quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Cowboy não chora

Cowboys não choram
E heróis não morrem
Quando a chuva cair
Você tem que estar pronto
Eu nasci por você
Meu amor esse é o ponto

Sou cowboy sem botas
Sou herói mortal

E quando a chuva chegar
O herói não vai voar
Quando a chuva chegar
O cowboy vai chorar

Quando a janela se molha
Lá de dentro você vai olhar
Essa chuva cair
Vejo as poças formar
Prometi a mim mesmo
Sou cowboy não vou chorar
Por que eu sei que
Cowboys não choram
E heróis não morrem

Quando eu olhar la de dentro
Vou ver as poças formar
Quando a chuva chegar
Meu amor, vou me preparar
Eu perdi o meu tempo
Hoje não sei cavalgar
Eu perdi o meu tempo
Meu amor já não posso voar

Falso ponto geodésico

Qual meu centro geodésico?
O que bate forte na alma quando sinto seu sorriso com calma
E as palavras que raramente sei dizer
Que quando me vem o sabor tétrico
Um muro de Berlim se faz em mim
Onde a razão se antagoniza ao coração
E meu corpo se recompõem lépido
Com as analogias que me camuflam da verdade nua
Quando no fundo o que quero dizer
É que você brilha em meus olhos como a lua
Dessa luz tão presente, seguem os presentes
É coisa nossa
Desse sono que te toma
Sem reparar me pego olhando seus olhos de repente
O reflexo solar
Deixando no castanho claro a sombra dos seus cílios
Que me invadem como dois rios
Esse mundo esta mesmo invertido
A coincidência do sentido
“eaí dormiu comigo?”
Dessa vez não, um toque simples no coração
Sem aviso, no segundo encontro
Onde eu te encontro?
Aprendi que nessa vida
As coisas acontecem sem tapete de boa vinda
Um impacto seco e sem aviso
Por favor
Venha, venha sim
Venha comigo
E não deixa de trazer seu sorriso

Atillas Felipe Pires
10/10/2016
 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Só com hora marcada

- tudo bem, vamos partir do principio de que sua lógica esteja certa, vamos encarar a vida com essa maneira robusta e rude, pra não dizer pragmática demais.

- não se trata de pragmatismo, estamos falando de senso de realidade, estamos falando da visão fática que temos desse mundo insano e megalomaníaco. Reflita por um instante, nas objetivações das pessoas, pense nos porquês desse circo. Não há sentido entre a força vital despendida e o resultado final alcançado.


- juro por Deus e todos os Orixás, que não entendi uma misera vírgula do que você acabou de falar, sua escola é muito diferente da minha. Você permeia suas sentenças com palavras impactantes e prenuncia sua assertiva de maneira orquestrada para um impacto final, mas no fundo, não diz absolutamente nada, “insano”, “megalomaníaco”, “objetivações”, “circo”, traga o tema para o campo técnico de forma objetiva, deixe suas rodas linguísticas para seus falidos livros.


- por óbvio que não me entende, você se preocupa muito mais em anotar minhas palavras do que analisar a ideia, por não conseguir antagonizar meu ponto de vista, você descontrói a forma, sem ter um mero dizer analítico e crítico sobre a essência. Meu caro amigo, isso é vergonhoso.

- você me faz rir! Agora me passe esse isqueiro e alcance o maço de cigarro que esta na segunda gaveta dessa escrivaninha.

- por que diabos você guarda uma porra de uma pistola 9 mm na sua gaveta?

- chega a ser gratificante ver sair um palavrão dessa sua boca tão polida e prolixa. Eu não guardo, eu mantenho, é um pouco diferente, mas fique tranquilo, não esta carregada, é apenas uma mania de velho psicólogo que com o tempo aprendeu a manter o perigo e a segurança no mesmo aço forjado.

- minha conclusão é que os anos 60 nos fizeram realmente muito mal. Há quanto tempo estamos aqui nesse embolorado consultório, cheirando a fumaça de cigarro velha e encharcando nossos cansados fígados nesse uísque? Com o pretexto de novas ideias e discussões críticas, nos tornamos dois bêbados falidos que cruzam a perna e ascendem mais um cigarro enquanto segura o copo com a outra mão. Acho que não quero mais isso pra mim. Não consigo resolver meus conflitos internos, por isso bebo, e quando bebo, eu alimento meus  conflitos internos que não consigo resolver, entrando assim numa porra de um círculo vicioso fatalmente perigoso. Estou com meu espirito inchado, assim como esse meu corpo doente de 57 anos, quando olho no espelho com essa barba mal feita e essas rugas sobrepostas, consigo me ver daqui 20 anos, mesmo não passando míseros segundos, estou fadado a ficar aqui estático igual as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar. Lembre-se meu velho e nobre amigo, as pedras rolantes não criam musgos.

- gostei da referencia á Raul e Rolling Stone, de resto, amasse sua fala e jogue no lixo, vou te dar uma receita para remédios mais fortes, seu maldito viciado. Aliás, falando nisso, as quais você me deu já estão acabando, preciso de mais algumas.

- será que você não consegue entender, olhe para essas paredes, olhe para esse lugar, carpete empoeirado, móveis antigos e caros com aspecto ultrapassado, mogno de madeira maciça, um globo terrestre num canto esquecido, livros antigos desatualizados, e essa merda dessa poltrona velha. Em meio a tudo isso, nós dois, fingindo ser profissionais intelectuais, mas no fundo, não passamos de mais uma parte da mobília, somos velhos e empoeirados com nossos diplomas pendurados, nossas suspensórias e abotoadeiras, nossos anéis antigos no dedo mindinho. Cara, você não entende? Estamos nos acoplando ao ambiente a cada nova década que passamos aqui.

- e nossos clientes?

- o que tem eles, outros fodidos igual a gente.

(a companhia toca)

- atenda a porta você esta mais perto.

- mas cada a porra da secretaria?

- você a demitiu faz algumas semanas já.

- por que demônios eu fiz isso? E por que demônios você deixou?

- você estava bêbado e tinha acabado de cheirar uma carreira cavalar de cocaína, um cliente chegou sem hora marcada, e você num acesso de fúria tacou o cinzeiro na pobre da Luzia. Ela não suportou e foi embora.

- então eu não a demiti, ela quem quis ir embora.

- fatidicamente falando, foi o que aconteceu.

- mas que merda, quem é esse filho da puta que marcou sessão numa terça as 21h da noite?

- não faço a menor ideia.

- Puta que pariu, mande-o entrar.

Atillas Felipe Pires
13/10/2016

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quase sem querer

Quando aparece e desperta, meu dom não desperta a conquista! Quando cruza sem pedir passagem o meu caminho, no meu caminho não permanece, quando mira em meus olhos o brilho desses olhos, nos meus olhos não fica, quando quero que fique, triplica a marcha veloz e corre, de tanto medo do pretérito não pratica o futuro, quando eu miro o futuro, quem eu quero no presente me vê no pretérito, quando interrompe meus planos, não há planos por baixo dos panos, quando tento conquistar, não conquisto, só sabe me amar quem eu não sei amar, quando paro pra pensar, minha vida é apenas uma máquina de lembrar, quando peço pra ficar, toma rumo diferente sem olhar pra trás, furtiva mente que me prega uma lição, que se for pra eu querer não há quem vai me querer, então é melhor eu não querer, quem sabe meu enredo seja arredondar por aí as margens dessa triste sina, essa melancolia que me domina, quando chega pra ficar, desperta em mim o famoso sal do a(mar), pra no fim me deixar, se for pra eu querer ninguém vai me querer, então é melhor eu não querer.

Atillas Felipe Pires
16/09/2016

Nunca faço minhas barras

Liguei meu carro enferrujado
Com aquele banco antigo, e ronco acelerado
Um opala 76, onde mantenho meus budas pendurados
O cheiro de gasolina em cada acelero
A cada segundo vejo mais rápido ir passando o tracejado da BR 166
Ao meu lado meu violão desgastado no banco do passageiro
Eu sigo enfrente ouvindo no toca-fitas The Big Six (Os grandes 6)
O arquiteto da rima, fazendo 166 fechar com 6

Resolvi não levar muita coisa, apenas alguns jeans rasgado
Aquelas minhas pulseiras que são antídotos, pra salvar um coração alado
Minha antiga bota com couro surrado
Minha caixa de sapato cheia de fitas, onde mantenho todos os meus santos guardados
O cheiro de viagem natural quando paro em cada banheiro
Uma pousada barata onde a água sempre sai fria do chuveiro
Um cigarro a cada novo play apertado
E bem escondido embaixo do banco de trás
Um isopor com Countreau bem gelado
Não uso drogas, mas as vezes sigo embriagado
Apenas mais um corte na pele, desse ser famigerado

Com sinceridade desde os 27 que não sei qual é minha cidade
A vida na estrada por vezes nos faz perder a identidade
Deixei passar a idade
Mas por fim, me sobrou coragem
Vendi dois vinis que eram raridade
Comprei um violão
Saí por aí exteriorizando minha arte

Os passos por onde andei, deixei a marca do salto largo
A barra que raspa no chão, deixando o aspecto planejado
No fim um mero personagem de mim mesmo
No ultimo posto toquei “Mais do Mesmo”
Quando me falta criatividade deixo bem claro que sou o mesmo
Ficando evidente quando rimo três linhas com mesmo
Esse sou eu mesmo
Muito prazer, eu sempre fui o mesmo!

Atillas Felipe Pires
04/10/2016
 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Café, Cigarro e Fumaça (Principalmente Fumaça)

A gente costumava acordar entre as 11h e as 13h, eu deixava ela dormindo e descia para pegar o jornal na porta de algum vizinho do andar de baixo, voltava e normalmente ela já tinha acordado. Ascendia um cigarro e colocava a água do café para ferver, ela ascendia outro cigarro ainda na cama, levantava e abria a janela, jogava cinzas no porta-incensos (particularmente eu odiava ver ela fazer aquilo, era um insulto a mística dos cheiros de sabores). Mas a visão de vê-la apenas de calcinha com uma camiseta minha grande e larga, rasgada escrita Hard Rock Café, me fazia esquecer da intolerância pelo habito da cinza no incenso.

Vinha na minha direção e me abraçava enquanto eu já estava passando a água quente pelo coador do café, me dava um beijo na nuca e dizia “bom dia amor”, abria a geladeira e tateava algo para comer, sem sucesso, tínhamos o péssimo habito de esquecer de ir ao mercado. Eu ficava ali esperando a água passar pelo coador levando o pó de café consigo, a transformação das matérias, ficava observando aquela ebulição química, enquanto isso ela sentava na pequena mesa de dois lugares, ascendia outro cigarro, amarrava os cabelos num coque com uma caneta, erguia uma das pernas e sentava em cima da própria perna e começava a mexer nos meus rascunhos, por vezes fazia algumas anotações, sugestões e até correções ortográficas, fui um péssimo aluno de português, motivo pelo qual virei um notável escritor.

O café ficava pronto, eu pegava duas canecas de alumínio com a alça amassada, passava uma para ela, e pedia um cigarro, até hoje não encontrei prazer mais genuíno do que tomar uma caneca de café fumando um cigarro, eu sentava na outra cadeira da mesa pequena, segurava sua mão, enquanto pegava algum rascunho do bolo de papéis para ler (esse era nosso jornal).

- Acho que entrei numa vibe muito pragmática ontem a noite, olha isso: “ não existe amor enquanto não se aprender a conviver com a dor” sinceramente, esse não é muito meu estilo. Ela olhava para mim, levantava parcialmente da sua cadeira, passava a mão nos meus cabelos fazendo carinho na parte de trás da cabeça, me dava um beijo na testa e dizia: “você é ótimo”. Eu pedia outro cigarro!

Ficávamos um bom tempo ali sentados, as vezes, entre um cigarro e outro, a gente pouco se falava, apenas ficávamos lendo aquelas linhas escritas nas folhas de caderno com as rebarbas não arrancadas, esse era nosso trabalho, eu escrevia a noite, ao som de Wanda, Nelson, Cartola, ela enchia os copos, e dançava com a taça, eu me inspirava e viajava, no dia seguinte, fazíamos juntos o ritual da edição, onde líamos toda a produção da noite anterior, e juntos montávamos aquilo que de alguma maneira fazia sentido – as vezes era raro – principalmente quando eu me desprendia do pudor, e me entregava ao sabor seco e mágico de infinitas garrafas de vinho (tínhamos o ótimo habito de nunca deixar o vinho acabar).

Ali sentada ela ia pegando os papéis amassados e manchados de vinho, lia um a um, e fazia três diferentes montes: o primeiro era os quais deveríamos mandar para a editora, o segundo era os quais deveríamos guardar e complementar e o terceiro era dos quais mereciam a tristeza gélida do lixo da cozinha, eu nunca contestei seus critérios, possivelmente há contos e poemas que eu nem lembro que fiz e nunca li e que foram para o lixo, um filho que não conheceu o pai, um pai que não conheceu o filho.

Ela pegou um papel pequeno, meio rasgado, tinha apenas uma estrofe, a essa altura eu já tinha terminado meu café, e estava abrindo a gaveta da cozinha para ver se achava outro maço de cigarro, ascendi mais um e passei o maço para ela, ela nunca negava um cigarro, a fumaça subia, eu cruzei a perna e fiquei observando ela ali, com a mão entre os cabelos segurando a testa, algumas mechas caindo entre os olhos, lendo em voz baixa, ela não conseguia ler apenas com os olhos e eu achava aquele detalhe lindo, assim como todos os outros que compunham aquela obra de arte que ela era por inteira, eu tive um bom tempo para escolher a quem entregaria minha linhas, a quem dedicaria meus textos românticos que tão pouco publiquei, e quando a vi sentada naquele banco, no pátio central da faculdade, num sábado cedo, eu tive a mais absoluta certeza que seria pra ela que entregaria a minha melhor arte. O meu amor!

Naquele dia eu estava muito cansado, a noite havia sido longa, eu era um adolescente que gastava onda com amigos e bebidas até nascer o sol com seu brilho que socava minha cara enquanto dormia no banco do fundo do ônibus indo pra faculdade, eu desci cansado e sem vontade no ponto da avenida, e fui caminhando da forma mais lenta possível, parei em uma padaria, eu estava com uma ressaca de mil homens e um anão, pensei num misto, quase vomitei, fui até a prateleira do fundo e peguei uma bolacha (eu adorava Óreo) continuei andando e comendo uma bolacha de cada vez, raspando o recheio e comendo as partes separadas, entrei na faculdade, me dei conta que cheguei cedo, a aula começava as 9h30 e eram 9h00, sentei num banco, cansado e querendo dormir, no mesmo banco, um pouco mais longe, um grupo conversava, algo sobre uma delas que havia começado a cantar, o grupo se desfez, alguns tinham aula as 9h00, então ela ficou lá, sozinha, linda, com suas pulseiras e seus olhos castanhos mel, entre tudo que eu poderia dizer, entre todas as abordagens possíveis, todos os charmes disponíveis, me ative a dizer: “você quer uma bolacha?”.

Naquela manhã em especial, o monte do “lixo” estava maior que os demais, a noite anterior de fato tinha sido muito regada, inclusive me lembrei que em um dado momento da noite, eu parei de escrever, peguei ela pela cintura e comecei a rodá-la no alto, caímos é claro, e pela maldita lei dos azares, meu copo estacionou sua queda na minha segunda amada, a vitrola que berrava James Brown, sentimos a oscilação do som, mas bêbados não nos importamos muito, agora que não estava mais bêbado, tive medo de ligar e não ouvir mais minhas obras primas.  

Levantei da segunda cadeira da mesa pequena, e fui até a sala, tínhamos um móvel na parede lateral, onde eu com muito orgulho deixava minha coleção de vinil exposta, com outra caneca de café na mão, e com o cigarro na mesma mão, fui passando os títulos um por um, esperando aquele toque que nos diz: “quanto tempo não escuto esse”, então parei em Elis, tirei da capa de papelão e coloquei na agulha, o som encheu a sala: “não quero lhe falar meu grande amor..” por Deus, estava perfeito.

Deixei Elis falando e voltei para a cozinha, ela ainda estava trabalhando, olhei no relógio que tínhamos pendurado na porta da geladeira, já se aproximava das 14h da tarde, cheguei na parte de trás dela, segurei com as duas mãos nos seus ombros, naquela parte entre o pescoço e os ombros, apertei com carinho, senti ela se encolher e largar o papel na mesa, encostar sua cabeça na minha barriga e fechar os olhos. Naquele instante tive a certeza que tudo que fiz na minha vida até ali, era pra viver aquele momento, tudo que eu abdiquei, todos os erros e acertos, tudo que lutei, todas as noite, dias, semanas e meses de amorosa solidão, foi tudo para chegar até ali, pra viver aqueles segundos da mais genuína e perfeita paixão, que era a tradução exata do amor. Naquele instante, e apenas naquele instante, eu vi que valeu a pena todos os “eu te amos” que deixei de falar, por era pra ela que eu estava guardando todos eles. Ela me disse: “eu te amo” eu respondi: “eu te amo”, de forma tão natural quanto o nascer do sol que surge imperceptível no começo da manhã. Me peguei naquele momento completamente rendido, me peguei naquele momento, vivendo talvez a melhor parte da minha vida, passada, presente e futura, na verdade, aquele era o único momento em que eu me peguei vivendo.

Olhando ela de cima para baixo, com os olhos fechados e relaxando na proporção exata dos meus toques, eu pensei que queria aquilo para sempre, assim como os bilhetes que eu mandei pra ela na nossa primeira passagem: “por que pra mim, pra sempre é sempre pra sempre” antagonizando o pragmatismo de Renato Russo em sua celebre: “sem saber que o pra sempre, sempre acaba” Renato, que por sinal, preencheu nossa história com muitas de suas musicas, assim como o sábio e louco Nando Reis.

Guardamos o monte – que nessa manhã estava pequeno – dos “enviar para editora” na gaveta dos “enviar para editora” e fomos até a varanda, onde tínhamos duas cadeiras grandes, daquelas de velhos pacatos e velhas ranzinzas, sentamos cada um na sua cadeira, ela sempre sentava com os pés em cima da cadeira, e em dias frios, como estava aquela tarde, ela colocava as pernas dentro da camiseta, do nosso apartamento, a visão não era das melhores, víamos outros prédios, mas ao menos era um andar alto, já valia a brisa de ficar ali sem fazer nada, ou quase nada, já que nossos finais de tarde era preenchido com o inicio da noite que era pintado com os pincéis da cevada bem gelada.

Quando a noite foi chegando naquele dia, o ritual iria voltar, ela iria dançar, eu iria pensar, a vitrola iria cantar, a taça em algum lugar iria cair em algum momento, e assim passavam nossos dias naqueles dias, até ela virar fumaça e me deixar, até ela não ter vivido tudo aquilo, até o monte ter sido analisado sozinho, até a varanda ser apreciada sozinho, até o cigarro não ser compartilhado, até o café ser amargo e o cigarro pesado, até a massagem ser paga, e os poemas rasgados, até a vitrola que não funcionava a anos ser deixada na penhora e os vinil doados ao sebo, até as escritas serem esquecidas, e as editoras nunca vistas, até o final dessa utopia, dessa vontade de viver o que ficou onde deveria ter ficado.

Ela era o que eu nunca deixei ser, apenas na minha fantasiosa cabeça era o que deveria ter sido.

Atillas Felipe Pires
23/09/2016
 

Espelho, espelho meu

Olhando no espelho o que você consegue ver?
Sinceramente eu não tenho muito o que dizer
O que o tempo fez com você?
Nunca me importei, nunca fui de jogar pra perder
Onde estão seus amores? O que aconteceu com as flores?
Espremi com limão, adicionei vodka e temperei com minhas dores
O que você fez com a sua vida? Onde foi que se perdeu na estrada?
Eu nunca saí da estrada, e com a minha vida, eu prefiro não afundar o dedo na ferida
Como você se sente ao ver os emocionais que o cercam evoluindo? E você apenas indo?
Eu não sinto, apenas continuo indo, e vindo, as vezes, por hora estou sorrindo
Mas e todas aquelas coisas que Shakespeare falou? Sobre o amor e a tragédia andarem juntos?
Concordo em gênero numero e grau, só que no meu caso, os anjos do amor são moribundos
(mas fico com as tragédias)
Onde você pretende chegar? Quais seus planos? Qual o ritmo da progressão?
Quero chegar em quatro lugares: no bar, na mesa certa, na pessoa certa, na suíte vaga, e que aceite cartão
Entre a cruz e a espada?
O escudo
De direita ou de esquerda?
Ereto
Levando essa vida, você não se imagina sendo um verme social? Um inseto?
Quando criança eu colecionava insetos, seria bom ser um inseto
Por que o sarcasmo em todas as respostas?
Porque é a única coisa que me resta, nesse rio de bostas
E além disso, o que mais te resta?
Meus livros, pulseiras e minhas botas
Imateriais?
Minhas palavras, meus ideais
Sentimentais?
Meus pais, e nada mais
Amores?
Apenas os sabores (provincianos) dos pêlos pubianos
Porque tão sujo?
Nascemos melados
Por que tão baixo?
Tenho 1,83
E as bebidas?
Vamos
Nunca pensa em parar?
Apenas nas placa de pare
Sempre tão rápido? Clínico nas respostas?
Quando já sei as perguntas fica fácil
Como você sabe as perguntas?
Eu as estou escrevendo
Faz sentido, me esqueci por um momento, por que escreve?
Tenho dedos
E os enredos?
Tarantino
Os seus?
São meus
As ideias, de onde vem?
Das minhas ideias
E suas ideias, de quais ideais vem?
Das ideias dos livros que leio, e as vezes do além
O que é o além?
O que existe entre o momento da morte e o nascimento
Que profundo, e a filosofia?
Estudo do saber
Você gosta de saber?
Apenas das coisas que não me farão sofrer
Você já sofreu?
Muito
Por que?
Porque vivi as coisas certas nos momentos errados
Já pensou e reviver as coisas certas no momento certo
Cada pessoa é uma pessoa, cada momento um momento
E a pessoa? E o momento?
Foram embora, com os anos e com o vento
Ainda reflete?
Bem fundo na alma
E o que faz quanto a isso?
Reflito e amortizo a dor com calma
Qual o prazo da amortização?
Já se foram anos, quem sabe uma vida, só sei que bate forte no coração
Você é romântico?
Fui
Ainda é?
As vezes, comigo mesmo.
Egocêntrico?
Apenas quando bebo
Por que?
O mundo gira ao meu redor
Acha apropriado fazer piadas?
Sim, o rumo da conversa estava indo pra um abismo sem volta
Sobre o amor?
Não tenho mais
Certeza?
Ok, não mostro mais
Loira ou morena?
Disposta a tudo, pra mim tanto faz
Libertino?
Apenas quando parece atraente
Falso?
Camaleão social
DC ou Marvel?
Acho a diferença sútil, de universo a universo, tudo bem banal
Carnaval?
Vamos
Com quantos pau se faz uma canoa?
Não sei, só sei que com apenas um se come uma coroa
Sexista?
Realista
Machista?
Nunca
Marxista?
Fui
.

Atillas Felipe Pires
23/09/2016