Ele passou, foi
Nem veio como disse que viria
Seu trabalho ele deixou
Por fazer
Parede pela metade
E disse que ser peão - por Deus - nunca foi sua vontade
Caiu, sangrou o joelho
Saiu, bebeu, fumou mais um Malboro vermelho
Sorriu, sentou, tossiu
Ele deixou a noite chegar
Esperou ali mesmo parado
Naquela mesa de bar
Com a pele ainda cheia de pó e cimento
Não tomou banho
Ainda estava com seu uniforme
Embriaguez solitária, que momento
Sabia que ao sair ao meio dia do trabalho
Com certeza desempregado hoje ele dorme
Pediu mais uma dose, dessa vez da sem cor
Pura, num copo americano
Enfeite no balcão do bar do Seu Graciliano
Que pena que não Graciliano Ramos
A tarde representou um fracasso
Olhou no relógio passava das sete e o começo da noite chegou
Eu não vou, nós não vamos!
Ele conversa consigo mesmo
Esqueceu das duas filhas em casa
Se embriagou
A filha mais velha fecha a janela para evitar a entrada dos pernilongos
Seu pai precisa de uma boa noite de sono
Ela olha pela fresta da porta, e não o vê descer do ônibus da firma
Seu coração se aperta
Seu antigo medo invariavelmente desperta
E seu olhar no espelho após o banho ingênuo
Se torna involuntariamente comovente
Sim, ela já sabe o que aconteceu
Já sabe o que vem pela frente
Seu peito se estremeceu
(em sua irmã um abraço ela deu)
Duas crianças abandonadas pela mãe
Traição pública, exposta na praça
Um pai eternamente perfurado
Eternamente sem divina graça
E utilitário do santo mais liquido dos otário
Alcoolicamente usuário
Uma garrafa de vodka sempre escondida no armário
A noite caiu e pra rua a mais velha saiu
(irmã mais nova escondida no guarda-roupa)
Na periféria central do futuro que nos espera
Virgens em casa sozinhas são a meta dos bandidos contemporâneos
Chegou o tempo que temíamos
A coleção de caldo puro
Coleção de crânios
E eu vou cantar e eu vou te falar
Enquanto houver motivos que nos impeçam de dançar
Enquanto houver razões para não sorrir e chorar
Eu vou cantar e eu vou te falar
Enquanto houver razões para meu caminho eu não mudar
Vou ficar e esperar
E talvez eu morra no caminho desse santo urbano desgastado altar
Onde não há oferendas
Onde há, mentiras camufladas, dor maquiada, cordeiro voando em dragões
E não houver mais amor em nossos corações
Toda a dor for normalmente aceita como remédio da tortura
O mal virar bem contra o que for mais mal ainda
Flagelo do futuro, avanço do retrocesso
Seguiremos caminhando em desalinho
Usina da ordem e desprocesso
Hey, você por acaso viu meu pai
Hey me da um dinheiro
Preciso pagar passagem
Preciso ir de bar em bar
Nosso Santo do Terreiro, me ajude
Óh meu pai
Me ajude a te achar
Me ajude a te ajudar
Sabe aquele fim de tarde laranja
Fumacento, como se viesse chuva
No metrô as pessoas se matam pela fila para poder matar
E o lugar de alguém ocupar
(e jogar pela janela)
Uma criança, 13 anos, preza fácil
Meu pai, onde eu vou te encontrar?
Ele achou que era tarde, tentou se levantar
Beber sentado, ficar tonto ao tentar de uma vez caminhar
Meu Deus, minhas filhas
Pediu dois vidros de leite, embrulhe, preciso levar
Não reparou no degrau
Caiu
Não se preocupou, ainda estava sujo do trabalho
Na verdade ele sorriu
( o riso falso provocado no excesso nosso de cada dia)
Pode ser melhor que a dor nossa
Tijolos, e cimento nos olhos
A lagrima que escorre fez virar massa
Agora ele se viu cego
A imagem de um corpo de meio metro
Na sua direção
Pai!
Vamos, temos que ir pra casa!
Um lamento, mais dor por um momento
Se arrependeu de todos os seus almoço
(não da bebida)
Pois sua menina não o conseguiu arrastar para casa
Ouviu: Me ajude moço!
E outra noite irá passar
Amanhã, o relógio irá despertar
E tudo irá retornar
Atillas Felipe Pires
07/01/2014
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