quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Desculpe a hora, mas tem vaga pra manhã?



O cheiro verde do ar molhado
Sinto como se pudesse sentir o meu melhor lado
A madeira fresca da mesa centenária
O café forte com a fumaça imaginária

Lareira queimando a noite inteira
O estalo do fogo fazendo sua arte verdadeira
A luz fraquejando no interior do quarto
Não te quero por inteira, já basta um quarto

Realize, deslize, multiplique
Tudo que lhe vier bem, não só o que convém
Mentalize, tranquilize se replique
Não te quero o dia inteiro, me basta um piquenique

Já sei como podemos esperar na fila
Um cigarro apenas para cada um, uma brisa tranquila

A noite é um criança e temos muitos lugares pra visitar
Já sei o que faremos, uma garrafa de vinho em cada bar
Na volta te deixo dirigir, não temos com o que se preocupar
A não ser pelo fato de você estar sem óculos e a neblina dominar o lugar

Deixei muito claro?
Até demais, preciso pensar
Me desculpe, estou arrasada
Ok, vamos enfrente
Até a próxima parada

Atillas Felipe Pires
25\10\2017

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Solte o ar



Ó quantos gritos foram contidos
Entre os suspiros e as tentativas
Todas as palavras com ares comprimidos
E os dizeres transversais reprimidos

Todos os fôlegos que ficaram no pulmão
Os respiros profundos que não foram tão fundo
Tudo aquilo que se acorrentou na interna prisão
Mas que no dna cravou um corte profundo

Deitados frente a frente no tapete da sala
Quantas palavras se passa na fala
Mas nem um som é proferido
No fim, apenas um peito ferido

Quanta indiscrição de quem inventou a solidão

Atillas Felipe Pires
23\10\2017

Um grito de canto



No recanto que se tem no canto
Perdido entre o quanto e o tanto
Animadores de festivais banais
Suspiros joviais letras grandes nos jornais

Te deixo dormir um pouco mais
Enquanto levanto na ponta do pé
De volta na cama, um beijo e um cafuné
Você vira para o lado, se esconde no travesseiro
Desço e ligo o carro, ainda sentindo o seu cheiro
Tudo se esvai num piscar
Como encarar, esses olhos que se escondem com tanta frieza

Quanta indelicadeza teve quem inventou a tristeza

Atillas Felipe Pires
23\10\2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Lou"cure"-se



Aqui estão todos aqueles frequentadores da noite, todos aqueles que levam a vida desajustada e usada como exemplo a não ser seguido. Aqueles que acordam com ressaca física e  moral, todos aqueles que estão parados na vida. Aqui estão aqueles loucos que são condenados a ver o sol nascer bêbados, aqueles loucos que conversam com personagens noturnos que nunca mais verão na vida, aqui estão aqueles que não sabem o modo correto de viver, aqueles que estão sempre em movimento, a decepção, os errados. Aqui estão todos aqueles que não seguem os padrões, aqueles que estipulam o desvio de valores, todos aqueles que são insanos, profanos, pagãos, aqui estão todos os pinos redondos dos espaços quadrados, aqui estão todos aqueles subjugados, as notícias familiares, a preocupação dos genitores, os desorganizados. Aqui estão todos aqueles que misturam cerveja quente com vinho doce, aqueles que não se preocupam com a roupa amarrotada, todos aqueles que tem um furo no sapato e um botão faltando na camisa, todos aqueles que estão sempre atrasados. Aqui estão todos aqueles loucos, pois apenas eles e somente eles, tem o poder de mudar o mundo, “por que apenas os loucos o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são os que realmente o mudam”.

Atillas Felipe Pires
17\10\2017

Capitulação 3



Acordo cedo coloco as roupas no varal
Enquanto esquento o chá
Escuto o rádio de longe
Aproveito pra pegar o jornal e molhar minha retina
(rotina)

Ainda ontem comprei um novo vinil
Liguei minha vitrola de canto
Deitei olhando para o teto
Pra ouvir apenas o canto que de mim faz parte
(arte)

Rasguei ainda mais minhas barras
Estou com tantos buracos que já não sei contar
Só posso dizer que estou encarando uma barra
Tirei as mangas e fiz um colete, precisava rasgar
(elaborar)

Mudei a disposição dos móveis
Apenas pelo simples prazer de mudar o padrão do lugar
Pendurei novos quadros
Estabeleci uma nova paisagem
Um novo direcionador do meu olhar
O colorido desconexo que me causa miragem
Quero estar aqui, mesmo quando estiver em viagem
(santidade)

Quero aprender a fazer coisas mais delineadas
Reler e dar acabamento
Talvez maneirar um pouco o envolvimento
A conclusão anda sobre constante avaliação
Por favor não aperte com muita força meu coração
(oração)

Entre tragos e estragos
Calos e cigarros
Divagando a luz de brincos
Me escondendo atrás dos fatos
Um personagem bem definido
Minhas artérias sustentam fluxos fracos
Por fim são apenas mais um ser diminuído
Não vejo nada vindo, apenas minhas tentativas indo

Atillas Felipe Pires
17\10\2017

Existe uma casa

Houve um tempo em que eu frequentei uma casa
Uma casa pequena e profana em New Orleans
Nesse tempo eu vivia a pobreza e miséria
A pobreza e a miséria de muitos garotos de New Orleans

Nesse tempo a musica que tocava era The House of the Rising Sun
Meu tempo era vasto meu dinheiro restrito
O que eu podia fazer, era colocar The Animals na maquina de som
Enquanto esperava pelos serviços prestados, na geladeira mosquito e cerveja sempre quente
Os pratos eram sujos e os copos ensebados
As áreas comuns tinham um ar comovente
Enquanto isso, haviam garotos mal falados
Almas perdidas, na maior parte do tempo drogados

Houve um tempo em que eu frequentei uma casa
Uma casa pequena e profana em New Orleans
Eu me lembro do ventilador de teto, um barulho de rosca solta
Lembro da janela com o vidro quebrado na parte de baixo
Lembro também do ar cheio de perfume barato
Garotas pelos cantos com pelos, exibindo suas coxas e sua vida solta

Os anos passavam mais devagar
Meu moicano combinava com minha vida ingrata
As frases das tatuagens eram simbólicas e demoníacas
Nada além de uma ideologia barata
Uma cruz pendurada no pescoço me dava a falsa sensação de proteção
Deus não acompanha as almas entregues a perdição

Houve um tempo em que eu frequentei uma casa
Uma casa pequena e profana em New Orleans
Onde os olhares eram sem brilho
Onde todas as almas eram vazias como arvore oca
O espirito que vagava por ali era pagão
E eu estava sozinho
Eu também vagava, só que na magnitude da minha solidão

Naquele tempo eu costumava chorar antes de dormir
Enquanto ouvia no quarto ao lado
Alguém gemer e outro sorrir
As vezes eu olhava no espelho e me via ali também
Fazendo alguém gemer até eu mesmo sorrir
Eu não era eu mesmo, eu fedia a outrem
Naquele tempo eu costumava andar pelo vale
Eu não tinha medo de mal algum
Por que eu sempre fui o mais filho da puta do lugar
Eu trocava meu relógio por um góle
No final das contas eu sei que vale

Atillas Pires
16\10\2017