quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Verde

Esse verde olhar que espancou meu coração
Como um raio de sol chegou e me deixou no chão
Iluminou e me aqueceu outra vez
Incrível como as vezes
As coisas acontecem sem razão

Atillas Felipe Pires
08\02\2018
Passei por passar por entre as sombras do seu olhar
Foi sem querer, mas quando me vi
Já estava morando lá
Não tive opção
Aprendi sem querer que nessas horas quem manda é o coração
Entre minhas ideologias, idas e vinda, meu caráter emocional
No fundo quando surge o amor
Não existe receita, nem regras, muito menos senso racional
Todas as minhas armaduras
Todas as minha antigas fissuras
Cicatrizes que fiz questão de exibir, hoje viraram meras firulas
Passei por passar por entre as sombras do seu olhar
Quando notei, já estava respirando o seu ar
Esperando a luz da mensagem brilhar no celular
Abrir sua foto
E perder tempo, nas cores que preenchem suas pupilas
Me fascinou sua falta de fascínio por mim
Sua segurança e beleza
De todas do gênero sua espécie é a mais bela
Que me fez pensar na vida, como quem ouve Montenegro à capela
Invadiu sem passaporte o meu domínio
Construiu estadia onde não havia residente
Me fez ver o mundo mais colorido do oriente ao ocidente
Num simples piscar de olhos, uma viagem sem volta
Por que pra mim
Quando é, é de verdade, por isso quase nunca é
E dessa vez é
“e o resto nem precisa rimar”

Atillas Felipe Pires
02/09/2016

Morte



O som ligado ainda rugia alto naquele carro capotado, o óleo estava vazando e fazendo uma goteira lenta de cima pra  baixo, as rodas dianteiras ainda estavam girando só que bem devagar apenas pelo impulso, uma fumaça branca emitia um barulho de vazão enquanto preenchia o ar com um cheiro de água quente misturada com gasolina. Lá dentro as gargalhadas presentes minutos antes se tornaram em um silêncio sepulcral, os corpos adormecidos no sono eterno repousavam imóveis e serenos.

O beijo da morte pode lhe tocar das maneiras mais imprevisíveis possíveis, pode ser no tilintar suave dos talheres de uma comida envenenada, pode ser num tombo bêbado bobo com a cabeça no meio fio, no concreto que se desprende do viaduto, uma bala que não encontrou seu alvo, ou quem sabe, o desvio abrupto de um cachorro em uma via pública banhada pela escuridão da noite.

Os corpos serão encontrados numa mesa fria para reconhecimento da família, os pais chegarão provavelmente já em prantos, mas com uma falsa esperança de que talvez por uma bondade do destino ou dos astros, a noticia seja falsa, desejando que aquele filho estendido seja de outra pessoa, o altruísmo humano se esvai completamente frente ao desespero, por Deus que seja o filho de outro. A sala provavelmente estará muito gelada, assim como a frieza daqueles que manipulam o lugar, a indiferença de quem trabalha com a morte é deprimente mas necessária e profissional. O primeiro ato do espetáculo de horror, é a retirada do pano branco, a certeza que teimava em não chegar agora se concretiza, os arranhões e os roxos nos olhos, a face um pouco inchada. A verdade nua e crua, o cheiro de morte e lagrima preenche o ambiente.

As primeiras horas são de descrença, o sentimento que prevalece é o de que em algum momento alguém chegará e dirá que tudo é uma tremenda mentira, que seu filho entrará naquela sala de espera andando e dizendo que esta tudo bem. As horas seguintes começam a aflorar outros sentimentos, o que será daqui pra frente, e os amigos, o quarto, o carro, a bicicleta, os tênis, as lembranças, ainda há lá no fundo a descrença, ou quem sabe, a inconsciente vontade de não acreditar no que esta de fato acontecendo.

No fundo presa por um suporte no canto superior da sala há uma televisão de poucas polegadas, esta passando um jornal de primeira hora da manhã, tenta-se prender a atenção em algo diferente, respira fundo, finge que esta tudo bem, inútil, a noticia começa nítida e termina sem a menor importância. O lugar ainda esta gelado, lá fora os carros começam a movimentar o dia, o mundo continua a girar como se nada tivesse acontecendo, ninguém se importa com todos aqueles veículos estacionados no necrotério publico, todas as histórias e sentimentos tristes presentes em cada um dos donos daqueles carros.
As engrenagens precisam continuar a girar, mas para aquelas pessoas, é brutalmente doloroso ver como o mundo continua exatamente o mesmo depois da morte, lá fora todos os carros estão andando, os rádios ligados ouvindo musicas matinais, a vida continua em todos os seus aspectos, mas não ali, ali não há mais vida, e as quais existem é como se não existissem.

Um funcionário entra na sala, chama o responsável pelo corpo, pede que o sigam até uma sala, onde serão preenchidos todos os papéis referentes ao enterro, dolorosamente todos os dados devem ser passados, o registro público da morte, a burocracia mórbida. Terminado esse processo é hora de escolher o caixão, o plano funerário oferece mogno, mas existe a possibilidade de comprar araucária!

Obrigado senhor, pela dor!

Atillas Felipe Pires
08\02\2018

Vênus

A ausência de brilho nos olhares cinzas
Desse bloco de pessoas ranzinzas
Onde foi parar a alegria no olhar
Onde foi parar o riso fácil que preenchia esse lugar

Não falo aqui de sentimento vil
Ou quem sabe alguma joia que minha retina não viu
Meu verso é simples é tanto o que é que não sabe o que é
Na confusão que me domina, estico os braços e amarro outra pulseira no pé

Eu tento nessa civilização decadente manter bem firme a minha fé
Mas olhando a distância é difícil acreditar que tudo isso não é o que é
Tudo o que vemos, me faz querer sair daqui, pousar em Vênus
Mitigar meu pensar, alinhar meus envolvimentos

Atillas Felipe Pires
08\02\2018
 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Massa Falida



Eu confesso, já estou cansado
De ser enganado com tanto cinismo
Não sou parte integrante do crime
E o próprio regime nos leva ao abismo
Se alcançamos as margens do incerto
Foram as decretos da incompetência
Falam tanto, sem nada de novo
E levam o povo a grande falência
Não aborte os teus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia
Não aborte os teus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia
Os camuflados e samaritanos
Nos estão levando a fatalidade
Ignorando o holocausto da fome
Tirando do homem a prioridade
O operário do lucro expoente
E a parte excedente não lhe é revertida
Se aderirmos aos jogos políticos
Seremos síndicos da massa falida
Não aborte os teus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia
Não aborte os teus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia
Não aborte os teus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Era do Depauperamento



Naquele dia em especial estava muito difícil preparar a aula, o cansaço mental do dia batia bem mais forte do que o normal, talvez estivesse ficando doente, o tempo tem mudado constantemente de maneira brusca e imprevisível. Levantou e foi até a cozinha, pegou uma cápsula de vitamina na geladeira, aproveitou para tomar sua capsula diária de alimentação e água gaseificada.

Voltou para a sala onde costumava preparar as aulas, precisava deixar aquele chip de história da humanidade pronto antes do amanhecer. Ainda não sabia qual seria o nível orgânico de aceitação dos alunos, é sempre uma surpresa como cada massa cefálica vai receber o material, não é incomum algumas rejeições. Por fim, após inseridas as informações, ele também precisava se preparar para as explicações técnicas, depois com as projeções memoriais  exibidas na cabeça de cada aluno, era preciso uma eximia didática para elucidar as informações inseridas.

Mesmo para um professor especializado no tema, sempre é um desafio explicar para as turmas a história da humanidade, as dúvidas eram inevitáveis e extensas, os alunos não tinham muita facilidade em entender todos os caminhos percorridos pelo homem até chegar no estágio de evolução ao qual se encontram. Algumas coisas parecem ilógicas, e realmente, é bem pouco crível alguns dos fatos e costumes que nossos ancestrais tinham.

Naquele tempo os humanos costumavam ter muitos hábitos orgânicos, a troca de fluídos era intensa e inclusive o principal e único meio de reprodução, além de um prazer pagão que os forçava a liberar vitamina e líquido reprodutivo sem a menor necessidade e se corromperem mutualmente abrindo precedentes para doenças fatais, os alimentos eram sólidos e precisavam ser cozidos, o corpo era frágil e precisava constantemente de suprimentos médicos e intervenções cirúrgicas. A utilização cerebral ainda não passava de 10% da capacidade total e quase todas as atividades eram desempenhadas com estímulos físicos e consequentemente geravam desgaste de fibras e células, causando o envelhecimento e por fim a morte – maior temor de nossos ancestrais.

Explicar sobre a morte era talvez a pior parte do tema, algo invisível que vinha sem avisar e fazia com que as pessoas deixassem umas as outras, causava tristeza e reações químicas orgânicas como choro e dor – outros temas que também eram complexos de tratar nas aulas.

Por ser o principal estudioso da história humana, já havia dado aquela aula por quase 97 anos consecutivos, então era possível prever quase todas as perguntas dos embriões, mesmo assim, sempre surgiam questionamentos que o faziam pensar, a evolução acelerada fazia com que cada vez mais as novas safras de humanos viessem inteligentes e dotados de dedução instantânea.

Seus pensamentos foram interrompidos por uma chamada telepática, projetou as imagens na parede da sala enquanto viu surgir sua ex-esposa:  ”Norbiteu preciso que você me envie os arquivos e lembranças do nosso casamento, o processo de fragmentação dos dados esta marcado para a próxima quinzena!”

A frieza com que ela lidou com o tema, o deixou de fato incomodado, talvez por ainda sentir resquícios do tal de amor por ela, por sinal, percorreu sua mente o fato dessa ter sido uma das poucas doenças milenares herdadas dos nossos ancestrais primitivos: o amor! Os sintomas ainda estavam bem presentes em seu organismo, aceleração dos batimentos, o peito pesado, respiração ofegante. Respondeu que esteve ocupado com as aulas, mas que iria compilar suas lembranças e enviaria os dados quanto antes fosse possível.

A voz robótica dela se foi, assim como sua imagem. Para ele é triste imaginar que ela pode estar nesse momento em qualquer sistema operacional satisfazendo as necessidade de alguém por aí. Mas absteve-se desses pensamentos e voltou para sua preparação curricular, sempre o animava a primeira aula do período letivo, a gana por conhecimento que os embriões surgiam era uma folha em branco para ser preenchida.

Como explicar para os alunos que seus pais históricos tinham o péssimo habito de se matar aos montes? Como explicar que era perfeitamente normal hábitos alimentares que aceleravam inversamente o período de vida? Eram todas questões que todos os anos eram levantadas e geravam calorosos debates sobre a veracidade dos escritos e provas históricas que baseavam o material lecionado. Para os alunos era extremamente impossível acreditar que haviam inúmeros hábitos de suicídio lento: drogas, cigarro, bebidas alcoólicas, comidas embutidas, açúcar, sal, fumaça de motores, petróleo, remédios, anabolizantes, televisão, micro-ondas, além disso, era impossível explicar o motivo pelo qual a limitação cognitiva dos humanos-primitivos os permitiu demorar tantos anos para perceberem os motivos da sua inevitável morte, os motivos pelos quais sua burrice os distanciava da eternidade. 

Em meio as suas análises, até para ele era estranho pensar nesses argumentos e pontos a serem explicados, o ser humano desde a sua criação havia passado por inúmeras civilizações e consequentes evoluções, mas o período chamado de Era do Depauperamento, foi sem dúvida o pior momento atravessado pela humanidade. Marcado por guerras, doenças, terrorismo, religião, poluição, televisão, indústrias, e principalmente mortes, quase culminou na extinção completa da espécie. Os principais historiadores dessa época, argumentam que foi o maior declínio atravessado pela raça, mas extremamente importante para que houvesse o pulo para evolução até que chegássemos no estágio em que estamos. 

Nessa altura de sua preparação para a aula, Norbiteu lembrou de um antigo texto histórico, que era tido como uma profecia da religião antiga chamada Cristianismo, principal crença dos humanos primitivos, lhe veio a ideia de inserir esse texto para explicar como os próprios humanos eram capazes de prever sua exterminação, mas nada fizeram para mudar seu futuro, lia-se desse relato histórico: Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos,Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons,Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te – 2 Timóteo Capitulo 3, Versículo 1 a 5.

Sinceramente, escrever sobre o futuro sempre foi um desafio bastante grande, talvez a vontade de mudar seu estilo bêbado para algo mais sério o fizesse criar narrativas bem pouco aceitáveis, sentiu que talvez não fosse o caminho correto a seguir, foi até o frigobar daquele hotel velho, abriu outra cerveja, ascendeu um cigarro Malboro vermelho, na volta para a cama diminuiu um pouco mais a temperatura do ar condicionado, tropeçou no tapete embolorado, bateu a ponta do dedo no pé no criado mudo, maldito quarto de hotel barato.

Atillas Felipe Pires
07\11\2017

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Nirvana



Desceu daquele ônibus antigo em uma das paradas, foi andando com todos os outros passageiros em direção àquela lanchonete de beira de estrada, não estava com vontade de ir ao banheiro, sentou-se no balcão e ficou olhando para as propagandas de cigarro na parede ao fundo do bar.

Não tinha muitas pessoas na lanchonete, o dia estava frio e caía alguns flocos de neve lá fora, se aconchegou um pouco mais no seu agasalho, pediu um copo de café com leite quente, ficou ali sentado e bebendo sua bebida lentamente. Por algum motivo, naquele exato momento foi atingido por uma felicidade extrema, como se tudo o que viveu até aquele momento era exatamente o que deveria acontecer para leva-lo até ali, sentado naquela lanchonete de beira de estrada, tomando um café com leite enquanto lá fora a neve caía, no fundo, um rádio chiado e falhando tocando alguma coisa não entendível.

Sentiu-se feliz por estar ali, no teto girava um ventilador, a velocidade era cadenciada, a luz batia e produzia uma sombra no balcão que tremulava conforme os giros dele, ele colocou sua mão sobre o efeito da sombra indo e vindo, ficou olhando aquilo por um tempo, com um olhar pensativo mas sem pensar em nada. Voltou seu olhar para sua caneca de café com leite quente, tomou mais um gole, reparou que ao lado do letreiro de cigarro atrás do balcão havia uma propaganda de cerveja, leu as letras pequenas. Só por ler, nada demais.

Aquele ali era o seu lugar, sem motivo algum, sem um amor, sem bebidas alcoólicas, sem fantasias, apenas a simplicidade de estar ali, sentado, sem fazer nada, enquanto lá fora a neve continuava a cair. Por algum motivo inexplicável aquele lugar pareceu lhe acolher como nenhum outro o fez antes, aquele banco alto de pernas finas, aquele balcão de madeira viva, aquela energia antiga e boa, a caneca e o letreiro da propaganda, a balconista, a garçonete, o barulho do rádio, tudo parecia estar exatamente onde deveria estar, uma sincronização inexplicável que o tocou profundamente. Sentiu estar no lugar mais feliz do mundo, no seu lugar mais feliz do mundo, aquele sentimento foi inescrupulosamente inesperado, arrogante, chegou sem pedir licença, o tomou por completo sem o menor pudor. Ele nunca tinha sentido àquilo, tudo pareceu mais colorido, mesmo sendo cinza, o cheiro do mogno e o doce do café com leite, aquele era o melhor lugar do mundo, ali, naquele balcão, naquele banco, com aquele café com leite, olhando para àquele letreiro.  

Reparou que os demais passageiros começaram a levantar para voltar ao ônibus, lentamente a lanchonete foi voltando a ficar vazia, apenas o barulho de rádio falhando no fundo. Olhou mais uma vez para a sombra tremulante do ventilador de teto, tomou seu ultimo gole de café com leite quente, fechou seu agasalho até o início do pescoço, pegou sua mala de mão e caminhou lentamente até o ônibus.

Entrou, colocou sua mala de mão na parte de cima do assento, sentou e encostou a cabeça na janela de vidro do ônibus, olhou para aquela lanchonete, enquanto a neve caía, o motorista ligou o motor, e o ônibus começou a se movimentar em direção a estrada, a lanchonete foi ficando para trás, e ele foi acompanhando-a com o olhar até quando foi possível, até que ela sumiu, até que ela ficou no caminho da sua viagem.

Atillas Felipe Pires
01\11\2017