Tarso Est. S. Acord– Nem um caso
operante - 22 de novembro de 1963:
São 5h30 da manhã, estou
caminhando apenas para aguçar minhas reflexões, não há nenhum caso em
andamento..
As ruas estão gritando assim como
seus cachorros quando dilacerados por pneus de caminhões dirigidos por
motoristas drogados desesperados para entregar suas cargas. Na sarjeta uma
correnteza de água fluvial de alguma boca de lobo que vomita ratos e doenças
fatais, eu entendo as entranhas da cidade, eu consigo redigir sua real
identidade e expor todas as suas mais infeccionadas feridas. Hoje as bancas de
jornais amanheceram como celebridades, formaram filas para comprar a manchete
do assassinato do presidente Kennedy, o sentimento humano em apreciar a
carnificina me remete a conceitos antropólogos, ainda somos animais de rapina
que tem fome como desnutridos diante dos banquetes trazidos pela violência
social. Ainda não defini muito bem o que acho desse acontecimento histórico,
acredito que existe profundidades maiores a serem percorridas antes de qualquer
definição, nada que o assassinato brutal de um presidente não peça
naturalmente.
Tenho passado as madrugadas
acordado, essa em específico foi bastante difícil, meu fumo acabou e há lugares
que o uísque por si só não consegue me levar. Fiz algumas anotações sobre
alguns fatos políticos, refleti sobre alguns assuntos que possam me ser útil em
algum contra-argumento qualquer. Nada relevante, apenas demonstração vaga de
conhecimento geral, o pensamento clínico que me da credibilidade na hora de
ganhar um novo cliente.
Continuo minha caminhada, minhas
botas impermeáveis finalmente se mostraram uteis, nesse amanhecer nublado as
ruas de paralelepípedo estão todas empoçadas, já são quase 6h00 da manhã e
ainda esta tudo bem escuro, estou caminhando sem muito destino, lentamente,
escondido por meu chapéu-toca, e meu sobretudo felpudo, as ruas estão exalando
fumaça branca dos bueiros, algumas reação química pela noite quente e o
amanhecer chuvoso, ascendo meu cachimbo e dou algumas tragadas profundas, as
ruas não estão me oferecendo muito entretenimento, algumas putas passaram
gargalhando, um habitante noturno dos becos se ajeita no seu jornal, um sono
profundo e sem sonhos.
Os assassinatos não dão indícios
de que vão parar, algumas mortes sistemáticas tem acontecido de maneira
misteriosa nas ruas da cidade, talvez eu tenha que antecipar minhas caminhadas
caso queira capturar algum evento, agora, quase 7h00 da manhã, não vejo mais
atividades suspeitas, volto ao meu apartamento inicio meu ritual para dormir.
Deixo meu chapéu-toca na arara ao
lado da porta, junto com meu sobretudo felpudo, ascendo um pouco mais meu
cachimbo sem colocar mais fumo, coloco o chá pra esquentar, enquanto isso, vou
até o banheiro e coloco pasta na escova, o prédio esta bem silencioso, olho
pela janela do banheiro e vejo o hall inferior deserto, usualmente consigo expectar
alguns trabalhadores saindo para pegar o ônibus na avenida enfrente, mas
curiosamente hoje não há movimento algum, são 7h40 da manhã, o despertador da
sala começa a gritar, esta na hora de começar a dormir. Termino minhas coisas
no banheiro, e vou até a sala, que também é o quarto, o meu barril de água esta
imóvel, consigo ver meu reflexo do espelho d´agua, entro dentro do barril, e
fico imóvel, logo a água se acalma como antes, adormeço lentamente e de maneira
imperceptível. Meus sentidos dormem mas minha mente viaja, tenho vários sonhos,
sempre relacionado a mutilações e furos de bala, doces presentes deixado pelo
27 anos de perito científico da policia legista do Estado de São Paulo.
Tem essa garota, que de todos os
casos que acompanhei foi o qual mais me chocou, estudante do curso de
psicologia da faculdade Metropolitana, loira de olhos claros, perfume doce e
muito bem servida de coxas e seios, filha da alta sociedade da cidade, muito
bem criada, obtivemos acesso após o acontecido a seu histórico, morou por 3
anos na França e havia acabado de voltar ao Brasil. Iniciaram-se as aulas,
empolgada com a ideia de um dia se tornar psicóloga, demonstrando sempre muito
interesse, participativa nas aulas, definitivamente um exemplar bastante
gracioso da espécie. Quando a encontramos, estava com as pernas amarradas ao
pescoço pela parte da frente do tronco, suas costelas havia explodido sua
delicada dorçal, o sangue estava saindo por todas as cavidades, olhos, nariz,
ouvidos e boca, uma visão bastante perturbadora, ela foi deixada no banheirinho
do fundo da faculdade, que por sinal, ficou o resto do ano sem aula – parte
pelos alunos que se foram, parte por nossa atividade de investigação. Quem fez
aquilo queria nos deixar uma mensagem, mas até hoje, o mais triste, é que não
alcançamos nenhum indício mesmo que vagamente levasse ao executor daquele
brutal assassinato.
Esse foi meu ultimo caso como
membro da administração de segurança pública, logo em seguida resolvi abandonar
o Estado e passar a agir de maneira privada. Mas confesso que ainda hoje, em
momentos que estou sem casos em operação, penso em retomar as investigações do
caso “A loira da Metropolitana” que foi como o chamamos, por vezes, me pego em
meio a devaneios noturnos nas milhões de possibilidades e dos motivos daquele
massacre individual, não havia sinais de roubo, ou usurpação carnal, não havia
indícios de violência ou sinais de luta, havia apenas uma obra de arte
sangrenta e sem nenhum motivo aparente, aquele trabalho havia sido realizado por
um profissional, nenhum aluno ouviu ou viu algo suspeito, os exames mostraram
que o assassinato havia ocorrido 3 ou 4 horas antes de a encontrarem, o que nos
levava as 14h da tarde, hora do intervalo dos alunos do período vespertino.
Tudo era um mistério, um mistério que meus 27 anos de experiência não chegou
nem perto de descobrir, esse caso me impediu de fechar minha carreira com
louvor. Isso ainda me chateia bastante, como se ainda não tivesse de fato
encerrado minha carreira pública.
Basicamente meu trabalho é fazer
para aqueles que me pagam, aquilo que por vezes a policia não faz, aqueles
assassinatos que são dados como sem solução e que deixam a família com sede de
justiça, costumo cobrar por etapas, um adiantamento para as custas da
investigação, uma parte quando encontro a quinta prova que indique algum
caminho, e a maior parte quando resolvo o caso e entrego de bandeja a cabeça do
executor para a policia finalmente fazer seu trabalho, apenas algemá-lo. Os
anos 60 tem me sido muito produtivo, nos últimos 10 anos, tempo que me
aposentei da policia, consegui resolver um total de 12 casos grandes, uma média
de mais de um caso por ano, meu único problema tem sido a conta bancária, não
tenho a quem deixar os ordenados desses resultados, e meus gostos são simples.
Despertei por volta das 18h da
tarde, a hora de sair do barril é sempre uma bagunça, inevitavelmente acabo
molhando meu tapete, mas com os anos de prática tenho diminuído os estragos dia
após dia, meu primeiro ato do dia é ascender o meu cachimbo, mas como estou sem
fumo, enchi meu copo de Bourbon com um pouco de água, bebi devagar enquanto lia
o jornal de hoje cedo: “Mortes em série: Polícia desconfia de guerra entre
gangues”.
Já matei mais de uma vez, não
guardo nenhum tipo de mágoa ou ressentimento, foram atitudes necessárias e
legais, nunca cometi um crime, mas por anos me alimentei da fonte de renda
gerada por eles nessa comunidade violenta. Estamos vivendo talvez os piores
tempos, isso me assusta as vezes, me faz lembrar da história dos Nefilins, quando
a orda de violência se intensificou, veio o dilúvio e matou á todos. Não
acredito naquela baboseira de que a noite é mais escura antes de amanhecer,
para mim, a escuridão intensa sempre esconde alguém com uma faca na mão pronto
para sentir o mórbido prazer de lhe perfurar o esôfago, girar a faca, e puxá-la
para cima até atingir rins, intestino, retirar o aço e perfurar novamente na
altura do peito, então, não venha me dizer que a noite é mais escura antes de
amanhecer, o que o amanhecer traria de bom? Apenas a luz do dia para iluminar o
espetáculo noturno, mostrar ao sedento público, as entranhas fedorentas do
corpo sem vida a horas.
Era no ano de 1957, eu estava
investigando o assassinato de um senhora que fora deixada perfurada de bala na
avenida Roscoew, foram dois tiros, um na altura da barriga e outro bem no
centro do peito, trabalhei por óbvio com a possibilidade de latrocínio – era
moda na época. Naquele dia acordei cedo e fui ao local do crime, procedimento
básico de inicio de investigação, olhei as marcas de sangue no chão, ela teve
tempo de correr, provavelmente tomou o primeiro tiro, correu, depois foi
alcançada e tomou o segundo, havia concluído que foi de fato um homicídio, não
um latrocínio como previa inicialmente, havia marcas de sangue no início da
rua, que foram criando um rastro até o local onde ela foi encontrada sem vida.
Houve perseguição, realmente, ela havia sido assassinada. Curiosamente, foi
nesse mesmo dia que matei pela primeira vez!
Não sou uma pessoa de hábitos
diurnos, com o tempo desenvolvi uma espécie de alergia ao sol, quando me atrevo
a ir buscar o jornal qualquer horário entre as 10h e as 16h sinto minha pele
exageradamente branca queimar instantaneamente e ficar vermelha quase que na
mesma hora, sendo assim, costumo dormir durante o dia ou fazer anotações, e
quem sabe, escrever minhas memórias na velha máquina de escrever. Por vezes me
pego com um cachimbo, caindo da boca, sozinho com a luz da abajur escrevendo
por horas e horas, basicamente escrevo sobre meus antigos casos. Uma coisa que
aprendi nesses anos sobre criminosos é que eles tem mentes bem parecidas, quase
sempre há traços em comum nos mais diversos crimes, escrevê-los em detalhe
exercita minha memória e faz valer minha experiência.
Era quase 18h40 da tarde, já
conseguia ouvir o barulho dos moradores do prédio chegarem do trabalho, quase
todos chegavam entre as 17h00 e as 19h00, eu – apenas por diversão – anotava a
rotina de cada um deles, a variação de horário entre os dias era britanicamente
pequena, fato que me dava pena deles, robôs capitalistas fazendo girar uma
engrenagem sangrenta e oleosa, sem nenhuma emoção, sem nenhum risco, apenas a
segurança ilusória da carteira de trabalho assinada. Por isso, já matei!
Acho que a morte do presidente
americano irá alterar a direção dos recursos anglicanos nos próximos
anos, fora um ataque direto, uma forma ousada de demonstração de acesso, além
do ato, havia ali uma mensagem, havia li uma subliminar questão que deixava bem
claro ao mundo: “quem vigia os vigilantes?” Seja lá quem disparou esse tiro, a
única certeza é que estava muito ciente da cadeia de eventos que irá se
desenrolar, uma agressão direta ao seio da nação mais violenta do mundo, aquele
tiro iria custar muito caro, como legista posso dizer, o buraco que a bala faz
na entrada e bem menor que o estrago que faz na saída, muita coisa estaria por
vir, e o bom de não ser americano? Tomar mais um gole e ficar sentado
assistindo os próximos capítulos desse filme de ação dramática.
A noite vem chegando com a
arrogância de sempre, as luzes vão se apagando na medida que o proletariado vai
cumprindo sua rotina de dormir cedo, meu turno esta prestes a começar, costumo
sair para minhas caminhadas noturnas entre as 23h e 00h, paro em um bar que tem
próximo ao meu prédio, converso com alguns bêbados, finjo vagamente uma vida
social, falo de filhos, esposa e família, tenho um cachorro imaginário que
chama Ragnar, o dom da mentira esta nos detalhes, quando a madrugada esta
avançada, me despeço dos meus amigos encharcados, e vou em direção as regiões
mais violentas da cidade. Sou um frequentador do risco, me alimento do medo que
não tenho, me escondo nas sombras que faço com minha própria presença, eu sou o
terror da noite, eu assusto, eu sou a violência chegando calma e lentamente no
beco molhado, nas esquinas mau-iluminadas, eu sou aquele conhecido mal
necessário, a química danosa que mata o câncer. Não se combate o crime com
abraços e livros!
Não tive uma infância comum, meu
pai era cozinheiro da marinha, nunca soube lidar com essa frustação, se alistou
para ser um mergulhador de busca e passou a vida fritando linguiça, frango e
ovo de codorna, sua barriga aumentou, seu cabelo se foi, e ele virou o que se
chama exatamente de: cozinheiro de bordo! Minha mãe não trabalhava, era a
exemplar dona de casa, limpava, passava, arrumava minha cama e de meus irmãos,
era primorosa e muito cuidadosa com todos nós, e sempre estava disponível
quando precisávamos, exceto quando estava na cama do tenente Marcos – chefe do
papai. Tive em alguns momentos 4 irmãos, mas dois morreram num acidente de
carro em 1955, os outros dois nunca mais tive notícia, desde que deixei a
pequena vila que fui criado. Minha educação foi toda forjada no subúrbio de
Vila Virgem, estudei em internato público, e aprendi tudo o que não fazer até
terminar todos os níveis.
As vezes ainda surgem relâmpagos
dos olhos e nariz sangrando, talvez por ser meu ultimo caso antes da efetiva
aposentadoria, sinto como se minha carreira não tivesse tido um ponto final,
aquele caso insolúvel ainda me persegue mesmo depois de tanto tempo, no
decorrer da minha carreira eu fui exposto a muitas cenas perturbadoras, os anos
de experiência me fizeram indiferente a tudo isso, mas aquela imagem, por algum
motivo, me assombra mais do que qualquer outra coisa. O branco dos olhos
vermelho, aliás, os olhos ainda aberto, as linhas de sangue percorrendo o
rosto, descendo até o colo do seio, aquela estado de mórbida arte, tudo isso
atrelado ao fato de que nunca tivemos uma prova sequer do que pode ter
acontecido, nenhum um indício, uma indicação, um vestígio, nada, apenas aquela
imagem que persegue minhas noites (dias) de sono. Uma pedra no sapato do homem
de 200 casos.
(Enquanto isso..)
Confesso que estou bem animada,
apesar dos problemas sociais e de todos os inconvenientes do Brasil, uma
temporada em solo europeu inevitavelmente nos faz ter saudade do Brasaa!! Meu
ano letivo começa em São Paulo daqui alguns dias, vou ter tempo de ficar em
casa sem fazer nada..
Meu nome é Valériana Constâncio,
nasci no Rio Grande do Sul, passei dois anos estudando na França, e estou de
volta ao Brasil, acima você já ouviu falar de mim, talvez não da forma como eu
gostaria, mas para que tudo isso possa fazer algum sentido, vou lhes pedir que
afaste da cabeça de vocês essa imagem descrita por esse perturbado e falido
investigador particular. As circunstâncias da minha morte vão bem mais além do
que o estado que meu corpo foi deixado.
Nasci numa família de certa forma
bem tradicional, meu pai criou uma das maiores empresas de exportação de componentes
eletrônicos do Brasil, nosso nome tem alguma influência. Decidi vir estudar em
São Paulo por que meu pai sempre foi um homem muito rígido e de poucas
negociações, eu quis sair por aí voando com as minhas próprias asas, só não
sabia que o rasante seria direto nos braços de um psicopata em série – pretendo
descrever o que me aconteceu, de um outra ótica, mas antes disso, creio ser
importante lhes colocar a par de alguns eventos.
Eu tinha apenas 18 anos quando
fui morar fora do país, uma escolha ousada, posteriormente se mostraria
precipitada e fatal. Nós brasileiro temos as vezes o péssimo hábito de achar
que tudo o que temos em nosso país é pior, inclusive as pessoas, como se nos
sentíssemos imunes aos riscos de outro país pelo simples fato de morarmos num
país violento. Ficou confuso! Deixa eu tentar melhorar isso, o que quero dizer
é que como brasileiros acostumados com a violência diária exposta nos
telejornais, acabamos ignorando o fato de que existem outros lugares que também
são violentos, aquele tipo famoso de fala: “sou brasileiro porra, eu como bala
perdida no café da manhã”. Um fatal erro no caso desta que vos fala! Digo fatal
por que já sabem o meu final nessa passagem.
Yuli era o homem perfeito, nos
conhecemos num café próximo a Praça de Terreaux em Lyon, ele estava lendo um
livro com as pernas cruzadas e fumando um cigarro, sempre me fascinei por
intelectualidade que exala, e foi exatamente isso que me cativou
inevitavelmente no instante em que mirei meus olhares na direção dele, olhos azuis,
cabelos escuros e encaracolados, foi o início do fim, ele era preparado para
seduzir, e uma jovem brasileira de 18 anos era sem dúvida uma preza muito
fácil. Não vou aqui me eximir da clara culpa que tive nos eventos que
ocorreram, mas também, acredito que enquanto seres humanos não devemos partir
do pressuposto de que as pessoas são más, e de que temos que prever a maldade e
insanidade mental em qualquer um, ainda mais sendo alguém com todos aqueles
atrativos – mudei de opinião, mas agora já é tarde.
Deixe-me aprofundar um pouco mais
nesses acontecimentos..
Atillas Felipe Pires
04\10\2017
Nenhum comentário:
Postar um comentário