terça-feira, 17 de outubro de 2017

Lou"cure"-se



Aqui estão todos aqueles frequentadores da noite, todos aqueles que levam a vida desajustada e usada como exemplo a não ser seguido. Aqueles que acordam com ressaca física e  moral, todos aqueles que estão parados na vida. Aqui estão aqueles loucos que são condenados a ver o sol nascer bêbados, aqueles loucos que conversam com personagens noturnos que nunca mais verão na vida, aqui estão aqueles que não sabem o modo correto de viver, aqueles que estão sempre em movimento, a decepção, os errados. Aqui estão todos aqueles que não seguem os padrões, aqueles que estipulam o desvio de valores, todos aqueles que são insanos, profanos, pagãos, aqui estão todos os pinos redondos dos espaços quadrados, aqui estão todos aqueles subjugados, as notícias familiares, a preocupação dos genitores, os desorganizados. Aqui estão todos aqueles que misturam cerveja quente com vinho doce, aqueles que não se preocupam com a roupa amarrotada, todos aqueles que tem um furo no sapato e um botão faltando na camisa, todos aqueles que estão sempre atrasados. Aqui estão todos aqueles loucos, pois apenas eles e somente eles, tem o poder de mudar o mundo, “por que apenas os loucos o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são os que realmente o mudam”.

Atillas Felipe Pires
17\10\2017

Capitulação 3



Acordo cedo coloco as roupas no varal
Enquanto esquento o chá
Escuto o rádio de longe
Aproveito pra pegar o jornal e molhar minha retina
(rotina)

Ainda ontem comprei um novo vinil
Liguei minha vitrola de canto
Deitei olhando para o teto
Pra ouvir apenas o canto que de mim faz parte
(arte)

Rasguei ainda mais minhas barras
Estou com tantos buracos que já não sei contar
Só posso dizer que estou encarando uma barra
Tirei as mangas e fiz um colete, precisava rasgar
(elaborar)

Mudei a disposição dos móveis
Apenas pelo simples prazer de mudar o padrão do lugar
Pendurei novos quadros
Estabeleci uma nova paisagem
Um novo direcionador do meu olhar
O colorido desconexo que me causa miragem
Quero estar aqui, mesmo quando estiver em viagem
(santidade)

Quero aprender a fazer coisas mais delineadas
Reler e dar acabamento
Talvez maneirar um pouco o envolvimento
A conclusão anda sobre constante avaliação
Por favor não aperte com muita força meu coração
(oração)

Entre tragos e estragos
Calos e cigarros
Divagando a luz de brincos
Me escondendo atrás dos fatos
Um personagem bem definido
Minhas artérias sustentam fluxos fracos
Por fim são apenas mais um ser diminuído
Não vejo nada vindo, apenas minhas tentativas indo

Atillas Felipe Pires
17\10\2017

Existe uma casa

Houve um tempo em que eu frequentei uma casa
Uma casa pequena e profana em New Orleans
Nesse tempo eu vivia a pobreza e miséria
A pobreza e a miséria de muitos garotos de New Orleans

Nesse tempo a musica que tocava era The House of the Rising Sun
Meu tempo era vasto meu dinheiro restrito
O que eu podia fazer, era colocar The Animals na maquina de som
Enquanto esperava pelos serviços prestados, na geladeira mosquito e cerveja sempre quente
Os pratos eram sujos e os copos ensebados
As áreas comuns tinham um ar comovente
Enquanto isso, haviam garotos mal falados
Almas perdidas, na maior parte do tempo drogados

Houve um tempo em que eu frequentei uma casa
Uma casa pequena e profana em New Orleans
Eu me lembro do ventilador de teto, um barulho de rosca solta
Lembro da janela com o vidro quebrado na parte de baixo
Lembro também do ar cheio de perfume barato
Garotas pelos cantos com pelos, exibindo suas coxas e sua vida solta

Os anos passavam mais devagar
Meu moicano combinava com minha vida ingrata
As frases das tatuagens eram simbólicas e demoníacas
Nada além de uma ideologia barata
Uma cruz pendurada no pescoço me dava a falsa sensação de proteção
Deus não acompanha as almas entregues a perdição

Houve um tempo em que eu frequentei uma casa
Uma casa pequena e profana em New Orleans
Onde os olhares eram sem brilho
Onde todas as almas eram vazias como arvore oca
O espirito que vagava por ali era pagão
E eu estava sozinho
Eu também vagava, só que na magnitude da minha solidão

Naquele tempo eu costumava chorar antes de dormir
Enquanto ouvia no quarto ao lado
Alguém gemer e outro sorrir
As vezes eu olhava no espelho e me via ali também
Fazendo alguém gemer até eu mesmo sorrir
Eu não era eu mesmo, eu fedia a outrem
Naquele tempo eu costumava andar pelo vale
Eu não tinha medo de mal algum
Por que eu sempre fui o mais filho da puta do lugar
Eu trocava meu relógio por um góle
No final das contas eu sei que vale

Atillas Pires
16\10\2017

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Sir Lock



Tarso Est. S. Acord– Nem um caso operante - 22 de novembro de 1963:

São 5h30 da manhã, estou caminhando apenas para aguçar minhas reflexões, não há nenhum caso em andamento..

As ruas estão gritando assim como seus cachorros quando dilacerados por pneus de caminhões dirigidos por motoristas drogados desesperados para entregar suas cargas. Na sarjeta uma correnteza de água fluvial de alguma boca de lobo que vomita ratos e doenças fatais, eu entendo as entranhas da cidade, eu consigo redigir sua real identidade e expor todas as suas mais infeccionadas feridas. Hoje as bancas de jornais amanheceram como celebridades, formaram filas para comprar a manchete do assassinato do presidente Kennedy, o sentimento humano em apreciar a carnificina me remete a conceitos antropólogos, ainda somos animais de rapina que tem fome como desnutridos diante dos banquetes trazidos pela violência social. Ainda não defini muito bem o que acho desse acontecimento histórico, acredito que existe profundidades maiores a serem percorridas antes de qualquer definição, nada que o assassinato brutal de um presidente não peça naturalmente.

Tenho passado as madrugadas acordado, essa em específico foi bastante difícil, meu fumo acabou e há lugares que o uísque por si só não consegue me levar. Fiz algumas anotações sobre alguns fatos políticos, refleti sobre alguns assuntos que possam me ser útil em algum contra-argumento qualquer. Nada relevante, apenas demonstração vaga de conhecimento geral, o pensamento clínico que me da credibilidade na hora de ganhar um novo cliente.

Continuo minha caminhada, minhas botas impermeáveis finalmente se mostraram uteis, nesse amanhecer nublado as ruas de paralelepípedo estão todas empoçadas, já são quase 6h00 da manhã e ainda esta tudo bem escuro, estou caminhando sem muito destino, lentamente, escondido por meu chapéu-toca, e meu sobretudo felpudo, as ruas estão exalando fumaça branca dos bueiros, algumas reação química pela noite quente e o amanhecer chuvoso, ascendo meu cachimbo e dou algumas tragadas profundas, as ruas não estão me oferecendo muito entretenimento, algumas putas passaram gargalhando, um habitante noturno dos becos se ajeita no seu jornal, um sono profundo e sem sonhos.

Os assassinatos não dão indícios de que vão parar, algumas mortes sistemáticas tem acontecido de maneira misteriosa nas ruas da cidade, talvez eu tenha que antecipar minhas caminhadas caso queira capturar algum evento, agora, quase 7h00 da manhã, não vejo mais atividades suspeitas, volto ao meu apartamento inicio meu ritual para dormir.

Deixo meu chapéu-toca na arara ao lado da porta, junto com meu sobretudo felpudo, ascendo um pouco mais meu cachimbo sem colocar mais fumo, coloco o chá pra esquentar, enquanto isso, vou até o banheiro e coloco pasta na escova, o prédio esta bem silencioso, olho pela janela do banheiro e vejo o hall inferior deserto, usualmente consigo expectar alguns trabalhadores saindo para pegar o ônibus na avenida enfrente, mas curiosamente hoje não há movimento algum, são 7h40 da manhã, o despertador da sala começa a gritar, esta na hora de começar a dormir. Termino minhas coisas no banheiro, e vou até a sala, que também é o quarto, o meu barril de água esta imóvel, consigo ver meu reflexo do espelho d´agua, entro dentro do barril, e fico imóvel, logo a água se acalma como antes, adormeço lentamente e de maneira imperceptível. Meus sentidos dormem mas minha mente viaja, tenho vários sonhos, sempre relacionado a mutilações e furos de bala, doces presentes deixado pelo 27 anos de perito científico da policia legista do Estado de São Paulo.
Tem essa garota, que de todos os casos que acompanhei foi o qual mais me chocou, estudante do curso de psicologia da faculdade Metropolitana, loira de olhos claros, perfume doce e muito bem servida de coxas e seios, filha da alta sociedade da cidade, muito bem criada, obtivemos acesso após o acontecido a seu histórico, morou por 3 anos na França e havia acabado de voltar ao Brasil. Iniciaram-se as aulas, empolgada com a ideia de um dia se tornar psicóloga, demonstrando sempre muito interesse, participativa nas aulas, definitivamente um exemplar bastante gracioso da espécie. Quando a encontramos, estava com as pernas amarradas ao pescoço pela parte da frente do tronco, suas costelas havia explodido sua delicada dorçal, o sangue estava saindo por todas as cavidades, olhos, nariz, ouvidos e boca, uma visão bastante perturbadora, ela foi deixada no banheirinho do fundo da faculdade, que por sinal, ficou o resto do ano sem aula – parte pelos alunos que se foram, parte por nossa atividade de investigação. Quem fez aquilo queria nos deixar uma mensagem, mas até hoje, o mais triste, é que não alcançamos nenhum indício mesmo que vagamente levasse ao executor daquele brutal assassinato.
Esse foi meu ultimo caso como membro da administração de segurança pública, logo em seguida resolvi abandonar o Estado e passar a agir de maneira privada. Mas confesso que ainda hoje, em momentos que estou sem casos em operação, penso em retomar as investigações do caso “A loira da Metropolitana” que foi como o chamamos, por vezes, me pego em meio a devaneios noturnos nas milhões de possibilidades e dos motivos daquele massacre individual, não havia sinais de roubo, ou usurpação carnal, não havia indícios  de violência ou sinais de luta, havia apenas uma obra de arte sangrenta e sem nenhum motivo aparente, aquele trabalho havia sido realizado por um profissional, nenhum aluno ouviu ou viu algo suspeito, os exames mostraram que o assassinato havia ocorrido 3 ou 4 horas antes de a encontrarem, o que nos levava as 14h da tarde, hora do intervalo dos alunos do período vespertino. Tudo era um mistério, um mistério que meus 27 anos de experiência não chegou nem perto de descobrir, esse caso me impediu de fechar minha carreira com louvor. Isso ainda me chateia bastante, como se ainda não tivesse de fato encerrado minha carreira pública.
Basicamente meu trabalho é fazer para aqueles que me pagam, aquilo que por vezes a policia não faz, aqueles assassinatos que são dados como sem solução e que deixam a família com sede de justiça, costumo cobrar por etapas, um adiantamento para as custas da investigação, uma parte quando encontro a quinta prova que indique algum caminho, e a maior parte quando resolvo o caso e entrego de bandeja a cabeça do executor para a policia finalmente fazer seu trabalho, apenas algemá-lo. Os anos 60 tem me sido muito produtivo, nos últimos 10 anos, tempo que me aposentei da policia, consegui resolver um total de 12 casos grandes, uma média de mais de um caso por ano, meu único problema tem sido a conta bancária, não tenho a quem deixar os ordenados desses resultados, e meus gostos são simples.
Despertei por volta das 18h da tarde, a hora de sair do barril é sempre uma bagunça, inevitavelmente acabo molhando meu tapete, mas com os anos de prática tenho diminuído os estragos dia após dia, meu primeiro ato do dia é ascender o meu cachimbo, mas como estou sem fumo, enchi meu copo de Bourbon com um pouco de água, bebi devagar enquanto lia o jornal de hoje cedo: “Mortes em série: Polícia desconfia de guerra entre gangues”.
Já matei mais de uma vez, não guardo nenhum tipo de mágoa ou ressentimento, foram atitudes necessárias e legais, nunca cometi um crime, mas por anos me alimentei da fonte de renda gerada por eles nessa comunidade violenta. Estamos vivendo talvez os piores tempos, isso me assusta as vezes, me faz lembrar da história dos Nefilins, quando a orda de violência se intensificou, veio o dilúvio e matou á todos. Não acredito naquela baboseira de que a noite é mais escura antes de amanhecer, para mim, a escuridão intensa sempre esconde alguém com uma faca na mão pronto para sentir o mórbido prazer de lhe perfurar o esôfago, girar a faca, e puxá-la para cima até atingir rins, intestino, retirar o aço e perfurar novamente na altura do peito, então, não venha me dizer que a noite é mais escura antes de amanhecer, o que o amanhecer traria de bom? Apenas a luz do dia para iluminar o espetáculo noturno, mostrar ao sedento público, as entranhas fedorentas do corpo sem vida a horas.

Era no ano de 1957, eu estava investigando o assassinato de um senhora que fora deixada perfurada de bala na avenida Roscoew, foram dois tiros, um na altura da barriga e outro bem no centro do peito, trabalhei por óbvio com a possibilidade de latrocínio – era moda na época. Naquele dia acordei cedo e fui ao local do crime, procedimento básico de inicio de investigação, olhei as marcas de sangue no chão, ela teve tempo de correr, provavelmente tomou o primeiro tiro, correu, depois foi alcançada e tomou o segundo, havia concluído que foi de fato um homicídio, não um latrocínio como previa inicialmente, havia marcas de sangue no início da rua, que foram criando um rastro até o local onde ela foi encontrada sem vida. Houve perseguição, realmente, ela havia sido assassinada. Curiosamente, foi nesse mesmo dia que matei pela primeira vez!
Não sou uma pessoa de hábitos diurnos, com o tempo desenvolvi uma espécie de alergia ao sol, quando me atrevo a ir buscar o jornal qualquer horário entre as 10h e as 16h sinto minha pele exageradamente branca queimar instantaneamente e ficar vermelha quase que na mesma hora, sendo assim, costumo dormir durante o dia ou fazer anotações, e quem sabe, escrever minhas memórias na velha máquina de escrever. Por vezes me pego com um cachimbo, caindo da boca, sozinho com a luz da abajur escrevendo por horas e horas, basicamente escrevo sobre meus antigos casos. Uma coisa que aprendi nesses anos sobre criminosos é que eles tem mentes bem parecidas, quase sempre há traços em comum nos mais diversos crimes, escrevê-los em detalhe exercita minha memória e faz valer minha experiência.
Era quase 18h40 da tarde, já conseguia ouvir o barulho dos moradores do prédio chegarem do trabalho, quase todos chegavam entre as 17h00 e as 19h00, eu – apenas por diversão – anotava a rotina de cada um deles, a variação de horário entre os dias era britanicamente pequena, fato que me dava pena deles, robôs capitalistas fazendo girar uma engrenagem sangrenta e oleosa, sem nenhuma emoção, sem nenhum risco, apenas a segurança ilusória da carteira de trabalho assinada. Por isso, já matei!
Acho que a morte do presidente americano irá alterar a direção dos recursos  anglicanos nos próximos anos, fora um ataque direto, uma forma ousada de demonstração de acesso, além do ato, havia ali uma mensagem, havia li uma subliminar questão que deixava bem claro ao mundo: “quem vigia os vigilantes?” Seja lá quem disparou esse tiro, a única certeza é que estava muito ciente da cadeia de eventos que irá se desenrolar, uma agressão direta ao seio da nação mais violenta do mundo, aquele tiro iria custar muito caro, como legista posso dizer, o buraco que a bala faz na entrada e bem menor que o estrago que faz na saída, muita coisa estaria por vir, e o bom de não ser americano? Tomar mais um gole e ficar sentado assistindo os próximos capítulos desse filme de ação dramática.
A noite vem chegando com a arrogância de sempre, as luzes vão se apagando na medida que o proletariado vai cumprindo sua rotina de dormir cedo, meu turno esta prestes a começar, costumo sair para minhas caminhadas noturnas entre as 23h e 00h, paro em um bar que tem próximo ao meu prédio, converso com alguns bêbados, finjo vagamente uma vida social, falo de filhos, esposa e família, tenho um cachorro imaginário que chama Ragnar, o dom da mentira esta nos detalhes, quando a madrugada esta avançada, me despeço dos meus amigos encharcados, e vou em direção as regiões mais violentas da cidade. Sou um frequentador do risco, me alimento do medo que não tenho, me escondo nas sombras que faço com minha própria presença, eu sou o terror da noite, eu assusto, eu sou a violência chegando calma e lentamente no beco molhado, nas esquinas mau-iluminadas, eu sou aquele conhecido mal necessário, a química danosa que mata o câncer. Não se combate o crime com abraços e livros!
Não tive uma infância comum, meu pai era cozinheiro da marinha, nunca soube lidar com essa frustação, se alistou para ser um mergulhador de busca e passou a vida fritando linguiça, frango e ovo de codorna, sua barriga aumentou, seu cabelo se foi, e ele virou o que se chama exatamente de: cozinheiro de bordo! Minha mãe não trabalhava, era a exemplar dona de casa, limpava, passava, arrumava minha cama e de meus irmãos, era primorosa e muito cuidadosa com todos nós, e sempre estava disponível quando precisávamos, exceto quando estava na cama do tenente Marcos – chefe do papai. Tive em alguns momentos 4 irmãos, mas dois morreram num acidente de carro em 1955, os outros dois nunca mais tive notícia, desde que deixei a pequena vila que fui criado. Minha educação foi toda forjada no subúrbio de Vila Virgem, estudei em internato público, e aprendi tudo o que não fazer até terminar todos os níveis.
As vezes ainda surgem relâmpagos dos olhos e nariz sangrando, talvez por ser meu ultimo caso antes da efetiva aposentadoria, sinto como se minha carreira não tivesse tido um ponto final, aquele caso insolúvel ainda me persegue mesmo depois de tanto tempo, no decorrer da minha carreira eu fui exposto a muitas cenas perturbadoras, os anos de experiência me fizeram indiferente a tudo isso, mas aquela imagem, por algum motivo, me assombra mais do que qualquer outra coisa. O branco dos olhos vermelho, aliás, os olhos ainda aberto, as linhas de sangue percorrendo o rosto, descendo até o colo do seio, aquela estado de mórbida arte, tudo isso atrelado ao fato de que nunca tivemos uma prova sequer do que pode ter acontecido, nenhum um indício, uma indicação, um vestígio, nada, apenas aquela imagem que persegue minhas noites (dias) de sono. Uma pedra no sapato do homem de 200 casos.
(Enquanto isso..)
Confesso que estou bem animada, apesar dos problemas sociais e de todos os inconvenientes do Brasil, uma temporada em solo europeu inevitavelmente nos faz ter saudade do Brasaa!! Meu ano letivo começa em São Paulo daqui alguns dias, vou ter tempo de ficar em casa sem fazer nada..
Meu nome é Valériana Constâncio, nasci no Rio Grande do Sul, passei dois anos estudando na França, e estou de volta ao Brasil, acima você já ouviu falar de mim, talvez não da forma como eu gostaria, mas para que tudo isso possa fazer algum sentido, vou lhes pedir que afaste da cabeça de vocês essa imagem descrita por esse perturbado e falido investigador particular. As circunstâncias da minha morte vão bem mais além do que o estado que meu corpo foi deixado.
Nasci numa família de certa forma bem tradicional, meu pai criou uma das maiores empresas de exportação de componentes eletrônicos do Brasil, nosso nome tem alguma influência. Decidi vir estudar em São Paulo por que meu pai sempre foi um homem muito rígido e de poucas negociações, eu quis sair por aí voando com as minhas próprias asas, só não sabia que o rasante seria direto nos braços de um psicopata em série – pretendo descrever o que me aconteceu, de um outra ótica, mas antes disso, creio ser importante lhes colocar a par de alguns eventos.
Eu tinha apenas 18 anos quando fui morar fora do país, uma escolha ousada, posteriormente se mostraria precipitada e fatal. Nós brasileiro temos as vezes o péssimo hábito de achar que tudo o que temos em nosso país é pior, inclusive as pessoas, como se nos sentíssemos imunes aos riscos de outro país pelo simples fato de morarmos num país violento. Ficou confuso! Deixa eu tentar melhorar isso, o que quero dizer é que como brasileiros acostumados com a violência diária exposta nos telejornais, acabamos ignorando o fato de que existem outros lugares que também são violentos, aquele tipo famoso de fala: “sou brasileiro porra, eu como bala perdida no café da manhã”. Um fatal erro no caso desta que vos fala! Digo fatal por que já sabem o meu final nessa passagem.

Yuli era o homem perfeito, nos conhecemos num café próximo a Praça de Terreaux em Lyon, ele estava lendo um livro com as pernas cruzadas e fumando um cigarro, sempre me fascinei por intelectualidade que exala, e foi exatamente isso que me cativou inevitavelmente no instante em que mirei meus olhares na direção dele, olhos azuis, cabelos escuros e encaracolados, foi o início do fim, ele era preparado para seduzir, e uma jovem brasileira de 18 anos era sem dúvida uma preza muito fácil. Não vou aqui me eximir da clara culpa que tive nos eventos que ocorreram, mas também, acredito que enquanto seres humanos não devemos partir do pressuposto de que as pessoas são más, e de que temos que prever a maldade e insanidade mental em qualquer um, ainda mais sendo alguém com todos aqueles atrativos – mudei de opinião, mas agora já é tarde.
Deixe-me aprofundar um pouco mais nesses acontecimentos..

Atillas Felipe Pires
04\10\2017

Cowboy não chora

Cowboys não choram
E heróis não morrem
Quando a chuva cair
Você tem que estar pronto
Eu nasci por você
Meu amor esse é o ponto

Sou cowboy sem botas
Sou herói mortal

E quando a chuva chegar
O herói não vai voar
Quando a chuva chegar
O cowboy vai chorar

Quando a janela se molha
Lá de dentro você vai olhar
Essa chuva cair
Vejo as poças formar
Prometi a mim mesmo
Sou cowboy não vou chorar
Por que eu sei que
Cowboys não choram
E heróis não morrem

Quando eu olhar la de dentro
Vou ver as poças formar
Quando a chuva chegar
Meu amor, vou me preparar
Eu perdi o meu tempo
Hoje não sei cavalgar
Eu perdi o meu tempo
Meu amor já não posso voar

Falso ponto geodésico

Qual meu centro geodésico?
O que bate forte na alma quando sinto seu sorriso com calma
E as palavras que raramente sei dizer
Que quando me vem o sabor tétrico
Um muro de Berlim se faz em mim
Onde a razão se antagoniza ao coração
E meu corpo se recompõem lépido
Com as analogias que me camuflam da verdade nua
Quando no fundo o que quero dizer
É que você brilha em meus olhos como a lua
Dessa luz tão presente, seguem os presentes
É coisa nossa
Desse sono que te toma
Sem reparar me pego olhando seus olhos de repente
O reflexo solar
Deixando no castanho claro a sombra dos seus cílios
Que me invadem como dois rios
Esse mundo esta mesmo invertido
A coincidência do sentido
“eaí dormiu comigo?”
Dessa vez não, um toque simples no coração
Sem aviso, no segundo encontro
Onde eu te encontro?
Aprendi que nessa vida
As coisas acontecem sem tapete de boa vinda
Um impacto seco e sem aviso
Por favor
Venha, venha sim
Venha comigo
E não deixa de trazer seu sorriso

Atillas Felipe Pires
10/10/2016