terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Copo americano

Ele passou, foi 
Nem veio como disse que viria 
Seu trabalho ele deixou 
Por fazer 
Parede pela metade 
E disse que ser peão - por Deus - nunca foi sua vontade 
Caiu, sangrou o joelho 
Saiu, bebeu, fumou mais um Malboro vermelho 
Sorriu, sentou, tossiu 

Ele deixou a noite chegar 
Esperou ali mesmo parado 
Naquela mesa de bar 
Com a pele ainda cheia de pó e cimento 
Não tomou banho 
Ainda estava com seu uniforme 
Embriaguez solitária, que momento 
Sabia que ao sair ao meio dia do trabalho 
Com certeza desempregado hoje ele dorme 

Pediu mais uma dose, dessa vez da sem cor 
Pura, num copo americano 
Enfeite no balcão do bar do Seu Graciliano 
Que pena que não Graciliano Ramos 
A tarde representou um fracasso 
Olhou no relógio passava das sete e o começo da noite chegou 
Eu não vou, nós não vamos! 
Ele conversa consigo mesmo 
Esqueceu das duas filhas em casa 
Se embriagou 

A filha mais velha fecha a janela para evitar a entrada dos pernilongos 
Seu pai precisa de uma boa noite de sono 
Ela olha pela fresta da porta, e não o vê descer do ônibus da firma 
Seu coração se aperta 
Seu antigo medo invariavelmente desperta 
E seu olhar no espelho após o banho ingênuo 
Se torna involuntariamente comovente 
Sim, ela já sabe o que aconteceu 
Já sabe o que vem pela frente 
Seu peito se estremeceu 
(em sua irmã um abraço ela deu) 

Duas crianças abandonadas pela mãe 
Traição pública, exposta na praça 
Um pai eternamente perfurado 
Eternamente sem divina graça 
E utilitário do santo mais liquido dos otário 
Alcoolicamente usuário 
Uma garrafa de vodka sempre escondida no armário 

A noite caiu e pra rua a mais velha saiu 
(irmã mais nova escondida no guarda-roupa) 
Na periféria central do futuro que nos espera 
Virgens em casa sozinhas são a meta dos bandidos contemporâneos 
Chegou o tempo que temíamos 
A coleção de caldo puro 
Coleção de crânios 

E eu vou cantar e eu vou te falar 
Enquanto houver motivos que nos impeçam de dançar 
Enquanto houver razões para não sorrir e chorar 
Eu vou cantar e eu vou te falar 
Enquanto houver razões para meu caminho eu não mudar 
Vou ficar e esperar 
E talvez eu morra no caminho desse santo urbano desgastado altar 
Onde não há oferendas 
Onde há, mentiras camufladas, dor maquiada, cordeiro voando em dragões 
E não houver mais amor em nossos corações 
Toda a dor for normalmente aceita como remédio da tortura 
O mal virar bem contra o que for mais mal ainda 
Flagelo do futuro, avanço do retrocesso 
Seguiremos caminhando em desalinho 
Usina da ordem e desprocesso 

Hey, você por acaso viu meu pai 
Hey me da um dinheiro 
Preciso pagar passagem 
Preciso ir de bar em bar 
Nosso Santo do Terreiro, me ajude 
Óh meu pai 
Me ajude a te achar 
Me ajude a te ajudar 

Sabe aquele fim de tarde laranja 
Fumacento, como se viesse chuva 
No metrô as pessoas se matam pela fila para poder matar 
E o lugar de alguém ocupar 
(e jogar pela janela) 
Uma criança, 13 anos, preza fácil 
Meu pai, onde eu vou te encontrar? 

Ele achou que era tarde, tentou se levantar 
Beber sentado, ficar tonto ao tentar de uma vez caminhar 
Meu Deus, minhas filhas 
Pediu dois vidros de leite, embrulhe, preciso levar 
Não reparou no degrau 
Caiu 
Não se preocupou, ainda estava sujo do trabalho 
Na verdade ele sorriu 
( o riso falso provocado no excesso nosso de cada dia) 
Pode ser melhor que a dor nossa 
Tijolos, e cimento nos olhos 
A lagrima que escorre fez virar massa 
Agora ele se viu cego 
A imagem de um corpo de meio metro 
Na sua direção 
Pai! 
Vamos, temos que ir pra casa! 
Um lamento, mais dor por um momento 
Se arrependeu de todos os seus almoço 
(não da bebida) 
Pois sua menina não o conseguiu arrastar para casa 
Ouviu: Me ajude moço! 

E outra noite irá passar 
Amanhã, o relógio irá despertar 
E tudo irá retornar 

Atillas Felipe Pires 
07/01/2014 

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