quarta-feira, 8 de julho de 2015

Fusca de motor pifado



Ainda me lembro e sempre vem do nada
Aquele fusca de pneus carecas
Aquele bagageiro sempre lotado
Quantas idas e vindas naquela nossa vida de estrada
Meu fusca velho com adesivos sobrepostos
O som chiado daquelas musicas que nós sempre colocávamos no  repeat
Nando Reis, Tim Maia, ou qualquer coisa beat

Enquanto o som rolava eu segurava sua mão
Acelerando sem destino enquanto acompanhava a canção
“pra você guardei o amor que nunca soube dar”
Até a próxima curva fechada quando a faixa pulava
Eu te via me olhar e pra mim aquilo era tudo
Te ouvir dizer que sua melhor parte era a que dizia me amar

Ótimo clima, até o motor pifar
A fumaça do carburador subia forte e branca
Aquela merda sempre deixando na mão
O meu mau humor sendo colorido com o seu bem-estar
Enquanto chutava a lataria te ouvia cantar:
“..você me faz correr demais..os riscos dessa highway”
E tudo passava e eu dizia hey: “..só mais um abraço”
Um beijo na testa correndo risco nessa highway

Nessa nossa estrada a viagem era sempre muito conturbada
Eu sempre desarrumado e atrasado
Você a organizada
Esquecia de abastecer enquanto parava para comprar mais álcool, meu negócio era beber
Sempre ouvia me dizer: « não esqueceu de nada »
Por fim era quase sempre o mesmo fim
Com o próximo começo sempre evidente
Até o dia que encontramos a ultima estação
Te deixei em casa com um olhar tão comovente e o coração na mão
E nossa viagem ficou no passado como algo que esta sempre presente

Mas meu fusca eterno anda só a casca
Esperando pela próxima ida sem destino a qualquer lugar
 E tem dias que encontro a solução:
« escute garota, o vento canta uma canção
Dessas que a gente nunca canta sem razão
Me diga, garota : « Será a estrada uma prisão?  »
Eu acho que sim, você finge que não
Mas nem por isso ficaremos parados
Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão
Tudo bem garota, não adianta mesmo ser livre
Se tanta gente vive sem ter como dizer »
Me sopra assim do nada, essa bela canção
« nessa infinita highway »

Escrevo memórias invento histórias
Dessas do tipo que nunca vale a penas escrever
Eu penso em conexões
Quase sempre sem sentido
Como confundir fuscas e corações
Num belo quadro que nunca existiu
Mas que fica muito belo para quem imaginou e assistiu
Enquanto isso vou deixando minhas marcas por aí
Desse pneu careca, desse motor pra fundir
Copiando alguns dos ídolos
Nessa "infinita highway"

Atillas Pires
08/07/2015

O azar de ter sorte

Esbarrei com a sorte numa dose de azar
Enquanto saía por aí e me vi numa mesa qualquer de bar
Era noite fria mais sentamos na parte de fora
Eu pedi aquela que estava mais gelada
Mesmo sabendo que era um pouco fora de hora

Esbarrei com a sorte numa dose de azar
E nunca me vi numa onda positiva  como aquela
Algo que me lembrou as variações das ondas do mar
Era a sensação de viajar no seu olhar
Quem poderia imaginar que nas esquinas do destino
Eu iria sem motivo algum te encontrar

Dei de cara com a sorte e ela estava sorrindo
Enquanto eu me deitava em seu colo e me preparava para dormir
Minha sorte surgiu de carruagem e me encantou com seu instinto de liberdade
Não tentou me conquistar
Na verdade pareceu querer me esnobar

Me intriguei e percebi que encontrei
Minha sorte apareceu sem pedir licença
E me fez querer cada vez mais
Eu sentia como se fosse alcançar o inalcançável
Senti minha força inabalável
Algo que para mim sempre me tocou como algo tão improvável
Eu vi a sorte vindo na minha direção
E ela parecia trazer consigo um pouco de azar
Eu pensei que ia passar
Mas não passou

Eu senti o cheiro do hálito da sorte
Provei  seu beijo
Mas por fim, eu esbarrei no azar
Apenas um mero lampejo
A sorte chegou para me mostrar
Que as vezes é melhor ser um cara com azar

Atillas Felipe Pires
08/07/2015

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Carne Dada aos Vermes

Olha o pó do chão sem asfalto logo ali
Olha a placa do velho-oeste dessa terra sem fim
1800 e alguma coisa, no Estado do Teenesee
Escravidão de dar dó
Um vilarejo de uma única rua principal
Um xerife, dois ladrões, o padeiro, o padre e só

O forasteiro entrou naquele bar de luz baixa
Bateu as botas espantando a poeira da viagem
Sentou no balcão como quem não teme a morte
Sem colete, sem chapeú, sem cavalo, sem blindagem
Apenas o brilho constante de um estrela no peito
Pediu wisky puro sem gelo, sem viadagem

Aquele lustre de cordas longas tremeu no teto do lugar
Reluzindo o brilho da patente do recém-chegado
Refletindo de relance bem nos olhos do tal Jack Faz - Sangrar
O demoníaco perturbador daquela região
Colecionar de estrelas de xerifes
Ao todo sete deixou no chão

Levantou do fundo do bar e cuspiu o tabaco que mastigava
Andou lentamente na direção daquele homem sem chapeu
As expectativas ao redor fizeram tremer o lugar
Os olhos pequenos daqueles vaqueiros
Seres sedentos ao mesmo tempo medrosos e atrozes
Tornaram a cena coisa de cinema
A intensidade dos olhares criou o clima de holofotes
Mentalmente as apostas quem tem os braços mais fortes
Quem tem o dedo mais veloz

Estou disposto a ouvir sua história
Antes de decidir como vou te matar
Já que estou tendencioso a acreditar que é maluco ou esta quase a ficar
Nunca ouviu falar desse lugar?
Onde a lei não chega
Aqui quem manda e desmanda é esse que vos vem falar
Jack Faz Sangrar

As expectativas aumentaram nos seres imóveis
O oxigênio pareceu faltar
Na terra do pó o balcão é o altar
O silêncio perdurou
Lá fora o som do vento se fez ouvir
Enquanto passava através dos sete furos na placa do bar
Que Jack Faz Sangrar para cada xerife furou
Dizem que uma meta bem difícil de alcançar

Tenho aqui minha pistola
Nela tenho apenas uma bala
O chumbo forjado
A justiceira solitária
Para cada um dos sete que matou
Senhor Jack Faz Sangrar
Em nome da divina santidade
Essa única bala irá vingar
Mas antes quero saber sua história
Foi seu pai ou sua mãe que te estuprou na infância
Que te fez o pior dos seres dessa escória
Perdoe-me a petulância
Se for assunto pessoal não precisa responder
Não me importa na verdade
A história de um verme que em minutos vai morrer

O som do silêncio fez da madeira um piso gelado
O tom do lugar pareceu mudar em segundos
Os olhos inexpressivos e pequenos saltaram-se num grunhido contido
A plateia outrora imóvel se movimentou nas cadeiras velhas
O clima em minutos pareceu mais gélido
O vento  continuou a bater lá fora, agora com mais força
Balançou num assopro as cortinas como se fossem velas

Esta aí duas coisas que eu não sabia
Uma que eu tinha sido estuprado
E outra "..que difunto falava"
Não me perco em palavras meu dicionário é rural
Mas quero que olhe firme para aquela placa
Que esta bordada de estrelas como a sua
Onde eu fiz o meu mural
Faça seu convite para o próprio funeral
Não tenho medo da sua única bala
No meu tambor tem espaço para seis e estou sem espaço
Se é que me entende meu senhor metido a burguês
Já disse e vou repetir aqui a lei não tem nada para falar
Quem manda é Jack Faz Sangr...

Uma adaga surgiu quase que do nada
Saiu de entre as mangas daquele desconhecido forasteiro
Voou para entre os olhos do tal Jack num golpe certeiro
A pistola que brilhava a luz do lustre
Veio para selar o caixão com um tiro entre o tórax e o coração
Uma única bala
A marca registrada de um caçador de recompensas
Para calar a voz de um falastrão que estava no cartaz de procurado
Aquele sombrio homem retirou a estrela do peito
E jogou sobre o corpo que sangrava ali deitado
Não sou xerife meu senhor, apenas ouvi histórias a seu respeito
Mais um trabalho concluído
Mais um trato feito

O silêncio do lugar explodiu num grito de torcida
Como que numa festa em comemoração
Muitos não acreditavam o que tinha acabado de presenciar
Lá se foi a era do Senhor Jack Faz Sangrar

O forasteiro olhou ao seu redor deu um suspiro e voltou a se sentar
Pediu outra dose de wisky puro sem gelo
Sentiu um pouco de fome
Pediu também uma costela de carneiro com muito tempero
Terminou sua refeição
Levantou tirou seu cinto e amarrou ao pé do cadáver
Sem nenhum tipo de cerimônia ou aflição
Perguntou aos curiosos que a essa altura estavam todos em pé
Sabem a origem dessa palavra? Cadáver?
CArne DAda aos VERmes
Se não sabiam, agora sabe qual é

Carne dada aos Vermes

Levantou e foi embora arrastando aquele peso  pelo chão
O único ócio da sua profissão

Atillas Felipe Pires
15/05/2015

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Não é permitido fumar dentro desse estabelecimento

Aquele dia o vento parecia bater mais forte que o costume na janela do quarto, normalmente isso não o acordava, na verdade seu sono era muito pesado para ser interrompido por barulhos leves, nem mesmo o metrô que passava bem em cima do seu telhado tinha o poder de o despertar do seu sono bêbado. Mas aquele dia o vento o acordou, como que uma voz o chamando, o resgatando de todas as suas já encravadas melancolias e preocupações que apenas somem enquanto dorme.

Era apenas mais um dia na vida dele, que já há alguns anos repedia os dias como se todos fossem iguais, no fundo realmente eram, as lembranças de uma vida que ficou pra trás ainda as vezes o encontra, da época em que tinha belos cabelos e corpo desejado, escolhia para cada dedo uma mulher, para cada dia da semana uma nova história, brigas, sexo, bebidas, cigarros, lembranças de uma vida que o trouxe onde esta.

Levantou e pensou apenas em colocar alguma coisa naquela maldita janela, pensou em voltar a dormir, mas por algum motivo, naquele dia, resolveu fazer algo diferente, levantou e andou pela casa, um comodo pequeno embaixo da ponte do metro, aluguel barato, móveis usados, escolheu um vinil e escutou o chiado da sua empoeirada vitrola, a vida sem música é um saco, a vida é um saco, na verdade, tudo é um saco, a única coisa que não o é, é a musica. Enquanto ouvia aquela melodia clássica, sua alma se acalmava e seu corpo relaxava, era como mágica, o som daquele piano invadindo suas ideais e pintando seus pensamentos com algo que de longe lembra cores coloridas. Como há semana não acontecia, ele sentiu vontade de ver aquela que foi uma das únicas pela qual sentiu, como podemos dizer, sentiu breves, arrepios. Sentimentos!

Ela era uma mulher não lá muito bonita, trazia consigo um ar de loucura e um cabelo desajeitado e estiloso, quase sempre com o mesmo penteado, enrolado e preso com a ajuda de uma caneta ou algo do tipo, uma tatuagem na parte superior da mão esquerda onde se lia "até onde for" ela era a ela para ele. Ele não tinha ninguém por ele, mas sempre pensava nela, mas não queria que ela fosse quem sempre foi para ele. Uma boa companhia para noites de vinho barato e contas a pagar nos bar sujo da esquina, quase sempre duas horas de convivência, uma sóbria de conversas inteligentes, outra conturbada de dizeres sem sentido e vômitos bêbados, uma convivência anormal e invejável que em mais de uma elas se repetia. Havia mais de uma ela para ele.

Sentiu vontade de revê-la (as), já fazia quase um ano que não a via, teve curiosidade de saber quem era seu atual namorado, quase sempre algum idiota de vida social agradável e com sucesso no trabalho, advogado, médico, engenheiro, esse tipo de gente burra, diplomados acadêmicos e analfabetos na vida, ela namorava esses caras, por alguns meses, quase sempre o mesmo tipo, quase sempre o mesmo tempo, quase sempre o mesmo final, ela conhecia a vida, e nenhum deles a agradava nesse sentido, conversas vazias, pensamentos rasos, contas bancárias, cartões de crédito, mas na estante quase nunca um bom livro, empenho na academia, na corrida no parque, reprimindo-a nas noites de lua cheia quando queria tomar vinho de 20 litros no gargalo. Ela sentia falta dele e sua falta de crença na vida, sua forma de ver a fila do pão, suas criticas a quase tudo que passa na televisão.

Abriu a geladeira e ficou olhando, como quem sabe que precisa comer, que até esta com um pouco de fome, mas sem coragem para escolher nada que se apresenta, olhou para dentro e viu algumas opções, uma fatia de pizza da noite anterior, um pouco de arroz do começo da semana, feijão num pote de sorvete, fechou a parte de baixo da geladeira, abriu a de cima e pegou uma cerveja, abriu e sentou no sofá, olhou para o teto e ficou contando as voltas do ventilador, pensou que aquela cerveja estava realmente gelada, continuou olhando as voltas do ventilador, mais um gole, e outro, ascendeu um cigarro, continuou olhando as voltas do ventilador, levantou, diminuiu a velocidade no interruptor, pegou outra cerveja, elas realmente estavam geladas, deu um trago profundo no cigarro enquanto abria no canto da pia, olhou pela janela e viu o sol, resolveu desligar o interruptor do ventilador e sair de casa.

Colocou sua camiseta branca amassada como sempre, sua calça jeans rasgada, uma bota desbotada e um óculos escuro, as vezes sentia-se como um vampiro no sol, o brilho em todos os sentido o incomodava muito, a calçada de baixo do seu casulo, era sempre muito movimentada por causa da estação de metro que tinha ao lado, foi andando no mesmo sentido de todas aquelas pessoas, olhou um cara de terno e gravata, com pressa, tomando seu café - as 11h estava atrasado - ficou imaginando a vida daquele senhor, que mesmo novo, o passava uma impressão de velho caduco, para ele todos que vendiam a vida - vida em vendas - era caduco, tinha acoplado essa palavra a seu vocabulário, para ele, todos eram caducos, voltou para aquele cara do terno e ficou feliz por sua vida ter tomado um outro rumo, pelo menos ainda a tinha, diferente daquele caduco correndo as 11h com um café, que vive como um zumbi urbano, uma espécie medíocre de ser humano. Aquele tipo de gente que dorme antes do que gostaria para acordar antes do que deveria, que faz muito mais coisas por que tem que fazer do que por que quer fazer, aquela rotina desgraçada que por um tempo o perseguiu, acordar cedo com o barulho infernal do despertador, trânsito, ambulância, policiais, sirenes, a loucura do dia-a-dia, a vida criada e mau-desenhada, aquilo tudo o parecia ridículo, a vida de quem vive mais nunca esta vivo.

Ele continuou andando e já era quase 12h quando resolveu entrar em uma das portas de bares sujas que se apresentavam atrativas naquela mesma calçada, uma rua de centro, bem mais bares que igrejas é claro, numa terça-feira aquele horário os bares eram povoados por pessoas do seu tipo, desempregados, arruinados, alcoólatras, os noturnos desajustados, que sobreviviam da pensão da Previdência Social ou dos bicos que surgiam por aí. Entrou naquele boteco de esquina, sentou-se no balcão e pediu um conhaque com água, era um pouco cedo é verdade, mas aquele dia já estava sendo incomum desde o início, tomou um trago pequeno para sentir a mão do garçom, achou leve, tomou o resto de uma vez, pediu outro, ficou um tempo olhando para as propagandas de cigarros penduradas na parede atrás do balcão, homens e mulheres bonitos e bem barbeados, malhados, alguma frase de efeito, onde ele por si só lia, "fume até seu pulmão explodir" olhou aquilo e riu, por que era um fumante compulsivo desde os 23 anos. Ascendeu um cigarro!

"-Senhor!"

Já fazia um tempo desde a ultima vez que se pegou parando para pensar sem que estivesse bêbado ou imerso em algum tipo de discussão com uma das muitas frequentadoras de seus pensamentos e noites mal-dormidas, ficou imaginando o estado do seu pulmão, mudou de pensamento, imaginou onde poderia estar se tivesse seguido as placas apagadas da estrada que percorreu, devaneios sem sentido, quando na verdade sua preocupação era em como ganhar dinheiro para a próxima semana, no seu bolso haviam 70 pratas, e era só, todo o resto ganho da ultima publicação já tinha acabado, lembrou que muito provavelmente teria que escrever algo, qualquer baboseira que escrevia e as pessoas gostavam, mas há semanas estava sem ideias, o que o fazia ficar perdido em rodeios literários sem o menor sentido, escrevendo apenas para alimentar sua alma poética, sem pretenção, apenas escrevendo, mas agora era diferente, ele precisava de algo comercial, precisava vender.

Pensou em escrever algo sobre os bêbados, já que melhor classe de gente não existe, olhou para o lado e viu alguns exemplares, moribundos desalinhados, deitados com parte das costas na cadeira, dormindo sentado com um copo pela metade nas mãos, um boné sujo de massa de cimento, as mãos calejadas e os pés inchados, criando raízes naquele bar, pensou na família dessa gente, imaginou o abandono que os rodeia e em como o rumo da vida pode mudar num pequeno lapso de tempo, agradeceu a Deus por ter a opção de escolha, agradeceu por ser quem era como era por que queria, não por que simplesmente era, agradeceu por não ser um daqueles bêbados. Pediu mais um conhaque, agora sem água!

"-Senhor"

Seu cigarro estava quase no filtro, acendeu outro, deu um trago profundo e olhou de canto de olho para um dos bêbados, aquele em especial o chamou atenção, estava com terno e gravata, que não eram trocados a dias, amarrotado e sujo, achou interessante aquela vestimenta num lugar como aquele, quis saber qual era a história daquele mero cidadão que preenchia a decoração do lugar.

Pedro havia nascido em uma cidade pequena no interior do Estado, veio de uma família pobre, mas tanto ele como os irmãos tiveram a oportunidade de estudar e se formar em cursos superiores ou inferiores (de acordo com o seu entendimento). Havia se formado em Engenharia Civil e atuou como engenheiro na cidade onde nasceu, até decidir vir para a cidade grande atrás de mais dinheiro e menos tempo de vida.

Na cidade grande Pedro conheceu Amanda, uma menina linda que fazia estágio no escritório onde trabalhou antes de abrir o seu próprio, se apaixonou e logo se casaram, a vida se apresentava linda e bela para Pedro, engenheiro na cidade grande, uma bela esposa e em breve filhos com seus majestoso nome.

Confessou-lhe curiosidade em saber como diabos veio parar naquele lugar, naquela situação, mesmo que uma situação melhor do que aqueles que vivem a vida inteira em busca de um cenoura presa numa vara, aquilo parecia estar fora do lugar.

Aquela história e aquele nome o remeteu a um pensamento antigo que o acompanhou por alguns anos de vida, quando seu melhor passa-tempo, antes de descobrir a musica clássica, era deitar, fumar um cigarro enquanto a cerveja gelava ao som dos poetas mortos que sempre venerou.

"Quantas vezes Pedro você chora, sempre a se queixar da solidão, quem te fez com ferro fez com fogo, Pedro, é pena que você não sabe não, vai pro seu trabalho todo dia, sem saber se é bom ou se ruim, quando quer chorar vai ao banheiro Pedro, Pedro as coisas não são bem assim, toda vez que eu sinto o paraíso, ou me queimo todo (torto) no inferno, eu penso em você meu pobre amigo, que só usa sempre o mesmo terno. Pedro onde você vai eu também vou, Pedro onde você vai eu também vou, mas é que tudo acaba onde começou, é que tudo acaba onde começou!!"

Pedro lhe pareceu uma pessoa interessante, lhe pareceu alguém com histórias para contar, alguém que talvez merecesse alguns goles de companhia e alguns minutos de tragos, um ser curioso num ambiente hostil, aparentemente alguém amargurado e cheio de decepções para derramar no mundo, uma fonte sem igual de novas ideias e quem "- Senhor"  sabe de preenchimento de algumas linhas.

Ele pensou em voltar um dia um pouco mais bêbado e explorar aquela história, por hora, pediu outro conhaque, ascendeu outro cigarro e pensou por onda estaria ela, a mulher de cabelo enrolado dos namorados otários.

"- Senhor, estou tentando lhe dizer a 5 minutos, não é permitido fumar dentro desse estabelecimento"

Tomou seu ultimo conhaque num gole só, deixou o bar, voltou para a calçada, deu outra tragada, pensou: que lei mais idiota!

Atillas Felipe Pires
13/05/2015

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Saudade da Vila

Eu desci na vila pra encontrar aquela rapaziada
Aquela rapaziada do tempo do colégio
Eu fui a vila e não encontrei mais nada
Por que aquela rapaziada não esta mais lá não
Eu fui a vila e quem diria
Ah meu Deus, cadê aquela galera da praça?
Hoje estão todos casados
Que sacrilégio
Que piada sem graça
Eu fui a vila e não encontrei aquela rapaziada do colégio

Ouvi dizer que hoje o grupo da pilantragem
Agora leva os filhos na missa de domingo
Voltei no tempo, uma viagem
Lembrei do grupo da cerveja no bar da esquina
Hoje não tem ninguém mais disponível
Já tem até gente pensando no bingo
Eu vim na vila pensando em passar a noite
Mas vou voltar as 18
Ah meu Deus, que cenário horrível
Hoje a preocupação do sábado a noite
É ter que levantar na segunda às 8
Eu fui a vila mais foi como não ter saído de casa
Entre os 30 e os 20 tantas coisas mudaram
Não faço mais questão
Agora tanto faz
Eu vim a vila e não pretendo voltar mais
Olhei para as fotos
Uma pena o tempo não andar para trás

Eu passei pelos lugares que havia tanta vida
Lá encontrei escombros de um passado de festas
Um cenário que parecia de outra vida
Hoje não tem mais nada ali
Me senti criando uma ferida
Eu vi um copo descartável com aspecto envelhecido
Uma bituca de cigarro apagada
Eu vim rever a rapaziada mas não encontrei nada
Apenas lembranças da nossa jornada da segunda década
Entre os 18 e os 29 tudo tem bem mais brilho

Eu vim de lá
Eu vim de lá pra cá
E cá nada encontrei então voltei pra lá

Lembranças de uma outra vida
Saudade da rapaziada
Daquele tempo do constante hálito embriagado
Eu fui a vila e não encontrei mais nada
Apenas os rastros quase apagado
Daquele tempo
Daquela época que não volta mais
É uma pena o tempo não andar para trás

Atillas Felipe Pires
06/05/2015

terça-feira, 28 de abril de 2015

Uma placa em uma curva qualquer

Ele parou diante de uma placa na estrada
Com um anúncio colado já apagado
Aquela folha amarela exposta como outdoor
O lugar ideal pra expressar sua dor
O lugar ideal pra expressar seu amor
De uma caminhada de fazer dó

Uma história registrada em letras de forma
Uma história escrita em giz feito de tijolo
Tantas emoções transcritas naquele rabisco
Que faz o mais sábio dos intelectuais agir como um tolo
Essa caminhada sem destino já a muito o tem cansado
Mas os postos que aparecem na beira da estrada
Não o cativa, não o deixa animado
Ele vai continuar a deixar marcas nas curvas que encontrar
Enquanto seu coração ele continuar a guardar
Envolto em arame farpado
Imune a todas as mazelas das falsas donzelas
(estou desconte mais ainda acredito nelas)

Ele ficou ali parado pensando
Olhando para aquela placa na sua estrada
Qual seria a mensagem que deixaria
Qual seria a linha de pensamento que seguiria
Uma vez que já provou tantos sabores nessa jornada
Qual será o melhor agrado a seu paladar
Qual seria a história a contar
Ele ficou ali parado pensando
Quantas vidas já viveu enquanto em círculos esteve andando
(ou diversificando seu gosto, saboreando)
Ele ficou em dúvida
Qual seria a história a contar
(quem sabe o desenho ideal daquela feita para amar)
O desenho ideal daquele encaixe perfeito ao beijar
Qual história ele iria contar?

Uma história registrada em letras itálicas
Com voltas excessivas nas extremidades
Uma história que atravesse as idades
Que descreva a pessoa que o melhor lhe fará
O ser ideal que permeia seus mais distantes pensamentos
A vontade do envolvimento sem nada em troca
O mais puro dos sentimentos
Apenas pelo prazer de sentir o tocar na boca
O arrepio que desprende os pés do chão da realidade
O toque perfeito do ser imperfeito
Que no olhar brilhante e tocante pode ser sua outra metade
Sentir o calor da alma
Que nessa época anda distante
Sentir no cheiro natural
O afago perfeito da presença da sua ideal amante
(algo assim tão lindo e fascinante)

Ele apertou um pouco mais o giz em seus dedos
Pensou em quantas superfícies diferentes já tocou
Lembrou da textura de cada um daqueles momentos
Voltou para aquela placa na curva da estrada
Começou sua arte que não é linear
As vezes pintada
As vezes escrita as vezes falada
Ele sempre pensa muito antes de tudo
Mas no fundo seu lugar quem sabe
É fazer poemas no papel toalha na mesa do bar
Vivendo a vida por meio da visão turva do fundo da garrafa vazia
E quantas noites já se foram?
Quantos carnavais já passaram?
Ele tenta não pensar, hoje a noite esta tão solitária
Hoje a noite esta tão fria
Ele esta desenhando o amor sem perceber
Quem diria
O poeta que com o tempo desaprendeu a amar
Sentimentos bons voltou a desenhar

Enquanto isso as cores da placa não mudaram
Aquele papel branco e velho colado e esquecido
Pedindo um pouco mais de vida
Não querendo ser mais a placa naquele canto envelhecido
No canto esquecido daquela pouco usada estrada
Ele olhou para trás e contemplou sua ultima parada
Que estava logo ali na ultima virada
Já que o destino lhe deu sempre rotas em quadrilátero
Um roteiro quase sempre muito bem escrito
Enquanto em seu interior ecoa um silencioso grito
A alta gama de opções de tema para sua história
O faz não ter opções de temas
Nessas frases arredondadas, esse antigo teorema
Preenchendo o espaço
Já que não há nada para dizer

Ao fim do dia o giz não perdeu muito da sua cor
Ele não concluiu sua obra
Aquela folha branca ganhou parcialmente uma vida
Apenas um desenho para não passar em branco
(ou deixar o branco)
Distribuir toda a dor atribuída
Um coração até a metade
Ele parou no meio
Olhou para os lados
Agradeceu aos céus e a todas as divindades
Não escolheu uma frase ou alguém
Deixou no máximo uma mensagem a quem vem

"Vou seguindo desenhando minha história
...entre as paisagens que visitam meus olhos e
as imagens que tento guardar na memória
Desejando a cada dia que fique gravado em minha retina
Apenas o que me trará boas energias
..é tudo o que mais quero
Que o amor me alcance
Que o bom seu hálito doce me alcance, vem
Entre você e todos os santos
Eu peço licença e me retiro
Amém."


Atillas Felipe Pires
27/04/2015

quarta-feira, 15 de abril de 2015

PCM

As vezes a vida nos deixa de uma hora para outra perdidos 
Como se o chão faltasse Como se o nosso ar de uma hora para outra acabasse 
Mas não se desespere menina Sua força é infinita 
Como diamante em uma mina 
Mas não se desespere menina 
Prenda o choro 
Morda esse lábio inferior 
Eu posso sentir a sua dor 
Mas vou te dizer 
Tudo ficará bem 
Eu posso sentir a sua dor 
E os seus anjos também 
Que a mais forte luz te alcance em cheio 
Que mergulhe em seu peito 
Acalente seu sono 
Te traga bons sonhos 
Traga um tom alegre em seus olhos 
Algo assim, tão lindo quanto o som mais perfeito 
Com todas as cores brilhantes 
Bem lá no fundo do que parece não existir 
Dessa sua mina de diamantes 
E nós ainda iremos sorrir 
O rouco da sua voz vai me atingir 
Eu posso sentir a sua dor 
E os anjos também 
Que a mais forte luz te alcance em cheio 
Que mergulhe em seu peito 
Acalente seu sono 
Te traga bons sonhos 
Amém

Atillas Felipe Pires 13/04/2015