e principalmente quando cansava de contar as voltas por segundo do ventilador de teto, eu pedia para Dona Joana embrulhar uma caixa de cervejas long neck (tempo bom aquele, vinha 12 garrafas por 23 pratas) e voltava caminhando para meu sujo e embolorado apartamento, que ficava duas, três ou cinco quadras dali.
Naquele dia resolvi ouvir um pouco de Cartola, me faria bem lembrar do Brasil, aquela voz verdadeiramente carioca melodiando a letra que alcançava em cheio meu gélido coração, era sem dúvida uma das obras artísticas que mais me fascinavam. Para aquele chiado, eu praticamente jogava moedas!
“Preciso ir a procurar..rir pra não chorar”
Quando o chiado começou a preencher as ondas sonoras do meu quarto, comecei a ouvir bem mais que algo uníssono, talvez pelo efeito etílico da tarde somado a quinta garrafa que já estava abrindo, eu consegui ouvir o que aquele ponto final tinha a me dizer, consegui ouvir o velho Cartola com seu cigarro na boca, dizendo por entre lábios equilibrando o cigarro com maestria enquanto profere suas sábias palavras: “preciso ir a procurar..rir pra não chorar” eu estava maravilhado com aquilo, eu conseguia ouvir bem claramente aquelas melódicas palavras. Uma mensagem direcionada aquela parte de mim que teima em se esconder das cores da vida, do amor, do calor, da paixão, aquela parte de mim, que encontra a solução sempre no fundo molhado de uma garrafa ou nos tragos infindáveis da nicotina mortífera e cancerígena, meu pulmão sabe que eu sou fumante e vive pedindo trago a todo estante.
Pois bem, as tardes naquele restaurante eram de fato muito gratificante, eu realmente gostava muito de passar aquele tempo sozinho com minhas afogadas ideias, eu sempre fui daqueles que preferia frequentar lugares daquele tipo, lugares marrom, sem muito metálico, lugares quentes, de carpete e tapetes pendurados, gostava de lugares com energia viva e não meramente ambientes planejados e meticulosamente estudados para – possivelmente – agradar aos clientes, eu gostava dos lugares que simplesmente eram o que eram, e eu, é que tinha o poder de decidir se iria ou não frequentá-lo. Eu era assim!
Havia esse cara, um sonhador que ganhava a vida pintando o rosto e tocando violino nos bares da cidade, o que ele mesmo costuma chamar de intervenção musical, com sua fantasia que me lembrava os ciganos da Romênia no filme O Corcunda de Notre Dame, ele costuma me tirar aplausos mentais e moedas reais, quando o seu chiado começava e ele estendia seu chapéu de palhaço, eu quase sempre jogava uma ou duas moedas. Por vezes eu invejei o palhaço – ou intervencionista musical – ele sempre me aparentou ter uma energia leve e positiva, alguém que frequenta essa vida como uma pluma que segue o rumo do vento, de forma leve e suave, surfando pelos ares até a próxima parada – ou no seu caso, até o próximo bar. Certa vez, paguei-lhe uma dose de hidromel, a seu gosto, nunca fui fã de bebidas doces. Horas depois, ele havia bebido uma jarra daquela porcaria melada e eu uma garrafa do meu habitual uísque sem gelo.
Uma reflexão: Incrível como o mundo parece bem mais colorido quando estamos bêbados, sei que esse tipo de afirmação é bem pouco ortodoxa, e posso – possivelmente irei – ser bastante criticado por dizer isso, mas a verdade é que, na verdade, a minha verdade, é que a liberação dos instintos mais naturais de nossa mente é capaz de traduzir em sentimentos alguns dos pensamentos mais escondidos e exterioriza-los das mais diversas formas, alguns gargalham compulsivamente, outros choram copiosamente, tudo dependerá da natureza dos sentimentos reprimidos, nesse contexto é como se a alteração necessária dos nossos sentidos funciona-se como uma torneira que libera esses sentimentos, e nos trás a sensação de alívio, em palavras minhas e mais simples, é como gozar pelo cérebro.
Ele foi ficando cada vez mais alcoolizado! O que teria um palhaço musico a dizer quando ativado seus sentimentos reprimidos? Quais as frustrações e inquietações de um ser que flutua pela vida? Um individuo que surfa nas ondas que afogam as pessoas normais? Nada, ele me disse, “eu não tenho nada para dizer” Respeitei, as vezes não queremos abrir nossas torneiras, então, coloquei um ponto final na conversa, assim como colocarei nesse paragrafo, tudo isso, essa introdução inútil, para lhes dizer um ambíguo silencioso e sonoro: Nada!
Sinceramente, nunca acreditei na bobagem de que tudo tem que ter um sentido, de que tudo deve seguir o ritmo traçado pelos padrões, começo, meio e fim, surpresa no final, ação nas entrelinhas, não entendo a necessidade de subestimar a capacidade colaborativa do interlocutor, acima de tudo, não entendo a necessidade de subestimar a capacidade criativa do interlocutor. Te dou os elementos você cria a formula, te dou as variáveis e você decifra a equação. Eis aqui descrito a falência e desconstrução do possível e ao mesmo tempo inalcançável sucesso literário, não há pecado em ter uma muleta desde que não se tenha preguiça de andar.
Sou adepto das rupturas bruscas, dos parágrafos intercalados e das palavras que de tão sem sentido acabam por ter um sentido. Esse estilo sempre orbitou em minhas produções, talvez por isso você nunca tenha ouvido falar de mim. Após tudo isso, aquele palhaço desistiu do seu nada, mas aí, quem queria o nada era eu.
“..ainda é cedo amor, mal começastes a conhecer a vida, já anuncias a hora da partida” quando minha vitrola alcançou essa faixa, fui tomado por uma emoção arrepiante que poucos artistas me arrancam, maldito e bendito Cartola, odeio emoções mas admiro quem causa emoções, um contrassenso que me define da primeira letra ao ultimo ponto final. Pensar enlouquece, pense nisso! Eu gostava muito de fazer isso, ouvir Cartola e inventar minhas histórias loucas com bêbados e garrafas, restaurantes e senhoras.
Ainda consigo me lembrar, a ultima e triste vez que falei com dona Joana, enquanto ela varria o chão cantarolando uma cantiga cigana, eu estava em mais uma tarde como qualquer outra e resolvi puxar assunto com aquela senhora, que apesar do semblante sempre amigável me passava a terrível sensação de alguém sofrida. Conversamos sobre tudo, desde sua despedida da Romênia e chegada clandestina em solo americano, contou-me sem muitos detalhes sobre os filhos, eram 4, todos novos quando deixou seu país de origem, nesse ponto da conversa seus olhos marejaram e ela contou sobre o mais novo que perdeu-se na travessia da fronteira, ela nunca mais o viu.
Dizia que o filho há muito perdido, muito embora novo, já demonstrava sem iguais talentos, um artista de alma e coração, tinha a incrível habilidade de aprender sozinho qualquer instrumento musical, pouco antes de se perder havia acabado de ganhar um violino usado, e vinha arranhado aquelas cordas no porão do barco velho que os trouxe da Romênia, dona Joana disse que ainda ouvia àquelas mau-soladas linhas de quem estava conhecendo algo novo até hoje em seus pensamentos. Fiquei de fato comovido com as palavras de dona Joana, que definia o filho como uma alma de sorriso fácil, como alguém que tinha prazer em ver o outro sorrir, como um palhaço.
Atillas Felipe Pires
29/08/2016
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